2007 - EDIÇÃO 90

ESSA PRETA É RUBRO-NEGRA
Por Jorge Nicola

Desde que há cultura, há a contracultura. Enquanto o mundo prega a ditadura da beleza, a gordinha Preta Maria Gadelha Gil Moreira anda pela contramão e usa a estética para criar um novo estereótipo. Cantora, atriz, apresentadora, filha de ministro, símbolo sexual, pegadora de celebridades, ela é um dos grandes símbolos underground da mídia brasileira. Já que é para se expor, Preta Gil fala nesta entrevista exclusiva de suas preferências sexuais, surubas, preconceito, futebol e da relação com o pai Gilberto Gil. Opa, eis a sua chance de encarar a mulher mais polêmica e divertida do Brasil.

Foto: Arquivo Pessoal
Mesmo gordinha, Preta é madrinha da Mangueira

FATTO OLÉ: De onde surgiu seu nome?
PRETA GIL: Então, muita gente pensa que Preta é apelido, mas é nome mesmo. E deu o maior reboliço para meu pai registrá-lo. Ele foi com minha avó materna, que é branca de tudo, no cartório e só a presença de um negro com uma senhora branca já causou uma confusão só. Logo de cara, o tabelião já falou: ‘você não vai poder registrar o nome da sua filha de Preta’.

E aí? O Gilberto Gil ganhou na persistência?
Aí que meu pai começou a fazer um discurso. Ele ficou inconformado, disse que já existem Brancas, Claras, Rosas e não se conformou com o fato de não poder ter Preta. O tabelião até aceitou, mas exigiu que também tivesse um nome católico junto. Por isso acabou ficando Preta Maria.

Hoje você esbanja estilo e é uma referência. Vestir-se bem sempre fez parte da sua filosofia?
(Risos) Essa você é que vai responder. Quando eu era pequena, adorava assistir à Mulher Maravilha, mesmo sem entender nada de inglês. Consegui até fazer minha mãe me dar uma roupa de Mulher Maravilha, de tanto que enchi o saco. Eu amava tanto aquela fantasia que dormia quase todo dia com ela. Ah, também ganhei um patins, que servia para me fazer girar e aí dava o efeito da capa da Mulher Maravilha.

E o que mais usava além dos patins e da fantasia de Mulher Maravilha?
Usava vestidinhos de renda que minha avó fazia ou calças de veludo. Mas a única coisa que era comum para todas as roupas era o velcro no joelho, que minha mãe colocava nas roupas para não rasgar. Eu era terrível e acabava rasgando tudo (risos).

Foto: Arquivo Pessoal
Preta com o pai, o ministro e cantor Gilberto Gil

Você tem algum ídolo?
Tenho sim, mas não é ninguém famoso. Uma pessoa que eu sempre procuro copiar é minha avó materna. Imagina só a barra que ela passou durante a ditadura, porque suas duas filhas eram casadas com dois exilados. Uma das filhas é a minha mãe, Sandra, casada com o meu pai. A outra era casada com o Caetano. As duas também acabaram exiladas, foram morar em Londres, e minha avó segurou toda a onda.

Por onde você passa, as portas se abrem. Mas você já viveu o outro lado e foi vítima do preconceito racial?
Já sim. Eu e o pessoal lá de casa já passamos por cada uma. Teve uma época em que meu pai foi fazer um disco em Los Angeles com o Sérgio Mendes, então toda a família morou oito meses lá. Aí minha mãe sempre brincava falando: “Chegou o navio negreiro”. Ela também conta que nas ruas o pessoal perguntava se ela estava com os filhos das empregadas, por causa da mistura: eu e o meu irmão Pedro com o cabelo bem liso, quase que nem índios, e minha irmã Maria com o cabelo dum-dum.

O que tem de melhor em ser filha do Gilberto Gil?
Muitas coisas. Mas se você me perguntasse isso alguns anos atrás, eu diria que o melhor era o fato de o meu pai falar com Deus. Estava no auge da música “Se Eu Quiser Falar com Deus” e eu realmente achava que ele falava. Teve uma parada engraçada por conta disso. Minha melhor amiga, a Amora, tinha uma boneca maravilhosa, e eu morria de inveja. Um dia ela disse: “Eu tenho essa boneca e você não tem”. Respondi na hora: “Ah é, mas o meu pai fala com Deus e o seu não!”.

Fala sério: você se considera um símbolo sexual?
(Risos) Você deve estar de sacanagem, né? Sou gordinha, tenho estrias... O que rola é que o pessoal não entende como eu consigo pegar uns caras muito gatos.

Foto: Arquivo Pessoal
A cantora e atriz admite gostar de suruba

Pô, mas você é uma ‘pegadora’ de dar inveja. Já traçou Paulinho Vilhena, Caio Blat, Marcos Palmeira, Marcos Mion... Diz aí a estratégia para as moças aprenderem e para os rapazes se ligarem...
Essas coisas não podem ser contadas. Brincadeira. Eu tenho os meus truques, e o principal é que tomo a iniciativa sempre. Não passo vontade, portanto, se quero alguma coisa, eu corro atrás. Esse negócio de partir para o ataque beira quase a doença comigo. Mas eu também tenho um bom papo, sou simpática.

E qual foi sua experiência sexual mais marcante?
Sei lá. O que mais choca as pessoas é quando falo que gosto de mulheres também, e que adoro transar com várias pessoas ao mesmo tempo. É que a sociedade ainda tem um monte de grilos, e não aceita bem as novidades, mas eu sou bi, sim, e amo fazer suruba.

Rola um papo por aí, não sei se é folclore, que você só transa de luz apagada...
Então, todo mundo fala isso porque eu disse numa entrevista que escondia meus quilinhos a mais da pessoa que estava comigo apagando a luz. Mas eu também faço de dia, ao ar livre, de luz acessa... Ah, e me amarro em transar ouvindo uma musiquinha. Mas se não tiver, vai a seco mesmo.

É mais difícil ser negra, gordinha ou filha de ministro?
Então, acho que rola um empate técnico. Porque existe um puta preconceito com os negros, embora eu consiga transformar essa carga em algo que me motiva. O lance de ser gorda hoje não me chateia tanto, pois estou sossegada com o meu corpo. E tenho orgulho de ser filha de um ministro, apesar de existirem umas malas que o criticam sem qualquer razão.

Foto: Arquivo Pessoal
Lenine e Preta gravam juntos CD

Quando os homens pensam na Preta Gil, pensam no quê?
Depende. Os que me conhecem devem pensar que sou uma mulher legal, meio malucona. Já os outros eu não tenho nem idéia.

Bom, já que o papo aqui também é o futebol, queremos saber para que time você torce?
Uma vez Flamengo, sempre Flamengo... É claro que eu sou Mengão, o time de maior torcida do Brasil. Nem sou daquelas que vai no Maraca, ou que fica sofrendo quando o Mengão perde, mas adoro tirar sarro dos outros quando ele ganha.

E quem é o boleiro mais bonito do Brasil?
Gosto do Robinho, do Ronaldo, do Rafael Sobis... Humm, tem vários. De diversos estilos.