2007 - EDIÇÃO 89

RACHÃO, A DISNEYLÂNDIA DOS BOLEIROS
Por Jorge Nicola

Concentrações, viagens, caos aéreo, contusões, distância da família... Vida de boleiro não é tão fascinante quanto parece. Mas a receita para aliviar todos estes males estritamente ligados ao mundo da bola é velha e atende pelo nome de rachão. Ou pelada, se você preferir. É desta maneira que são chamados os treinos recreativos, em que os jogadores desfrutam de total liberdade. “No rachão a gente esquece a tática, se livra das cobranças de marcação e joga como nos tempos de criança, na rua de casa”, admite o volante Magrão, um dos viciados pela atividade.

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Rachões na Seleção dividem Robinho e Diego

Geralmente o rachão acontece na véspera das partidas e coloca goleiros como atacantes, zagueiros como meias, centroavantes como goleiros. Vale praticamente tudo. A mecânica desse treino com jeito de brincadeira é igual em todos os clubes: no começo do ano, o elenco se divide em dois times, que permanecem os mesmos até o final da temporada. Mas com o passar dos dias, semanas e meses, aquele clima de descontração inicial se torna uma grande rivalidade.

“Já vi acontecer cada coisa em rachão... Tem muito atleta que entra com mais vontade nessa brincadeira do que no próprio jogo, no dia seguinte”, conta o técnico Wanderley Luxemburgo. “Uma vez cheguei a pensar em abolir o rachão, mas seria impossível. Os caras ficariam tão frustrados que poderiam até me boicotar”, completa o santista.

Foi num rachão que o pequenino Muñoz deu um soco na cara do gigantesco Marcos. “Pô, aquela cena foi ridícula”, relembra o goleiro do Palmeiras. “Naquela época, eu era dono de um time e o Sérgio (seu reserva) comandava o outro. Então existia uma rixa tremenda e quem perdia era obrigado a pagar mico”, revela o pentacampeão. “Eu odiava perder e jogava lá no ataque. O Muñoz era do meu time e não estava ligando para o rachão, então ficava na defesa, largadão. Aí teve um jogo em que ele levou um monte de dribles e o time do Sérgio abriu 4 a 0. Fiquei puto e fui pra cima, reclamar.”

Ao ver pela frente alguém revoltado e quase 60 centímetros maior, Muñoz não teve dúvida: soltou um direto de direita, que atingiu o nariz de Marcos. O soco fez o goleiro sangrar. “Quando vi o sangue escorrer, não acreditei. Saí correndo atrás dele desesperadamente, para matá-lo. Só que o Muñoz foi sempre mais rápido que eu e conseguiu fugir”, conta Marcos, que hoje tira sarro de todo o episódio.

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Ninguém economiza nas dívididas dos recreativos no São Paulo

No Rio de Janeiro, ninguém gosta mais de rachão do que Romário. Nos clubes por onde jogou, ele sempre teve o privilégio de escolher aqueles que atuam a seu lado. O Baixinho odeia perder, porque é obrigado a fazer as coisas mais toscas. “A gente sempre combina alguma tarefa e a equipe derrotada tem que cumprir”, conta o atacante Leandro Amaral. Entre os micos, estão desfilar pelo corredor da concentração pelado, trabalhar como garçom durante o almoço, carregar as malas... Agora imagine Romário tendo de desfilar com seu bilau pequeno dentro do hotel onde o Vasco está concentrado.

Tempos atrás, naquele Corinthians campeão mundial com Ricardinho, Marcelinho, Vampeta, Edílson, Dida e Rincón, rachão era coisa muito séria. “Eu era presidente de uma equipe e o Edílson da outra. O negócio tinha tanta importância que a gente chegava a pagar bicho (prêmio em dinheiro) para os jogadores do nosso time em algumas vitórias”, recorda o Velho Vamp. Os dois baianos desembolsavam uma grana razoável para motivar seus atletas porque haviam apostas pesadas em jogo. “Quando a gente ganhava, eu ficava com a bolada. Se perdíamos, tudo ia para o Edílson”, justifica Vampeta.

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Romário já teve de desfilar pelado no hotel por perder no rachão

Para se ter idéia da importância do rachão, apenas um técnico consegue trabalhar no Brasil sem tal treinamento: Émerson Leão. Tinhoso e disciplinador, ele suspende o rachão sempre que quer aplicar uma punição em seus comandados. Assim, se os resultados no campeonato são bons, tem rachão. Caso o clube desembeste a perder, o grupo já sabe que ficará sem a pelada entre amigos. Já o técnico Zetti, atualmente no Atlético-MG, não se opõe, mas prefere participar da brincadeira definindo o castigo dos derrotados – na maioria das vezes, ele obriga que os perdedores paguem Guaraná ou Gatorade. Desta maneira, consegue evitar exageros.

Outro caso curioso decorrente dos rachões aconteceu no Palmeiras de 2003, aquele mesmo que garantiu o retorno do clube à Primeira Divisão com o título na Série B do Brasileiro. O vício de Vagner Love, Diego Souza, Magrão, Marcos, Lúcio e companhia pelo rachão era tal que eles fizeram um trato com o técnico Jair Picerni: se o time subisse à Série A, todos os treinos seguintes seriam rachões. E assim foi. Ao bater o Sport em Garanhuns, o Verdão assegurou o retorno à elite e realizou os últimos cinco treinos antes da rodada final, diante do Botafogo, à base de rachão. Se você imaginou que por isso o time ficou destreinado e levou uma surra do Bota, se engana: fez 4 a 1, terminou como campeão e deu alegria aos 30 mil palmeirenses que lotaram o Palestra Itália.