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Aqui
não é a Disneylândia... Muito
menos a Broadway. Para o seu conhecimento, o cenário
também está longe de ser um conto
de fadas. Vida bandida é nossa trilha sonora.
Pobreza, malandragem, violência, sangue
e solidão se misturam com palavras criativas
e idéias vorazes. A cor predominante é
o cinza. Melhor assim, nada pode ofuscar o brilho
dessa entrevista exclusiva. Lobão, um híbrido
de Salvador Dalí, Carlos Lacerda e John
Lenon... Uma fera capaz de colocar qualquer leãozinho
de Hollywood para correr. O Fatto Olé
encarou sem medo e, agora, você tem a oportunidade
inédita de invadir a mente do pensador,
um homem tenebroso, psicodélico e com os
dentes afiados à mostra.
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| Definitivamente,
sobriedade não faz parte do vocabulário
deste grande lobo psicodélico |
FATTO OLÉ - Lobão, apesar
da influência do rock, você define
sua música como MPB... O que caracteriza
a sua música?
LOBÃO - Eu sou músico,
não sou engenheiro. Sou popular, não
sou erudito. Sou brasileiro, não sou chinês.
Então, sou músico popular brasileiro.
(risos)
Quais são suas principais influências?
Porra, é difícil, tem muita coisa.
Vão desde Dalva de Oliveira, Beatles, Vila
Lobos, Stones, Stravinsky, Jimi Hendrix, Queen,
música negra americana, Aretha Franklin,
James Brown, Mangueira... Enfim, uma porrada de
coisas.
Qual foi a grande contribuição cultural
do Lobão para a música popular brasileira?
Ah, isso quem vai saber são os caras que
forem me estudar. Eu sou apenas um cara que quero
me divertir, quero tentar melhorar, me curar...
O resto é conseqüência.
Como funciona o seu processo de criação?
Eu fico sentado me esforçando. Procurando
nos meus arquivos aquilo que eu já anotei
e pensei, que eu achei interessante, que me motivou,
que eu posso vir a falar ou o que eu quero falar.
Reúno tudo e vou desenvolvendo –
com muito esforço, diga-se de passagem.
Você levantou a bandeira da música
independente, porém, voltou a trabalhar
com a Sony/BMG... O que rolou no meio do caminho?
Eu sou dono de uma revista de música independente.
Sou uma pessoa livre e sei exatamente a hora de
me mexer. As pessoas ficam tentando especular
sobre o que está acontecendo, mas deviam
saber mais as complexidades dos fatos e realmente
o que tá no meio disso tudo. Eu no mínimo
poderia dizer ‘Pô gente, tenho muitos
anos de trajetória. Vocês acham que
essa simplificação procede?’
Dizer que eu deixei de ser independente porque
estou fazendo um projeto com uma gravadora? Isso
é muito simplista.
Você busca sintonizar a sua expressão
artística individual com aquilo que o público
quer ouvir?
Eu não funciono por esse viés. Mas
acho que o resultado acaba sendo esse. Primeiro
quero ouvir aquilo que eu preciso ouvir. Depois
rezo para que isso esteja em consonância
com alguém, até para eu poder mostrar.
Mas antes de qualquer coisa, aquilo tem que dizer
algo muito forte a mim. Não acredito que
uma música que não diga algo ao
seu autor, valha ser ouvida.
Quais suas ambições musicais?
Continuar crescendo como estou crescendo. Eu posso
me considerar um privilegiado, porque além
de sobrevivente com a minha idade, eu sou artista
que estou no meu auge aos 50 anos. Isso não
é pra qualquer um.
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Depois de anos averso à indústria
fonográfica, Lobão grava um
Acústico MTV |
Recentemente você foi dado como morto pela
sua família, que imaginava que você
pudesse estar no vôo 3054 da TAM. O que
acha desse descaso do governo com os serviços
públicos e essenciais?
Uma merda, apavorante, cruel. Estamos com um governo
realmente super incompetente, que tá dando
margem pra direita e fazendo um monte de cagada
também, com movimentos ridículos.
Aí neguinho quer invocar o exército,
moral e os bons costumes, né? Pô,
tá uma bagunça. Esse governo está
acabando com o que restava da sociedade brasileira.
As pessoas não conseguem se articular e
agir de forma concreta com relação
a esse governo. E nem o governo consegue gerenciar
o Brasil.
O que há em comum entre um jovem de 18
anos vendendo balas num sinal de trânsito
e outro, com a mesma idade, que fecha com pressa
o vidro do carrão importado?
É o retrato do nosso País. O retrato
da nossa vergonha. As elites se acostumaram a
conviver com essa diferença, há
muito tempo. E agora, paga-se um preço
muito alto por isso.
Se você tivesse a chance de tomar umas cervejinhas
com o Lula, o que pediria ao presidente do Brasil?
‘Sai daí seu babaca! Seu incompetente’.
Que papo é esse de que o Brasil vive a
ditadura da informação?
Eu não vejo isso. Isso é uma teoria
da conspiração. O Brasil tem várias
vertentes, de vários interesses. Você
tem Caros Amigos, Carta Capital, Veja, Isto é,
Bravo, Piauí... Revistas com opiniões
completamente diferentes uma das outras.
Bom, já que aqui o papo também é
futebol: qual é o seu time?
Eu não torço pra time nenhum.
Futebol é alienação do povo
ou expressão popular?
Olha, eu não me interesso. Já gostei
muito de futebol, mas comecei a me desinteressar
com os anúncios nas camisas. Eu era flamenguista.
E logo veio aquela coisa de Lubrax 4. Comecei
a achar muito empresarial. Os campeonatos têm
evasão de renda... Os cartolas são
os mesmos daquela época. Se racionalizarmos
assim, ter paixão é muito difícil.
É horrível ver a indústria
que são as torcidas organizadas e a violência
que elas promovem.
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"Aqui ninguém pega pesado, tudo
é levinho, tudo é brejeiro" |
Há conexão da música com
o futebol?
Claro. Desde os hinos de torcida, os hinos de
guerra que são extremamente bonitos. Música
e futebol estão intimamente interligados.
No Brasil, é melhor ser músico ou
boleiro?
Esse tipo de profissão floresce aqui porque
o povo brasileiro é muito talentoso, muito
rico na sua expressão popular. Então,
mesmo sem uma boa educação, todos
vão bater uma bola e formam disso uma enorme
escola. O mesmo acontece na música, quando
um cara vira um rapper, um sambista, ou um roqueiro.
Mas mesmo assim, você não precisa
ir para Cambridge para conseguir alguma coisa
com essas duas funções aqui no Brasil.
O maior problema do Brasil é a falta de
educação?
O maior problema do Brasil é que nós
não temos sangue. Nós temos sangue
de barata. Então não conseguimos
ativar a educação, nem a saúde,
nem aperfeiçoar as leis trabalhistas da
constituição, a gente não
consegue fazer porra nenhuma. Enquanto o Brasil
cresce 2%, os outros países estão
crescendo 10, 8%. A cada ano a gente vai se distanciando
mais do ranking mundial. Estamos num lugar infinitamente
atrasado, pela nossa própria passividade.
Eu acho que o brasileiro ficou muito com essa
imagem de bonzinho, mas bonzinho não é
bem o termo. É bunda-mole mesmo! Aqui ninguém
pega pesado, tudo é levinho, tudo é
brejeiro. E eu acho que é por isso que
nós não conseguimos evoluir como
povo, como nação.
Você é um brasileiro esperançoso?
Tenho esperança sim. Não poderei
de maneira nenhuma viver dominado pela impotência.
Inclusive a impulsão artística,
de uma forma ou de outra, é querer mudar
a si próprio e ao mundo. Eu sou um severo
crítico dessa postura. Eu me olho no espelho
e vejo o contrário disso. Eu tenho uma
certa moral comigo mesmo, pois sei que eu não
faço parte disso não.
Além do consumo cultural, que você
curte fazer?
Eu curto pouca coisa. Vivo intensamente minha
vida interior. Vivo de livros e de composições.
Não sou um cara que vivo pra fora. Eu me
nutro muito da minha solidão. Não
sou muito de ficar badalando por aí.
Qual é a lembrança mais antiga que
você tem da vida?
Eu tentando imitar uma britadeira, com uma bateria,
aos 3 anos de idade.
Qual é o grande personagem do País
neste início de século?
Um vazio. Não temos nenhuma personalidade
marcante. Nós somos órfãos
dessa representação. Temos um hiato
nesse ponto por enquanto.
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"Já fui inquirido sobre tudo
o que você pode imaginar" |
Qual a pergunta que você gostaria de responder,
mas que jamais lhe foi feita?
(pensativo) Eu não sei... Nunca parei pra
pensar numa pergunta que nunca me foi feita. Sempre
me perguntam tudo. Já fui inquirido sobre
tudo o que você pode imaginar. Sou apenas
um cara que está sempre pronto para responder
tudo o que me perguntarem.
Você consegue se definir em uma palavra?
Eu sou híbrido de Salvador Dalí,
com Carlos Lacerda e John Lenon. É o que
me melhor me define.
Napoleão Bonaparte era um menino pobre.
No dia que virou imperador, estava se vestindo
e disse ao irmão: “Imagine se mamãe
me visse aqui...” Lobão, você
nunca entrou no banheiro, olhou no espelho de
pensou – ‘Eu sou foda’?
Ah,
sim claro. Seria muito ridículo dizer que
não.
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