2007 - EDIÇÃO 104

“MEU ESCRITÓRIO É NA PRAIA”
Por Cristiane Nascimento, especial para o Fatto Olé

No surfe, o importante são as atitudes e, mais do que as atitudes, o equilíbrio entre o homem e a natureza. Aquela manobra perfeita: o corpo, a alma e o mar. Num desses points preciosos da vida, o Fatto Olé fez uma 'barca' com o catarinense Teco Padaratz, o surfista mais emblemático do Brasil. O cara está na crista da onda faz um tempão. Aqui na nossa praia, ele fala sobre os bastidores do esporte, futebol, vida e conta que está montando uma banda de surf music. Opa, viver sobre as ondas virou um baita negócio. Então, vai um Teco aí?

Foto: Divulgação
Teco é um dos maiores surfistas brasileiros

FATTO OLÉ: Afinal de contas, o Brasil é o país do futebol, do vôlei ou do surfe?
TECO: O Brasil é o país do futebol. Existe este slogan, mas acho que o Brasil é o país do esporte.

Como você começou a surfar, Teco?
Comecei a surfar quando eu tinha 10 anos de idade, com alguns amigos em Balneário Camboriú. Brincava com uma prancha de isopor e uma hora experimentei ficar em pé nela e a partir dali, nunca mais quis fazer outra coisa.

Você é um dos nomes mais emblemáticos do surfe. Qual é o segredo para se manter tanto tempo na crista da onda?
Olha, eu abandonei a competição de forma bem precoce, com apenas 33 anos. Sempre mantive um envolvimento com a mídia do SportTV, assino algumas colunas de revistas e tenho uma empresa de surfe. Acho que esse envolvimento com a mídia me manteve na ativa, sempre em nome do surfe. Agora, organizo a etapa brasileira do Campeonato Mundial de Surfe, juntamente com dois sócios, no sul do Brasil.

Viver sobre as ondas virou um bom negócio: seu escritório é na praia?
Sim, considero que meu escritório seja na praia mesmo. Consegui desenvolver toda uma seqüência na minha carreira para que fosse assim. Mas nem todo mundo consegue ter essa oportunidade. Tive a sorte de conhecer pessoas e parceiros ao longo da vida que me ajudaram muito. Mas é um negócio muito incerto também. Assim como outros esportes que crescem no Brasil, a competitividade aumenta a cada dia. Não é um mar de rosas, não. São poucos os surfistas que conseguem estabelecer uma carreira legal, ter um patrimônio e certa segurança de futuro. Tem muita gente ralando e ganhando bem pouco com isso.

Foto: Divulgação
Além de surfe, Teco também pratica Ioga

O Brasil é um país tropical, com várias feras do surfe, mas os jornais publicam apenas notas pequenas... Rola algum preconceito?
Acho que é uma questão de tradição. E queira ou não, existe um grande tabu que divide o que o surfe deixa de ter e o que ele já tem. O surfe, por um lado, tem uma indústria gigantesca, que é independente e única. Os meios de comunicação não são atrelados a ele, nem nada. Ele precisa então entrar na grande mídia. Há escala para isso e deveria haver mais patrocinadores. O que acontece é que eles ainda não enxergaram a forma ideal de utilizar a imagem do surfe como algo a acrescentar, entendeu? Acho que aí é que rola o grande preconceito, em como usar o surfe na mídia. Até a própria televisão não sabe muito bem como transmitir, está aprendendo ainda.

E como você acha que o surfe deveria ser apresentado ao público?
Deveria haver investimento de grandes empresas nas imagens dos ídolos do surfe brasileiro. Através da criação de ídolos em maior escala, começa a existir perspectiva de negócio. Investimentos do governo federal, que ainda são muito precários dentro desse esporte, poderiam ser maiores. O que falta é todo esse credenciamento. O surfe é um esporte maneiro, acessível a todas as pessoas, é livre e popular. Você não precisa pagar um clube para surfar, basta pegar sua prancha e ir pra praia. Hoje, há cerca 3 milhões de praticantes do esporte no Brasil.

Rola a cultura do futebol de praia entre os surfistas profissionais?
Rola muito pouco porque pode haver contusões. Uma contusão no tornozelo é algo que tira o cara da competição. Então rola mais na brincadeirinha, de vez em quando.

Qual é o seu time?
Sempre gostei do Vasco, mas torço pelo Figueirense, que é o time da minha terra, Florianópolis.

Foto: Divulgação
"O mar é a origem de todos os seres humanos"

E a sua intimidade com a bola?
Jogava futebol na época de colégio. Depois que parei de competir, comecei a jogar bastante com amigos. E há muito tempo, meu pai foi jogador também. Tive várias experiências com o futebol, mas nunca nada muito sério. Mas sou completamente apaixonado por futebol, sou doente por ele, acompanho a todos os jogos pela televisão.

Quem é o Teco Padaratz do futebol brasileiro?

Puxa vida, que pergunta! (risos) Como eu vou responder essa pergunta sem ser pretensioso? Sei lá... Eu não teria como me comparar, mesmo porque são poucos os surfistas que conseguiram estabelecer uma imagem dentro do surfe, já que o esporte é bem jovem. Enquanto no futebol, há milhares... Nomeando algum, estaria deixando vários de fora. Mas se tivesse que fazer essa brincadeira, diria que estou mais para o lado de um cara como o Dunga, por ter me envolvido na política – sou representante dos surfistas na mesa da Associação Mundial de Surfe há muitos anos –, organizo eventos, empresario alguns atletas, enfim, por todo esse lado político e estrutural do esporte com o qual me envolvi. Eu seria algo como o Leonardo do Milan ou o Dunga mesmo.

E o Ronaldinho do surfe?
O Ronaldinho do surfe pra mim é o Fábio Gouveia.

SEGUNDA PARTE DA ENTREVISTA