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RACHÃO, A DISNEYLÂNDIA DOS BOLEIROS |
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| Por
Jorge Nicola |
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Concentrações, viagens, caos aéreo,
contusões, distância da família...
Vida de boleiro não é tão
fascinante quanto parece. Mas a receita para aliviar
todos estes males estritamente ligados ao mundo
da bola é velha e atende pelo nome de rachão.
Ou pelada, se você preferir. É desta
maneira que são chamados os treinos recreativos,
em que os jogadores desfrutam de total liberdade.
“No rachão a gente esquece a tática,
se livra das cobranças de marcação
e joga como nos tempos de criança, na rua
de casa”, admite o volante Magrão,
um dos viciados pela atividade.
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| Rachões
na Seleção dividem Robinho
e Diego |
Geralmente
o rachão acontece na véspera das
partidas e coloca goleiros como atacantes, zagueiros
como meias, centroavantes como goleiros. Vale
praticamente tudo. A mecânica desse treino
com jeito de brincadeira é igual em todos
os clubes: no começo do ano, o elenco se
divide em dois times, que permanecem os mesmos
até o final da temporada. Mas com o passar
dos dias, semanas e meses, aquele clima de descontração
inicial se torna uma grande rivalidade.
“Já vi acontecer cada coisa em rachão...
Tem muito atleta que entra com mais vontade nessa
brincadeira do que no próprio jogo, no
dia seguinte”, conta o técnico Wanderley
Luxemburgo. “Uma vez cheguei a pensar em
abolir o rachão, mas seria impossível.
Os caras ficariam tão frustrados que poderiam
até me boicotar”, completa o santista.
Foi num rachão que o pequenino Muñoz
deu um soco na cara do gigantesco Marcos. “Pô,
aquela cena foi ridícula”, relembra
o goleiro do Palmeiras. “Naquela época,
eu era dono de um time e o Sérgio (seu
reserva) comandava o outro. Então existia
uma rixa tremenda e quem perdia era obrigado a
pagar mico”, revela o pentacampeão.
“Eu odiava perder e jogava lá no
ataque. O Muñoz era do meu time e não
estava ligando para o rachão, então
ficava na defesa, largadão. Aí teve
um jogo em que ele levou um monte de dribles e
o time do Sérgio abriu 4 a 0. Fiquei puto
e fui pra cima, reclamar.”
Ao
ver pela frente alguém revoltado e quase
60 centímetros maior, Muñoz não
teve dúvida: soltou um direto de direita,
que atingiu o nariz de Marcos. O soco fez o goleiro
sangrar. “Quando vi o sangue escorrer, não
acreditei. Saí correndo atrás dele
desesperadamente, para matá-lo. Só
que o Muñoz foi sempre mais rápido
que eu e conseguiu fugir”, conta Marcos,
que hoje tira sarro de todo o episódio.
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| Ninguém
economiza nas dívididas dos recreativos
no São Paulo |
No
Rio de Janeiro, ninguém gosta mais de rachão
do que Romário. Nos clubes por onde jogou,
ele sempre teve o privilégio de escolher
aqueles que atuam a seu lado. O Baixinho odeia
perder, porque é obrigado a fazer as coisas
mais toscas. “A gente sempre combina alguma
tarefa e a equipe derrotada tem que cumprir”,
conta o atacante Leandro Amaral. Entre os micos,
estão desfilar pelo corredor da concentração
pelado, trabalhar como garçom durante o
almoço, carregar as malas... Agora imagine
Romário tendo de desfilar com seu bilau
pequeno dentro do hotel onde o Vasco está
concentrado.
Tempos
atrás, naquele Corinthians campeão
mundial com Ricardinho, Marcelinho, Vampeta, Edílson,
Dida e Rincón, rachão era coisa
muito séria. “Eu era presidente de
uma equipe e o Edílson da outra. O negócio
tinha tanta importância que a gente chegava
a pagar bicho (prêmio em dinheiro) para
os jogadores do nosso time em algumas vitórias”,
recorda o Velho Vamp. Os dois baianos desembolsavam
uma grana razoável para motivar seus atletas
porque haviam apostas pesadas em jogo. “Quando
a gente ganhava, eu ficava com a bolada. Se perdíamos,
tudo ia para o Edílson”, justifica
Vampeta.
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| Romário
já teve de desfilar pelado no hotel
por perder no rachão |
Para
se ter idéia da importância do rachão,
apenas um técnico consegue trabalhar no
Brasil sem tal treinamento: Émerson Leão.
Tinhoso e disciplinador, ele suspende o rachão
sempre que quer aplicar uma punição
em seus comandados. Assim, se os resultados no
campeonato são bons, tem rachão.
Caso o clube desembeste a perder, o grupo já
sabe que ficará sem a pelada entre amigos.
Já o técnico Zetti, atualmente no
Atlético-MG, não se opõe,
mas prefere participar da brincadeira definindo
o castigo dos derrotados – na maioria das
vezes, ele obriga que os perdedores paguem Guaraná
ou Gatorade. Desta maneira, consegue evitar exageros.
Outro
caso curioso decorrente dos rachões aconteceu
no Palmeiras de 2003, aquele mesmo que garantiu
o retorno do clube à Primeira Divisão
com o título na Série B do Brasileiro.
O vício de Vagner Love, Diego Souza, Magrão,
Marcos, Lúcio e companhia pelo rachão
era tal que eles fizeram um trato com o técnico
Jair Picerni: se o time subisse à Série
A, todos os treinos seguintes seriam rachões.
E assim foi. Ao bater o Sport em Garanhuns, o
Verdão assegurou o retorno à elite
e realizou os últimos cinco treinos antes
da rodada final, diante do Botafogo, à
base de rachão. Se você imaginou
que por isso o time ficou destreinado e levou
uma surra do Bota, se engana: fez 4 a 1, terminou
como campeão e deu alegria aos 30 mil palmeirenses
que lotaram o Palestra Itália.
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