2007 - EDIÇÃO 110

O 'X' DE XICO SÁ
Por Cristiane Nascimento, especial para o Fatto Olé

Pelos cálculos do Fatto Olé, está cientificamente comprovado: Xico Sá é capaz de traduzir os segredos da alma feminina com a mesma habilidade que comenta o futebol. Jornalista, colunista, escritor e blogueiro. Um cara multimídia. Ah, também tem várias parcerias com o Mundo Livre S/A – banda do mangue beat pernambucano. Para inverter totalmente o jogo, o Fatto Olé escala o santista fanático em outra função: aqui ele não entra em campo para perguntar respostas, mas sim para responder perguntas. Então, vamos em frente: boa leitura!

Foto: Divulgação
Xico acha que é um homem mal-diagramado

FATTO OLÉ - Tem uma dúvida que invadiu a alma do povo da redação: qual o 'X' da questão no seu nome, Xico?
XICO SÁ - Nos anos 80, trabalhava no Jornal do Commercio e cobria futebol na época. Uma vez, um cara lá assinou meu nome assim. Primeiro tive um susto, mas depois acabei achando legal e meus amigos começaram a falar para eu deixar o tal do “X” e pronto, ele ficou.

Se você fosse entrevistar a si mesmo, qual pergunta não poderia deixar de fazer?
Tratando-se de futebol, minha pergunta seria a seguinte: ‘Você não acha uma grande besteira os homens chegarem a perder tempo e até mesmo algumas mulheres por conta do futebol?’ Daí eu responderia que não. Tenho várias amigas e tive namoradas que não entendiam esse nosso envolvimento com o futebol, mas acho que isso é uma necessidade ancestral. Desde a Idade Média os homens sempre estiveram envolvidos com algum tipo de espetáculo parecido. Pena que antigamente as pessoas eram jogadas aos leões, nas arenas. Hoje isso já não é mais preciso – o que acaba sendo muito melhor. (risos)

Fala sério, Xico: você é capaz de trocar uma mulher por uma partida de futebol?
Confesso que do meio do campeonato pra frente, prefiro o futebol; depois me acerto com a mulher. Sempre gostei que minhas namoradas tivessem vários amigos, justamente para irem ao cinema nessas ocasiões. Agora, por exemplo, todos os jogos são fundamentais. Tenho que arranjar alguma fuga para ela (namorada), desde que não seja para os braços de outro. E eu ficarei vendo o meu futebol tranqüilo.

Tem algum ritual para assistir às partidas?

Tenho vários. Sempre vou assistir aos jogos do Santos em estádios, tanto aqui em São Paulo, como também quando ocorrem lá na Vila Belmiro. Tenho inclusive um grupo de amigos que sempre se reúne e desce para a Baixada Santista. Quando vou ao estádio, sempre uso uma camisa muito velha do time, que passei a adotar depois de achar que ela dava sorte.

E aquela roupinha rubro-negra de torcedor?
(risos) Em casa, é a coisa mais louca do mundo. Uso moletom preto, uma camisa vermelha e uma meia cinza, todos bem velhos, roupas de dormir mesmo. Acabo vestido de rubro-negro, o que não tem nada a ver com as cores do Santos. Uma loucura que não tem tamanho. Tudo isso porque uma vez me peguei com essa roupa em algumas vitórias do Santos... Já cheguei a não ir assistir aos jogos nas casas de amigos porque eu não queria ir com essa roupa. Ficava então em casa, vendo sozinho.

Futebol é coisa pra macho?

Não, futebol é pra todo mundo. Hoje a mulherada está muito presente no futebol. Nos estádios há uma presença muito significante delas. Estão sempre acompanhando e comentando. Mas ainda acho que há muita resistência. Muito triste foi esse episódio com a bandeirinha Ana Paula, de não mantê-la na primeira divisão. Acho que ela era um grande incentivo para formar e levar mais mulheres para o futebol.

Na sua opinião, qual será o futuro do futebol feminino no Brasil?
Acho que vai crescer... Agora já teremos uma Copa do Brasil, um campeonato pequeno ainda, mas que já é representativo. Se começassem a colocar os jogos femininos nas preliminares dos principais jogos masculinos das séries A e B, por exemplo, certamente a visibilidade seria maior. Veja bem, as jogadoras possuem um domínio técnico impressionante, que há 10 anos eram inimagináveis.

Foto: Divulgação
Xico antecipa os desejos femininos

Futebol é alienação do povo ou expressão popular?
Não acho que futebol seja alienação. Discordo totalmente dessa visão que rolou nos anos 70. Naquele contexto, a ditadura utilizava muito a imagem do futebol e acabava distorcendo-o. Mas a força com que o povo assimila o futebol é pura celebração e alegria. Não acho que há ligações com essa coisa mais orquestrada e ideológica. Se fosse assim, na Itália o mesmo prevaleceria. No entanto, durante alguns campeonatos emblemáticos de lá, o partido comunista cresceu e os anarquistas tomaram conta de alguns poderes. Portanto, não concordo com essa relação de alienação não, acho falsa.

Você acha que o Brasil está bem de comando: Lula na presidência e Dunga na Seleção?
Sinceramente, acho que o Dunga é pior do que o Lula. Ele padece um pouco de falta de domínio e de conhecimento estratégico do futebol, não tem a experiência de um Luxemburgo e de um Muricy. Ele é muito cru. E eu não acredito muito nessa mística da raça. ‘Ah, vamos que a raça ganha’. Não acho, não... Ela é obrigatória, todos têm que jogar com gana sim, mas têm que ter bastante domínio técnico e estratégico, até mesmo para que o time possa sair de algumas sinucas que por ventura apareçam.

Falando nisso, é mais importante o cargo de presidente ou o de treinador da seleção no nosso País?
O cargo de presidente é infinitamente mais importante, mas em alguns momentos, numa Copa do Mundo, por exemplo, um treinador de futebol acaba sendo mais questionado do que o próprio presidente. Dessa maneira, uma besteira do Dunga é tida para as massas como algo mais importante do que uma pisada na bola do Lula. Nesses momentos específicos, o espaço ocupado por um técnico suplanta o de presidente da república, já que a pátria toda se volta para uma competição.

SEGUNDA PARTE DA ENTREVISTA