2007 - EDIÇÃO 96

O REI LOBÃO
Por Cristiane Nascimento

Aqui não é a Disneylândia... Muito menos a Broadway. Para o seu conhecimento, o cenário também está longe de ser um conto de fadas. Vida bandida é nossa trilha sonora. Pobreza, malandragem, violência, sangue e solidão se misturam com palavras criativas e idéias vorazes. A cor predominante é o cinza. Melhor assim, nada pode ofuscar o brilho dessa entrevista exclusiva. Lobão, um híbrido de Salvador Dalí, Carlos Lacerda e John Lenon... Uma fera capaz de colocar qualquer leãozinho de Hollywood para correr. O Fatto Olé encarou sem medo e, agora, você tem a oportunidade inédita de invadir a mente do pensador, um homem tenebroso, psicodélico e com os dentes afiados à mostra.

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Definitivamente, sobriedade não faz parte do vocabulário deste grande lobo psicodélico

FATTO OLÉ - Lobão, apesar da influência do rock, você define sua música como MPB... O que caracteriza a sua música?
LOBÃO - Eu sou músico, não sou engenheiro. Sou popular, não sou erudito. Sou brasileiro, não sou chinês. Então, sou músico popular brasileiro. (risos)

Quais são suas principais influências?
Porra, é difícil, tem muita coisa. Vão desde Dalva de Oliveira, Beatles, Vila Lobos, Stones, Stravinsky, Jimi Hendrix, Queen, música negra americana, Aretha Franklin, James Brown, Mangueira... Enfim, uma porrada de coisas.

Qual foi a grande contribuição cultural do Lobão para a música popular brasileira?
Ah, isso quem vai saber são os caras que forem me estudar. Eu sou apenas um cara que quero me divertir, quero tentar melhorar, me curar... O resto é conseqüência.

Como funciona o seu processo de criação?

Eu fico sentado me esforçando. Procurando nos meus arquivos aquilo que eu já anotei e pensei, que eu achei interessante, que me motivou, que eu posso vir a falar ou o que eu quero falar. Reúno tudo e vou desenvolvendo – com muito esforço, diga-se de passagem.

Você levantou a bandeira da música independente, porém, voltou a trabalhar com a Sony/BMG... O que rolou no meio do caminho?
Eu sou dono de uma revista de música independente. Sou uma pessoa livre e sei exatamente a hora de me mexer. As pessoas ficam tentando especular sobre o que está acontecendo, mas deviam saber mais as complexidades dos fatos e realmente o que tá no meio disso tudo. Eu no mínimo poderia dizer ‘Pô gente, tenho muitos anos de trajetória. Vocês acham que essa simplificação procede?’ Dizer que eu deixei de ser independente porque estou fazendo um projeto com uma gravadora? Isso é muito simplista.

Você busca sintonizar a sua expressão artística individual com aquilo que o público quer ouvir?
Eu não funciono por esse viés. Mas acho que o resultado acaba sendo esse. Primeiro quero ouvir aquilo que eu preciso ouvir. Depois rezo para que isso esteja em consonância com alguém, até para eu poder mostrar. Mas antes de qualquer coisa, aquilo tem que dizer algo muito forte a mim. Não acredito que uma música que não diga algo ao seu autor, valha ser ouvida.

Quais suas ambições musicais?
Continuar crescendo como estou crescendo. Eu posso me considerar um privilegiado, porque além de sobrevivente com a minha idade, eu sou artista que estou no meu auge aos 50 anos. Isso não é pra qualquer um.

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Depois de anos averso à indústria fonográfica, Lobão grava um Acústico MTV

Recentemente você foi dado como morto pela sua família, que imaginava que você pudesse estar no vôo 3054 da TAM. O que acha desse descaso do governo com os serviços públicos e essenciais?
Uma merda, apavorante, cruel. Estamos com um governo realmente super incompetente, que tá dando margem pra direita e fazendo um monte de cagada também, com movimentos ridículos. Aí neguinho quer invocar o exército, moral e os bons costumes, né? Pô, tá uma bagunça. Esse governo está acabando com o que restava da sociedade brasileira. As pessoas não conseguem se articular e agir de forma concreta com relação a esse governo. E nem o governo consegue gerenciar o Brasil.

O que há em comum entre um jovem de 18 anos vendendo balas num sinal de trânsito e outro, com a mesma idade, que fecha com pressa o vidro do carrão importado?
É o retrato do nosso País. O retrato da nossa vergonha. As elites se acostumaram a conviver com essa diferença, há muito tempo. E agora, paga-se um preço muito alto por isso.

Se você tivesse a chance de tomar umas cervejinhas com o Lula, o que pediria ao presidente do Brasil?
‘Sai daí seu babaca! Seu incompetente’.

Que papo é esse de que o Brasil vive a ditadura da informação?
Eu não vejo isso. Isso é uma teoria da conspiração. O Brasil tem várias vertentes, de vários interesses. Você tem Caros Amigos, Carta Capital, Veja, Isto é, Bravo, Piauí... Revistas com opiniões completamente diferentes uma das outras.

Bom, já que aqui o papo também é futebol: qual é o seu time?
Eu não torço pra time nenhum.

Futebol é alienação do povo ou expressão popular?
Olha, eu não me interesso. Já gostei muito de futebol, mas comecei a me desinteressar com os anúncios nas camisas. Eu era flamenguista. E logo veio aquela coisa de Lubrax 4. Comecei a achar muito empresarial. Os campeonatos têm evasão de renda... Os cartolas são os mesmos daquela época. Se racionalizarmos assim, ter paixão é muito difícil. É horrível ver a indústria que são as torcidas organizadas e a violência que elas promovem.

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"Aqui ninguém pega pesado, tudo é levinho, tudo é brejeiro"

Há conexão da música com o futebol?
Claro. Desde os hinos de torcida, os hinos de guerra que são extremamente bonitos. Música e futebol estão intimamente interligados.

No Brasil, é melhor ser músico ou boleiro?
Esse tipo de profissão floresce aqui porque o povo brasileiro é muito talentoso, muito rico na sua expressão popular. Então, mesmo sem uma boa educação, todos vão bater uma bola e formam disso uma enorme escola. O mesmo acontece na música, quando um cara vira um rapper, um sambista, ou um roqueiro. Mas mesmo assim, você não precisa ir para Cambridge para conseguir alguma coisa com essas duas funções aqui no Brasil.

O maior problema do Brasil é a falta de educação?
O maior problema do Brasil é que nós não temos sangue. Nós temos sangue de barata. Então não conseguimos ativar a educação, nem a saúde, nem aperfeiçoar as leis trabalhistas da constituição, a gente não consegue fazer porra nenhuma. Enquanto o Brasil cresce 2%, os outros países estão crescendo 10, 8%. A cada ano a gente vai se distanciando mais do ranking mundial. Estamos num lugar infinitamente atrasado, pela nossa própria passividade. Eu acho que o brasileiro ficou muito com essa imagem de bonzinho, mas bonzinho não é bem o termo. É bunda-mole mesmo! Aqui ninguém pega pesado, tudo é levinho, tudo é brejeiro. E eu acho que é por isso que nós não conseguimos evoluir como povo, como nação.

Você é um brasileiro esperançoso?
Tenho esperança sim. Não poderei de maneira nenhuma viver dominado pela impotência. Inclusive a impulsão artística, de uma forma ou de outra, é querer mudar a si próprio e ao mundo. Eu sou um severo crítico dessa postura. Eu me olho no espelho e vejo o contrário disso. Eu tenho uma certa moral comigo mesmo, pois sei que eu não faço parte disso não.

Além do consumo cultural, que você curte fazer?
Eu curto pouca coisa. Vivo intensamente minha vida interior. Vivo de livros e de composições. Não sou um cara que vivo pra fora. Eu me nutro muito da minha solidão. Não sou muito de ficar badalando por aí.

Qual é a lembrança mais antiga que você tem da vida?

Eu tentando imitar uma britadeira, com uma bateria, aos 3 anos de idade.

Qual é o grande personagem do País neste início de século?

Um vazio. Não temos nenhuma personalidade marcante. Nós somos órfãos dessa representação. Temos um hiato nesse ponto por enquanto.

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"Já fui inquirido sobre tudo o que você pode imaginar"

Qual a pergunta que você gostaria de responder, mas que jamais lhe foi feita?
(pensativo) Eu não sei... Nunca parei pra pensar numa pergunta que nunca me foi feita. Sempre me perguntam tudo. Já fui inquirido sobre tudo o que você pode imaginar. Sou apenas um cara que está sempre pronto para responder tudo o que me perguntarem.

Você consegue se definir em uma palavra?
Eu sou híbrido de Salvador Dalí, com Carlos Lacerda e John Lenon. É o que me melhor me define.

Napoleão Bonaparte era um menino pobre. No dia que virou imperador, estava se vestindo e disse ao irmão: “Imagine se mamãe me visse aqui...” Lobão, você nunca entrou no banheiro, olhou no espelho de pensou – ‘Eu sou foda’?
Ah, sim claro. Seria muito ridículo dizer que não.