2007 - EDIÇÃO 81

FERNANDA PORTO LIVRE NA ÁREA - PARTE 1
Equipe Fatto Olé
Foto: Patricia Cecatti
Fernanda diz que falta identidade no futebol

Uma coisa é certa: se Fernanda Porto fosse técnica da Seleção, Chico Buarque, Tom Jobim, Caetano Veloso e Gilberto Gil formariam um ‘quadrado mágico’. Pois é, imagine um time orquestrado por uma das mais belas vozes femininas do Brasil. A cantora, compositora, produtora e multiinstrumentista fala sobre tudo que você pode imaginar e mais um pouco nessa conversa franca. Inclusive futebol, é claro! Ah, fique sabendo que a diva da MPB já chutou muita bola como ponta-esquerda nos campinhos de várzea de São Paulo, onde cresceu. Fernanda só não aceita ser comparada ao Ronaldinho Gaúcho do drum’n’bass. Pura modéstia.

Fê, quais são as suas memórias distantes?
FERNANDA PORTO: Lembro bastante do quintal da minha avó, que foi uma pessoa muito importante para mim. O jardim e o cheiro de dama-da-noite são lembranças fortes da minha infância.

E como começou seu interesse pela música?
Na verdade eu nasci em um ambiente musical. Minha mãe e minha avó eram pianistas. Cresci ao som de Chopin no piano, enquanto o meu pai me apresentava jazz e bossa-nova. Mas eu tive consciência disso tudo quando fazia pré-primário e a professora de flauta gravou algumas aulas. Fiquei sem entender o por quê. Logo em seguida passei a compor para as apresentações da escola.

Qual a sensação que teve no 1º show?
Foi muito bom, emocionante, é difícil descrever. Foi na época da escola. Participava dos festivais com bandinhas e cheguei a ganhar alguns. Daí em diante eu gostei tanto da idéia que fiz canto lírico na faculdade. Imaginem, entrei para fazer piano, fui para a composição e regência até chegar ao canto lírico.

Hoje se acha uma mulher de sucesso?
Ahh, acho sim, e me sinto muito feliz. Fiz um trabalho sem esperar nada dele e hoje eu vivo disso sem precisar abrir mão das minhas idéias. Esse é o meu conceito de sucesso.

E você gosta de ser celebridade?
Gosto. Por ser conhecida mundialmente, eu tive a oportunidade de fazer um intercâmbio de culturas sensacional. A música brasileira ultrapassa os limites de ritmo e swingue, somos sofisticados e harmônicos. É esse tipo de composição harmônica de alta qualidade que nos distancia da música tipicamente latina e nos faz ser respeitados. Tom Jobim, por exemplo, está no Real Book, o principal livro de jazz. A bossa-nova é de um requinte absurdo.

Foto: Patricia Cecatti
O recado da diva: 'Quem canta os males espanta'

Rola um papinho no meio artístico que você é uma mulher-banda: cantora, compositora, produtora e multiinstrumentista. Fernanda, você é uma espécie de Ronaldinho Gaúcho do drum’n’bass?
Não. Longe disso. Até porque eu gosto de ter sido reconhecida por um ritmo que eu realmente me apaixonei, mas ainda me sinto uma visitante desse estilo. E o Ronaldinho Gaúcho não é um visitante do futebol (risos).

O futebol marca a identidade brasileira. O campinho de terra batida, a bola de meia, a chuteira sem cravos... Qual é a conexão do esporte com a música?
A nossa própria história. O talento, o swingue, a mistura de malícia e ritmo. Não é a toa que Chico Buarque ama tanto o futebol.

E você, torce para qual time?
Olha, já fui palmeirense, adorava o Alex. Eu aprecio muito o futebol como arte. Hoje eu não torço mais, por questão de tempo, mas também porque eu vejo que o futebol perdeu a condição de futebol. Os valores são outros. Tem gente ganhando uma fortuna e gente ganhando uma miséria. Isso tudo deixou os jogadores meio fora da realidade do esporte. Está tudo muito desproporcional e eu sinto muita falta de ver aquele boleiro que defende o time, que veste a camisa. Falta identidade, sabe, eu acho que igual ao Pelé não vai ter mais.

Você já escreveu sobre futebol, como em “A Bola”, por exemplo...
Ah sim, eu escrevi essa música em parceria com o Vitor Belis. E ela fala sobre esse negócio irritante que é o fominha. Aquele cara que não passa a bola.

Pouca gente sabe que você já jogou bola.
Acredita? Era meu esporte preferido, na infância. Perto da minha casa tinha um campinho e eu jogava como ponta-esquerda. Até gostava de tênis também, mas aí tinha que pagar a quadra, o futebol era sempre a melhor opção.