2008 - EDIÇÃO 117

FILHO DE PEIXE
Por Cristiane Nascimento, especial para o Fatto Olé

O músico João Suplicy não herdou a paixão do pai pela política, mas é santista como o senador da República. Também não pensa em se candidatar a nada, como a mãe Marta, mas mirou-se no irmão, o também músico Supla. Nessa deliciosa conversa, ele nos conta sobre como lida com as questões políticas em casa, cita suas fontes de inspiração e fala de futebol, é claro. E não desafina nunca!

No Brasil, é melhor ser boleiro ou músico?
Ao contrário do que muita gente acha, essas duas profissões são bem difíceis. Nem tudo é alegria. Tanto o jogador quanto o músico têm que treinar constantemente e ser bastante disciplinado. Mas ambas atividades têm em comum a questão do prazer. Geralmente, todos os jogadores e músicos são apaixonados pelo que fazem, o que acaba tornando suas profissões mais prazerosas.

Quando você começou a cantar?
Não sei dizer exatamente quando comecei a cantar. Mas por volta dos 10, 11 anos, comecei a tocar violão e desde então o canto tornou-se algo mais constante em minha vida. Desde então, tive a certeza de que queria aquilo para a minha vida, que aquela era a minha carreira.

Quais são suas maiores influências?
São muitas e bem variadas. Entre elas, Beatles, Chico Buarque e Stevie Ray Vaughan. Três delas que representam universos musicais completamente distintos.

Como funciona o seu processo de criação?
Muitas vezes é a partir de uma idéia que surge em qualquer horário do dia, numa conversa, vendo um filme, lendo um livro ou ouvindo uma frase. Qualquer detalhe dessas situações pode desencadear toda uma música. Isso acontece geralmente quando eu componho sozinho. Mas gosto muito também de compor em parceria e para isso, geralmente marco com o então parceiro e começamos os dois a construir a música aos poucos, até que ela fique pronta.

Como conseguiu unir duas sonoridades aparentemente tão distintas: o rock com a bossa nova?
Justamente pelo fato dessas duas sonoridades pertencerem a universos absolutamente antagônicos, que me empolguei ao acreditar que eu poderia uni-las de forma harmônica. São dois movimentos que surgiram quase na mesma época e que têm uma importância enorme para a música mundial. Acabei tomando o desafio para mim e o resultado acabou ficando bem legal. Minha música é bastante autoral, nela está estampado muito do que eu sou, do que penso. Creio que o meu público se identifica com isso, caso contrário não compraria discos, não iria aos shows. Agora quanto a uma música completamente comercial, desta eu tento fugir ao máximo, principalmente porque estaria sendo falso comigo mesmo.

Apesar de irmãos, você e o Supla fazem um som completamente diferentes um do outro. Já rolou muita discussão por conta disso?
As brigas geralmente acontecem quando tentamos fazer algo juntos. Daí cada um quer uma coisa e dificilmente entramos em acordo.

Você é o caçula da família. Quando menor, via seu irmão como um ídolo?
Ah, sim. Entre a gente há uma diferença de 8 anos, então, quando eu era criança, ele já tocava. Lembro que ele trazia vários CDs pra casa, entre eles, os do The Police. Bastante do que eu ouvia era por conta dele.

Qual contribuição João Suplicy está deixando para a música popular brasileira?
Eu não sei e acho que seria muito pretensioso da minha parte tentar responder a esta pergunta, até porque eu estou apenas começando. Apesar de já ter quatro CDs lançados, ainda tenho muito a fazer pela música brasileira.

Já que o papo aqui também é futebol, para que time torce?
Torço para o Santos.

Conte alguma história curiosa sobre a paixão pelo clube?
Há uma história da qual participei, mas a loucura não era exatamente minha. Tenho um amigo santista fanático que se mudou para o exterior há algum tempo. Haveria um determinado jogo do Santos que não seria exibido em nenhum canal por lá. Combinamos, e no dia e na hora da partida, me conectei com ele pelo Skype e posicionei o computador na frente de TV. Dessa maneira, ele pôde assistir ao jogo.

Quem são seus ídolos?
(Pensativo) Pelé.

Qual é a sua relação com a bola?
Tenho uma ótima relação com ela. Tento jogar toda semana, mas por conta de shows, divulgações e outros trabalhos, nem sempre consigo. Mas estando em casa, jogo sempre que dá.

Existe uma ligação entre música e futebol?
No Brasil, essa conexão se dá principalmente pelo samba. Acho que este é o som que mais representa o futebol brasileiro. Tanto é que a maioria dos jogadores gosta deste ritmo e sempre que podem, estão batucando em algum lugar.

João, seu pai e sua mãe seguiram carreiras políticas. Nunca pensou em ser político?
Sinceramente, nunca houve pressão alguma para que eu seguisse a carreira deles.

Como filho de políticos, certamente já deve ter se deparado com muitas críticas relacionadas à atuação deles. Como você lida com essa situação?
Convivo com isso desde pequeno e lido muito bem com tais críticas. Eles optaram por estarem expostos dessa forma e conseqüentemente, estão mais suscetíveis a serem criticados, é algo que faz parte do trabalho deles.

Qual é o seu envolvimento com a política atualmente?
O meu envolvimento com a política consiste apenas em acompanhar o que está rolando. Em algumas de minhas músicas, como em Papelão, chego a abordar o tema, mas nada muito além disso.