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João Guilherme Estrella é filho
da burguesia a acabou se tornando, mesmo sem sustentação,
um dos maiores traficantes do Rio de Janeiro dos
anos 90. Conseguiu livrar-se das drogas e sua
história é hoje contada em um livro
e também nas telonas, com o sucesso de
bilheteria Meu Nome Não é Johnny.
João virou estrela, virou exemplo, virou
herói. E como não poderia deixar
de ser, o Fatto Olé foi
atrás dele para um bate-papo exclusivo
em que ele fala até de seu estilo dentro
das quatro linhas. Aproveite!
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| João
Estrella promete lançar um CD |
De onde surgiu a idéia inicial
do livro? Foi você quem quis contar sua
história ou esse interesse partiu do Guilherme
Fiúza?
Já tinha pensado em algo do tipo,
mas a proposta formal surgiu do Guilherme. Foi
ele que, interessado, colocou essa idéia
em papel, montou o projeto e o sugeriu a mim.
Você já foi um típico
garoto rico carioca, um grande traficante e hoje
é produtor musical... Você
vê sua vida como um filme real?
É
bastante gratificante ter a vida contada em livro
e filme, ainda mais considerando que foi o primeiro
blockbuster do ano. Mas tem tanta coisa acontecendo
depois deles, que seria possível escrever
um outro livro, fazer um outro filme. Acabei de
fechar um contrato com a EMI, pela qual lançarei
meu CD...
Qual é a lembrança mais antiga que você tem da vida?
Lembro-me de estar passeando com meu pai pelo Aterro do Flamengo, quando ainda pequeno, momentos que ainda eram de paz.
O que leva um jovem de família
estruturada a mergulhar no mundo das drogas?
São vários os fatores. No meu caso específico, foi simplesmente pela curiosidade e pela busca de aventuras. Mas acho que cada caso é um caso, cada jovem parte para esse mundo por motivos próprios, mas só posso falar com precisão do que foi vivenciado por mim.
Quando se deu conta de que essa relação estava tornando-se séria?
Acho que essa relação começou a tornar-se mais séria com o tráfico, principalmente depois que a quantidade de droga estava cada vez maior.
Como enxerga hoje a sua trajetória? Arrepende-se de algum momento?
Não
me arrependo de nenhum momento sequer, até
porque no estado em que estou hoje, tenho a percepção
de vitória, de superação
de tudo o que vivi. E essa é a minha vida,
se me arrependesse, estaria me arrependendo de
tudo que vivi. É óbvio que não
faria tudo novamente, mas nem por isso me arrependo.
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| João
Estrella: antes e depois de ser preso |
Qual foi a aventura mais louca que viveu
tendo uma vida tão desregrada?
Mas
o que seria uma vida desregrada? Talvez ter que
acordar cedo e passar o dia trancado em um escritório
seja uma vida desregrada. Mas bem, quanto às
minhas aventuras, tem tantas... Mas uma que marcou
foi dirigir a 170 km/h do Carrefour ao Leblon
com 15 quilos de cocaína. As viagens também
foram inesquecíveis!
E qual foi o pior momento?
Certamente os 4 meses em que passei preso na Polícia Federal.
O que foi pior: permanecer preso em uma
cadeia ou em um manicômio?
São duas coisas ruins, mas diferentes. Apesar de o manicômio ser um lugar mais seguro e mais espaçoso, as preocupações lá são outras, são as psicoses alheias. Temos que nos controlar para que não percamos nossa saúde mental. Já vi cara lá entrar bom e sair doido.
Qual era a sua preocupação enquanto preso?
Certamente me manter calmo e lúcido.
A que você atribui a amenização
de sua pena por uma juíza que até
então era considerada mão-de-ferro?
Essa
amenização é relativa, pois
troquei anos da cadeia por dois em um manicômio,
onde o sistema era outro. Independente disso,
tive que pagar pelo que fiz. E se não saísse
de lá recuperado, essa pena iria se renovar
ao infinito. Se ainda estivesse usando drogas,
provavelmente teria voltado e lá ainda
estaria. Na verdade, tive uma oportunidade de
lutar pela minha liberdade, de melhorar, de me
recuperar.
Você declara que não usa drogas desde que foi preso, mas certamente ela ainda apareceu e aparece na sua frente diversas vezes. Como é lidar com essa situação?
Olha, não me incomodo em ver pessoas usando drogas na minha frente, não chego a me sentir tentado. O que me incomoda um pouco é ver pessoas da minha idade que ainda estão nessa. Daí eu tento dar um toque. Mas só...
Como você vê o crescente envolvimento de jovens de classe média com as drogas? Acredita que são eles os financiadores de todo o problema de tráfico?
Não, o tráfico cresce em cima da miséria, da falta de oportunidades.
No auge do seu envolvimento com a venda
de drogas, chegava a ganhar muito mais do que
um jogador de futebol. O que fazia com tanta grana?
(risos) Não cheguei a ganhar o que os jogadores ganham hoje. Mas eu simplesmente gastava a grana que tinha, vivendo bem, tomando bons vinhos, me hospedando em hotéis legais... Enfim, me proporcionava um dia-a-dia confortável.
Se tivesse um filho, de que forma incluiria
a discussão do tema "drogas"
em sua casa?
Certamente com bastante abertura. O diálogo tem que ter uma papel fundamental em uma relação como esta. Eu faria de tudo para que ele confiasse em mim.
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| João
Estrella com o ator Selton Mello |
Agora você se tornou produtor musical
e acabou de lançar um CD. Quais são
seus planos para o futuro?
Ter filho
é um deles. Quanto aos projetos profissionais,
pretendo dar continuidade e cuidar dessa carreira
musical e de compositor que tenho.
No filme, há uma cena em que o Selton está jogando uma pelada com os internos. Ao fim, em conversa com seu advogado, diz que é um verdadeiro craque. Isso é verdade? Qual é a sua relação com a bola?
Gostava de jogar na banheirona como o Romário. Sempre fiquei lá na frente para receber a bola e fazer o gol. Adoro fazer gols. (risos) No livro, inclusive, há um episódio que não foi retratado no filme. Participava de um campeonato e meu time acabou indo para a final. O jogo acabou em morte súbita e fui eu quem marcou o gol de ouro. Ultimamente, toda vez que jogo tenho me machucado. Mas adoro jogar uma pelada e ainda pretendo retomar assim que possível.
Para que time torce?
Torço para o Flamengo.
Como é o João Estrella
enquanto torcedor? Já fez alguma loucura
pelo seu time?
Na última Copa, destruí uma vidraça de um restaurante no qual assistia a uma partida. Estava empolgado e acabei dando um soco na parede, que na verdade era uma vidraça, e ela acabou se despedaçando inteira, mas felizmente, ninguém ficou ferido nem nada.
Tem algum ritual para assistir às partidas?
Uma cervejinha é sempre bom, né? Sou extremamente otimista e, para mim, cada jogo é um jogo. Não é porque as últimas partidas foram ruins que a próxima necessariamente será também. A maré é outra...
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