2007 - EDIÇÃO 82

SÍNDROME DE POPSTAR
Por Jorge Nicola

Você sabe qual é o carro de Rogério Ceni? Ou qual a marca da coleção de relógios que Edmundo usa? Ou ainda quantos colares de ouro o atacante Souza tem? A menos que seja familiar de algum destes três craques, você nunca descobrirá. Isso porque todo atleta de primeiro nível morre de medo de ser vítima da violência que assola o Brasil. Porém uma outra turma de boleiros vive situação exatamente oposta.

Trata-se dos jogadores que nunca ganharam notoriedade, e que fazem questão de revelar ao mundo que possuem supermáquinas e dinheiro para dar e vender. “Por não terem o reconhecimento e o prestígio do público, estes atletas tentam ostentar. É uma forma de auto-afirmação”, explica a psicóloga Suzy Fleury, especialista em futebol. “É como se falassem: ‘não somos conhecidos, mas somos um sucesso como jogadores’”.

Tiago Silva (à direita) em ensaio sensual
para uma revista búlgara

O lateral-esquerdo Tiago Silva é um ótimo exemplo. Na Bulgária desde 2005, o ex-jogador do Palmeiras, do Fluminense e da Portuguesa está completamente esquecido no Brasil. Porém ele faz questão de dizer a quem quiser ouvir que vive uma vida de popstar em Sofia. Em sua página no Orkut, por exemplo, ele mostra o ensaio sensual que fez para uma revista búlgara. Nas fotos, o jogador, que é negro, aparece com pouca roupa, ao lado de um garota branca. “Veja se estou bonito na foto?”, indaga o pretensioso boleiro, se vangloriando da barriga definida.

O goleiro Fábio Noronha nunca foi e provavelmente não será um ídolo nacional. Aos 32 anos, coleciona passagens por Flamengo e Fluminense, sempre como reserva. Pois sabe qual a foto inicial do cara em sua página do Orkut? Uma maravilhosa Mitsubishi Pajero, recém-comprada, e que custou mais de R$ 150 mil. “Eu tenho, você não temmmm”, brinca o goleiro.

Da Ponte Preta para o Ajaccio; Lucas Pereira curte Paris

É extensa a relação de atletas decepcionados com o ostracismo que acabam se rebelando e exibindo tudo o que o futebol lhes garantiu. O atacante Lucas Pereira, que marcou alguns gols pela Ponte Preta, hoje atua no pequeno Ajaccio, da França. Lá ele resolve a tristeza pela falta de fama gastando muita grana. O artilheiro tem pulseiras e colares de ouro de todas as escalas possíveis de quilates. Os relógios suíços também se amontoam na prateleira de seu quarto.

Geralmente os mais exibidinhos são aqueles que vão para a Arábia Saudita. Também pudera: os xeiques, donos da maioria dos clubes, têm o hábito de presentear os brasileiros com objetos extremamente caros, como relógios, carros, pratarias, canetas... O meia Jerri tem em sua casa uma enorme lista de agrados que recebeu dos dirigentes de seu time, o Al Nasr. Coisas como tapetes caríssimos, jóias e uma casa repleta de ouro (até a torneira da pia do banheiro de sua suíteé banhada a ouro). Haja dinheiro!

O atacante Denni com golfinho em Cancún

Além de compras caríssimas, há outro item de série que faz parte da vida de qualquer boleiro em busca de seus 15 minutos de fama: as mulheres. Atraídas pelo dinheiro fácil que eles recebem, as marias-chuteiras atacam pesado esses ilustres desconhecidos. E os caras adoram exibir as loiras esculturais que conquistam, conforme comprova o Orkut.

Em alta depois de ter se tornado o artilheiro do Paulistão pelo São Caetano, o atacante Somália anda na contramão. Antes de chegar ao Azulão, ele tinha passado pelo Feyenoord, da Holanda, pelo Al Hilal, da Arábia Saudita, e pelo Kwait, do Kuwait. Naqueles tempos, ostentava uma corrente grossa no pescoço, com uma imensa letra “S”, inicial de seu apelido, no peito. Hoje, preocupado com os freqüentes seqüestros das mães dos boleiros, ele exibe modestos brincos nas duas orelhas.

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