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| Fernanda
diz que falta identidade no futebol |
Uma
coisa é certa: se Fernanda Porto fosse técnica
da Seleção, Chico Buarque, Tom Jobim,
Caetano Veloso e Gilberto Gil formariam um ‘quadrado
mágico’. Pois é, imagine um time
orquestrado por uma das mais belas vozes femininas do
Brasil. A cantora, compositora, produtora e multiinstrumentista
fala sobre tudo que você pode imaginar e mais
um pouco nessa conversa franca. Inclusive futebol, é
claro! Ah, fique sabendo que a diva da MPB já
chutou muita bola como ponta-esquerda nos campinhos
de várzea de São Paulo, onde cresceu.
Fernanda só não aceita ser comparada ao
Ronaldinho Gaúcho do drum’n’bass.
Pura modéstia.
Fê, quais são as suas memórias
distantes?
FERNANDA PORTO: Lembro bastante do quintal
da minha avó, que foi uma pessoa muito importante
para mim. O jardim e o cheiro de dama-da-noite são
lembranças fortes da minha infância.
E como começou seu interesse pela música?
Na verdade eu nasci em um ambiente musical. Minha mãe
e minha avó eram pianistas. Cresci ao som de
Chopin no piano, enquanto o meu pai me apresentava jazz
e bossa-nova. Mas eu tive consciência disso tudo
quando fazia pré-primário e a professora
de flauta gravou algumas aulas. Fiquei sem entender
o por quê. Logo em seguida passei a compor para
as apresentações da escola.
Qual a sensação que teve no 1º
show?
Foi muito bom, emocionante, é difícil
descrever. Foi na época da escola. Participava
dos festivais com bandinhas e cheguei a ganhar alguns.
Daí em diante eu gostei tanto da idéia
que fiz canto lírico na faculdade. Imaginem,
entrei para fazer piano, fui para a composição
e regência até chegar ao canto lírico.
Hoje se acha uma mulher de sucesso?
Ahh, acho sim, e me sinto muito feliz. Fiz um trabalho
sem esperar nada dele e hoje eu vivo disso sem precisar
abrir mão das minhas idéias. Esse é
o meu conceito de sucesso.
E você gosta de ser celebridade?
Gosto. Por ser conhecida mundialmente, eu tive a oportunidade
de fazer um intercâmbio de culturas sensacional.
A música brasileira ultrapassa os limites de
ritmo e swingue, somos sofisticados e harmônicos.
É esse tipo de composição harmônica
de alta qualidade que nos distancia da música
tipicamente latina e nos faz ser respeitados. Tom Jobim,
por exemplo, está no Real Book, o principal livro
de jazz. A bossa-nova é de um requinte absurdo.
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| O
recado da diva: 'Quem canta os males espanta' |
Rola um papinho no meio artístico que
você é uma mulher-banda: cantora, compositora,
produtora e multiinstrumentista. Fernanda, você
é uma espécie de Ronaldinho Gaúcho
do drum’n’bass?
Não. Longe disso. Até porque eu gosto
de ter sido reconhecida por um ritmo que eu realmente
me apaixonei, mas ainda me sinto uma visitante desse
estilo. E o Ronaldinho Gaúcho não é
um visitante do futebol (risos).
O futebol marca a identidade brasileira. O
campinho de terra batida, a bola de meia, a chuteira
sem cravos... Qual é a conexão do esporte
com a música?
A nossa própria história. O talento,
o swingue, a mistura de malícia e ritmo. Não
é a toa que Chico Buarque ama tanto o futebol.
E você, torce para qual time?
Olha, já fui palmeirense, adorava o Alex. Eu
aprecio muito o futebol como arte. Hoje eu não
torço mais, por questão de tempo, mas
também porque eu vejo que o futebol perdeu a
condição de futebol. Os valores são
outros. Tem gente ganhando uma fortuna e gente ganhando
uma miséria. Isso tudo deixou os jogadores meio
fora da realidade do esporte. Está tudo muito
desproporcional e eu sinto muita falta de ver aquele
boleiro que defende o time, que veste a camisa. Falta
identidade, sabe, eu acho que igual ao Pelé não
vai ter mais.
Você já escreveu sobre futebol,
como em “A Bola”, por exemplo...
Ah sim, eu escrevi essa música em parceria com
o Vitor Belis. E ela fala sobre esse negócio
irritante que é o fominha. Aquele cara que não
passa a bola.
Pouca gente sabe que você já jogou
bola.
Acredita? Era meu esporte preferido, na infância.
Perto da minha casa tinha um campinho e eu jogava como
ponta-esquerda. Até gostava de tênis também,
mas aí tinha que pagar a quadra, o futebol era
sempre a melhor opção.
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