2007 - EDIÇÃO 94

O TABU DA COLUNA-DO-MEIO
Por Jorge Nicola
Ilustração: Renato Prado

Boleiros, torcedores e afins: vocês ainda acreditam naquele papo furado de 22 machões correndo atrás de uma bola? Fala sério, está na hora de reverem os seus conceitos. Essa história é conversa fiada. Se a estimativa de que uma em cada 10 pessoas no mundo é homossexual for verdadeira, vários jogadores do Campeonato Brasileiro são GLS – os gays veneram o futebol. Tanto que será disputada a Copa do Mundo Gay – entre os dias 23 e 29 de setembro, em Buenos Aires, a Meca do Arco-Íris. "O torneio nasce por uma necessidade de pessoas que querem jogar no campo sem que lhes gritem algo", explica o presidente da Comunidade Homossexual Argentina (CHA), César Cigliutti. "É uma reivindicação, e para nós qualquer ato de visibilidade é muito importante."

A grande bola fora da competição está na ausência do Brasil entre as 30 delegações, sendo oito seleções nacionais e 22 times de várias cidades do planeta. Apesar de promover o maior evento homossexual do mundo (a Parada Gay), nosso País não terá qualquer representante na festa da bola cor de rosa. De acordo com a ABGLT (Associação Brasileira de Gays, Lésbicas, Bissexuais, Travestis e Transexuais), a grande causa é a falta de dinheiro. "Um grupo de meninas do Paraná estava interessada em disputar a Copa do Mundo, mas a organização só banca a hospedagem. E elas não têm verba para pagar a passagem", explica Márcio, que trabalha na ABGLT.

Foto: Divulgação
Campeonato terá 21 equipes

Por ser realizado pela primeira vez, o campeonato ainda tem algumas indefinições. Uma delas rola exatamente pela incerteza dos organizadores em saber como farão para descobrir se o atleta é realmente gay ou se apenas está se fazendo de homossexual para ter a chance de disputar uma Copa do Mundo. Há quem defenda a idéia de que todos os participantes precisem dar ao menos um beijo na boca de um companheiro de time para assegurar presença em campo. Curioso, né não?

Os bastidores do Mundial também já agitam Buenos Aires. O banheiro masculino não terá aqueles mictórios pendurados na parede. A pedido dos rapazes, o xixi só será feito sentado. E o mais curioso: os chuveiros estarão em cabines separadas, porém tanto no banheiro masculino quanto no feminino haverá um box que comporta duas pessoas. Para quê? Liberte a sua imaginação.

O presidente da Associação Internacional Gay e Lésbica de Futebol (IGLFA), Tomás Gómez, desconversa quando perguntado sobre a intrigante estrutura montada. Prefere falar sobre a representatividade do campeonato para a comunidade. "Esse torneio será extremamente importante para nós. Esperamos que essa competição tenha um impacto positivo na comunidade gay", afirma o dirigente. "Com certeza teremos um campeonato diferente, com um toque latino", completa.

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Argentina é favorita

Na Argentina? Você deve estar se perguntando do outro lado do computador por que Buenos Aires foi escolhida para receber a primeira Copa do Mundo Gay. Gómez revela algo pouco conhecido: a capital argentina está virando a Meca dos homossexuais. "Além de respirar futebol, Buenos Aires recebe gays de todo o mundo em busca de férias. Inclusive, a cidade foi a primeira da América Latina a reconhecer a união civil entre homossexuais", justifica.

As opções de alojamento para a comunidade foram ampliadas com a inauguração do hotel Axel Buenos Aires, o primeiro de cinco estrelas da América Latina destinado ao público homossexual e o segundo da rede espanhola Axel, proprietária de um estabelecimento em Barcelona. A luxuosa hospedagem ficará em San Telmo, o bairro "mais amigável com os gays" da cidade, onde um hotel para homossexuais convive com tradicionais antiquários, bares, restaurantes, discotecas, cafés literários e galerias de arte.

Foto: Divulgação
Escudo da federação que organiza o torneio

Ah, vocês sabem quais são os favoritos ao título? Os times da Inglaterra, país conhecido por ter os hooligans, os torcedores mais violentos do mundo. Com ou sem a ajuda dos briguentos, as equipes de Londres e Manchester costumam fazer estragos nos adversários durante os amistosos. Entre as nações, a Argentina aparece com boas chances. Foram inscritas 30 equipes, 25 de meninos e apenas cinco de meninas. Durante a semana, o Fatto Olé recebeu muitos e-mails com dúvidas sobre a Copa Gay.

Uma pergunta, de uma leitora que nos pede sigilo absoluto, chamou nossa atenção pelo título do ‘subject’ – "Nada contra os gays, tudo contra os argentinos. Será que Maradona, Tevez e Mascherano vão sair do armário e disputar a competição?". Brincadeiras à parte, o mais bacana é que o futebol será sempre uma ferramenta eficaz para quebrar qualquer tipo de rótulo. Abaixo o tabu cor-de-rosa da coluna do meio!