2008 - EDIÇÃO 118

MEU NOME É JOÃO ESTRELLA
Equipe Fatto Olé

João Guilherme Estrella é filho da burguesia a acabou se tornando, mesmo sem sustentação, um dos maiores traficantes do Rio de Janeiro dos anos 90. Conseguiu livrar-se das drogas e sua história é hoje contada em um livro e também nas telonas, com o sucesso de bilheteria Meu Nome Não é Johnny. João virou estrela, virou exemplo, virou herói. E como não poderia deixar de ser, o Fatto Olé foi atrás dele para um bate-papo exclusivo em que ele fala até de seu estilo dentro das quatro linhas. Aproveite!

Foto: Divulgação
João Estrella promete lançar um CD

De onde surgiu a idéia inicial do livro? Foi você quem quis contar sua história ou esse interesse partiu do Guilherme Fiúza?
Já tinha pensado em algo do tipo, mas a proposta formal surgiu do Guilherme. Foi ele que, interessado, colocou essa idéia em papel, montou o projeto e o sugeriu a mim.

Você já foi um típico garoto rico carioca, um grande traficante e hoje é produtor musical...  Você vê sua vida como um filme real?
É bastante gratificante ter a vida contada em livro e filme, ainda mais considerando que foi o primeiro blockbuster do ano. Mas tem tanta coisa acontecendo depois deles, que seria possível escrever um outro livro, fazer um outro filme. Acabei de fechar um contrato com a EMI, pela qual lançarei meu CD...

Qual é a lembrança mais antiga que você tem da vida?
Lembro-me de estar passeando com meu pai pelo Aterro do Flamengo, quando ainda pequeno, momentos que ainda eram de paz.

O que leva um jovem de família estruturada a mergulhar no mundo das drogas?
São vários os fatores. No meu caso específico, foi simplesmente pela curiosidade e pela busca de aventuras. Mas acho que cada caso é um caso, cada jovem parte para esse mundo por motivos próprios, mas só posso falar com precisão do que foi vivenciado por mim.

 Quando se deu conta de que essa relação estava tornando-se séria?
Acho que essa relação começou a tornar-se mais séria com o tráfico, principalmente depois que a quantidade de droga estava cada vez maior.

Como enxerga hoje a sua trajetória? Arrepende-se de algum momento?
Não me arrependo de nenhum momento sequer, até porque no estado em que estou hoje, tenho a percepção de vitória, de superação de tudo o que vivi. E essa é a minha vida, se me arrependesse, estaria me arrependendo de tudo que vivi. É óbvio que não faria tudo novamente, mas nem por isso me arrependo.

Foto: Divulgação
João Estrella: antes e depois de ser preso

Qual foi a aventura mais louca que viveu tendo uma vida tão desregrada?
Mas o que seria uma vida desregrada? Talvez ter que acordar cedo e passar o dia trancado em um escritório seja uma vida desregrada. Mas bem, quanto às minhas aventuras, tem tantas... Mas uma que marcou foi dirigir a 170 km/h do Carrefour ao Leblon com 15 quilos de cocaína. As viagens também foram inesquecíveis!

E qual foi o pior momento?
Certamente os 4 meses em que passei preso na Polícia Federal.

O que foi pior: permanecer preso em uma cadeia ou em um manicômio?
São duas coisas ruins, mas diferentes. Apesar de o manicômio ser um lugar mais seguro e mais espaçoso, as preocupações lá são outras, são as psicoses alheias. Temos que nos controlar para que não percamos nossa saúde mental. Já vi cara lá entrar bom e sair doido.

Qual era a sua preocupação enquanto preso?
Certamente me manter calmo e lúcido.

A que você atribui a amenização de sua pena por uma juíza que até então era considerada mão-de-ferro?
Essa amenização é relativa, pois troquei anos da cadeia por dois em um manicômio, onde o sistema era outro. Independente disso, tive que pagar pelo que fiz. E se não saísse de lá recuperado, essa pena iria se renovar ao infinito. Se ainda estivesse usando drogas, provavelmente teria voltado e lá ainda estaria. Na verdade, tive uma oportunidade de lutar pela minha liberdade, de melhorar, de me recuperar.

Você declara que não usa drogas desde que foi preso, mas certamente ela ainda apareceu e aparece na sua frente diversas vezes. Como é lidar com essa situação?
Olha, não me incomodo em ver pessoas usando drogas na minha frente, não chego a me sentir tentado. O que me incomoda um pouco é ver pessoas da minha idade que ainda estão nessa. Daí eu tento dar um toque. Mas só...

Como você vê o crescente envolvimento de jovens de classe média com as drogas? Acredita que são eles os financiadores de todo o problema de tráfico?
Não, o tráfico cresce em cima da miséria, da falta de oportunidades.

No auge do seu envolvimento com a venda de drogas, chegava a ganhar muito mais do que um jogador de futebol. O que fazia com tanta grana?
(risos) Não cheguei a ganhar o que os jogadores ganham hoje. Mas eu simplesmente gastava a grana que tinha, vivendo bem, tomando bons vinhos, me hospedando em hotéis legais... Enfim, me proporcionava um dia-a-dia confortável.

Se tivesse um filho, de que forma incluiria a discussão do tema "drogas" em sua casa?
Certamente com bastante abertura. O diálogo tem que ter uma papel fundamental em uma relação como esta. Eu faria de tudo para que ele confiasse em mim.

Foto: Divulgação
João Estrella com o ator Selton Mello

Agora você se tornou produtor musical e acabou de lançar um CD. Quais são seus planos para o futuro?
Ter filho é um deles. Quanto aos projetos profissionais, pretendo dar continuidade e cuidar dessa carreira musical e de compositor que tenho.

No filme, há uma cena em que o Selton está jogando uma pelada com os internos. Ao fim, em conversa com seu advogado, diz que é um verdadeiro craque. Isso é verdade? Qual é a sua relação com a bola?
Gostava de jogar na banheirona como o Romário. Sempre fiquei lá na frente para receber a bola e fazer o gol. Adoro fazer gols. (risos) No livro, inclusive, há um episódio que não foi retratado no filme.  Participava de um campeonato e meu time acabou indo para a final. O jogo acabou em morte súbita e fui eu quem marcou o gol de ouro. Ultimamente, toda vez que jogo tenho me machucado. Mas adoro jogar uma pelada e ainda pretendo retomar assim que possível.

Para que time torce?
Torço para o Flamengo.

Como é o João Estrella enquanto torcedor? Já fez alguma loucura pelo seu time?
Na última Copa, destruí uma vidraça de um restaurante no qual assistia a uma partida. Estava empolgado e acabei dando um soco na parede, que na verdade era uma vidraça, e ela acabou se despedaçando inteira, mas felizmente, ninguém ficou ferido nem nada.

Tem algum ritual para assistir às partidas?
Uma cervejinha é sempre bom, né? Sou extremamente otimista e, para mim, cada jogo é um jogo. Não é porque as últimas partidas foram ruins que a próxima necessariamente será também. A maré é outra...