2007 - EDIÇÃO 106

A COR DE UM TIME VALE MAIS QUE MIL GOLS
Por Paulo Favero

Ilustração: Renato PradoCom quantas tonalidades se faz um time? A velha máxima deturpada, diga-me que cores usas que te direi quem és vale também para o mundo da bola. O estudioso das cores Paulo Félix defende a idéia de que uma equipe de futebol tem de escolher bem as cores de seu uniforme, caso contrário as vitórias podem não aparecer. “Utilizar a cor como estratégia é uma tendência mundial”, diz o químico, psicólogo, vice-presidente do Procor do Brasil e que faz doutorado em biodinâmica do movimento humano.

“Sou vice-presidente deste instituto que tem por objetivo divulgar esse negócio da cor, que envolve aspectos multidisciplinares, como física, química, psicologia, simbolismo, marketing, fisiologia, entre outros fatores”, conta. Em um pequeno esforço de memória, chega-se a lembrar dos novos uniformes do Palmeiras, Chelsea e do Barcelona, todos com cores vibrantes. “Esses luminosos são pigmentos recentes, mas desbota com o tempo e aí tem o efeito contrário, perde a vivacidade. É preciso pensar na forma, pois é um fenômeno bastante complexo”, explica.

O Palmeiras, por exemplo, sempre que jogou com seu novo uniforme verde-limão foi muito bem. Foram cinco jogos, quatro vitórias, oito gols marcados e apenas um sofrido. O time cresce em campo com o novo uniforme. Se multiplica. “É um elemento de marketing extremamente importante. Quem estuda a cor, vai se preocupar com o contraste. O verde é ruim em um campo que já é verde, em termos de percepção. Mas no aspecto psicológico, o verde acalma. Em uma pesquisa que fizeram com golfistas, a maioria preferiu o verde, que é bom para a atenção e concentração. O verde pode esconder, mas pode funcionar como elemento surpresa, como uma arma”, lembra.

Drogba, Terry e Ballack iluminados pelo novo uniforme do Chelsea.

Se o verde não é das cores mais indicadas para a camisa de um time, o vermelho parece cair sob medida. Tanto que o técnico Hugo Sanchez, do México, já avisou que sua seleção deixará de usar o tradicional uniforme verde para adotar o vermelho. “Os clubes não têm uma pesquisa para dizer como chegaram àquelas cores. Mas o vermelho, para atrair torcida e mídia, é extremamente importante. Está ligado à nobreza e, mais do que tudo, está ligado à vitalidade. Representa vida, energia e isso é importante no futebol”. E continua: “A cor é uma linguagem emocional. Cientificamente, o vermelho é capaz de aumentar os batimentos cardíacos. Mas é preciso acertar na tonalidade”.

Um outro quesito importante é na escolha da camisa do goleiro. Antigamente, muitos acreditavam que todo goleiro deveria usar o preto, para que o atacante não percebesse a localização exata do arqueiro. Mas tem um lado negativo também. “Vale a pena fazer um estudo da personalidade do goleiro. O preto esconde, tem um lado negativo que pode revelar insegurança. Do ponto de vista da física, ele diminui. Já a cor viva vai atrair a atenção do atacante”, adverte Paulo Félix.

SAIBA MAIS
A Adidas, empresa que fabrica a camisa do Palmeiras, explica que tanto a tonalidade da camisa do Verdão quanto a do Chelsea tiveram a intenção de inovar. A multinacional tem um estudo de cores e busca referências na história dos clubes, dos grande momentos, de jogadores e times que marcaram época. As escolhas nunca são feitas ao acaso.

No caso palmeirense, a idéia foi usar um tom que possuísse um apelo mais moderno e que fosse diferente, mas sem fugir do verde, a cor histórica do clube. Já a camisa do Chelsea, chamada de Eletricity, tenta resgatar o passado da equipe, mas com uma tonalidade diferente do amarelo das décadas de 1970/80. Quem também usa cores vivas e vibrantes em seu uniforme é o goleiro Iker Casillas, do Real Madrid.