2007 - EDIÇÃO 111

CAZÉ E SEUS NEURÔNIOS
Por Cristiane Nascimento, especial para o Fatto Olé

Quer saber de uma coisa? Bastou o ex-careca Cazé Peçanha deixar as madeixas crescerem para o ex-careca Ronaldo também adotar o ‘new look’. Ok. Pode até ser coincidência, mas uma coisa é certa: o VJ Carlos José de Araújo Pecini é o fenômeno da comunicação jovem. Ganha muito menos que o R-9, é claro, pois o cara não tem o menor cacoete com a redonda. Vixe. Mas é um profissional super-engajado na área cultural. Seu gol de placa é divertir e informar milhares e milhares de garotos, que até torcem por Ronaldo em época de Copa do Mundo, porém, assistem Cazé todos os dias da semana na televisão brasileira. Durante essa entrevista exclusiva, a bola vai pingar em diversos temas interessantes do nosso cotidiano... Boa leitura.

Foto: Divulgação
Cazé é um dos idealizadores do site Gafanhotos

Quem são os deuses e os demônios da televisão brasileira?
Acho que nós mesmos, os telespectadores. Somos tanto os deuses como os demônios.

E qual é o futuro da televisão com a explosão da Internet?
Bom, as coisas estão começando a se misturar. Não sei até que ponto será possível definir as diferenças. Então, talvez o futuro da televisão com a explosão da Internet seja a junção disso tudo. Pode ser que a televisão de hoje não exista mais amanhã. O legal da televisão é que não precisamos ter interatividade nenhuma. Quando você não quer pensar, você simplesmente senta-se à frente dela e fica lá, recebendo a programação que alguém montou para você.

Numa boa, o que faltou para a sua carreira explodir na Rede Globo?
Eles disseram que faltou mais audiência. Tive total liberdade para fazer o que queria e a direção da Globo teve total liberdade de tirar o programa (Sociedade Anônima) do ar.

Essa transformação no seu visual também representa um amadurecimento profissional?
Não. Trabalho com a imagem e sou uma pessoa muito inquieta, gosto de mudanças. Já experimentei vários cabelos desde que deixei de ser careca e já estou com saudades da careca. Não tem nada a ver com amadurecimento, mas sim com um processo natural meu. Não é porque estou com cabelo agora que estou mais maduro do que quando estava careca. Acho que não é por aí não...

Para você que transita em todas as áreas culturais, o que significa criatividade?
Criatividade está ligada com leveza, com a busca por um ponto de vista diferenciado, um recorte em que nenhuma outra pessoa pensou. Criatividade é tentar mostrar outros lados de uma mesma coisa. A vida acaba se repetindo, vão mudando apenas as roupas, as formas, as cores... A partir do momento em que você consegue fazer algo da sua rotina de uma maneira diferente, você se torna uma pessoa criativa.

Foto: Divulgação
Cazé e Ronaldo: ambos abandonaram a careca

Como funciona o seu processo de criação?
Normalmente eu preciso de 3 horas para criar alguma coisa, para conseguir redigir sobre algum tema. Isso foi algo que eu fui percebendo ao longo dos anos: 3 horas é um tempo importante para mim. Normalmente estou sozinho, pensando depois de uma leitura ou de uma conversa com um amigo. Preciso então reciclar as idéias, seja com um livro, com a internet ou com um parceiro. Após essa troca e essa imersão em outros universos, tenho o momento de elaborar e um terceiro, de construir. É um processo muito parecido com a digestão, só que a produção não seria um resquício a se jogar fora, não seria um excremento.

Depois de vários anos trabalhando ao lado dos jovens, qual foi a grande mudança que notou na cabeça da galera?
Acho que é perceptível que as pessoas têm mais informações. Antes, a televisão e o rádio eram os veículos que noticiavam de modo mais rápido. Hoje em dia não é mais assim, eles perderam o lugar para a Internet, que hoje é a grande fonte de informação para o jovem. A grande mudança rola na maneira como os jovens se comunicam, estando muito mais conectados com o mundo, o que pode ajudá-los a se tornarem mais críticos.

Por que cultura no Brasil costuma rimar com sepultura ou qualquer tipo de coisa velha?
Eu não tenho essa percepção, não. Gosto de cultura e conheço muita coisa nova e diferente que vem sendo feita. Se, por algum motivo, cultura rima com sepultura em alguns momentos, talvez seja porque tenha gente enterrando e escondendo-a.

Bom, vamos falar um pouco de futebol. Cazé, qual é a sua relação com a redonda?
Basicamente, o futebol é uma grande paixão do meu filho. Eu mesmo não tenho uma ligação forte. Meu filho tem sete anos e adora futebol. Assisto a alguns jogos com ele, que é são-paulino. Para mim, particularmente, futebol é isso. Os jogos que eu gosto de acompanhar são os do Brasil, nada além.

Acha que o Brasil tem infra-estrutura para sediar a Copa em 2014?
Acho que a questão não é ter ou não infra-estrutura, até porque esta pode ser construída. Acho muito triste o que aconteceu com a produção da sede do PAN, na qual se gastou muito mais do que era previsto e possível. Temos que nos organizar a fim de arranjarmos um custo real, possível para a situação de nosso País.

Foto: Divulgação
Cazé e Marina Person compõem o Casal Neura da MTV

O que seria pior, ter o Dunga como técnico da seleção em 2014 ou o Lula no final de seu terceiro mandato?
Pô, acho que o Lula, né? Até porque o impacto que ele exerce sobre a nação é muito maior. Está mais do que na hora dele sair, já deu o que tinha que dar.

Você ainda tem esperança em nosso País?
Tenho que ter, afinal, a esperança é a última que morre. Tanto é que se não a tivesse, me contentaria com o que há. Sou eu quem banco o Gafanhoto, que busco financiamento e patrocínio para a manutenção dele e dos cursos que promovemos. Estou lendo um livro chamado Made to Stick, cuja tradução chama-se Idéias que Colam. Nele, há uma idéia com a qual concordo. Se olharmos para o tudo, acabamos não fazendo nada. Temos que pensar micro e focar no indivíduo. Somente assim conseguiremos fazer algo efetivo.

Você consegue se definir em uma palavra?
(Pensativo) Estranho. Sou um cara estranho, meio esquisito. Não tenho horários fixos e definidos, viro noites, tenho umas idéias malucas...