2007 - EDIÇÃO 77

O BOM PASTOR
Por Jorge Nicola
Foto: Patricia Cecatti
Kaká em ação contra Portugal: a primeira derrota da Era Dunga.

Ninguém sabe se Dunga estará no comando da Seleção Brasileira até a próxima Copa. Provavelmente não. Mas o Fatto Olé descobriu a grande missão do técnico-tampão nos bastidores da CBF: transformar a concentração do grupo verde-amarelo numa espécie de santuário. É por isso que Kaká exerce uma forte liderança. O jeito tranqüilo, o profissionalismo e, principalmente, sua religiosidade são os pontos de força do craque do Milan. Ronaldo, que - só para você ter idéia - bebia vinho quase todas as noites durante a Copa, não veste mais a camisa amarelinha. O fim da Era dos Anjos Rebeldes está decretado!

A primeira providência de Dunga como treinador foi dar a Kaká a camisa 10, até então de Ronaldinho Gaúcho. Com o respaldo de Ricardo Teixeira, o novo técnico também tirou força daqueles que poderiam ofuscar o ex-são-paulino no comando do grupo. O poder do ‘Bom Pastor’ aumenta a cada nova convocação.

A comissão técnica e os cartolas estimulam Kaká a puxar as conversas nas preleções, nos vestiários e até na boca do túnel, momentos antes dos jogos.

Segundo contam alguns atletas em off, o líder do time admite entre os boleiros que casou virgem, que não freqüenta baladas e que vive exclusivamente para levar alegria a seus pais e agora à mulher, Caroline Celico. Kaká capitaneia há tempos as rodas de reza entre os evangélicos convocados: o zagueiro Lúcio, os volantes Edmílson, Gilberto Silva e Mineiro, o lateral-esquerdo Gilberto, entre vários outros. A única turbulência na vida do ídolo milanista, que de acordo com Romário é o melhor jogador do mundo na atualidade, rola fora dos gramados.

Foto: Patricia Cecatti
Kaká virou referência para os boleiros que buscam espaço

O que tira o sono de Kaká é a polêmica envolvendo os proprietários da Igreja Renascer em Cristo. O craque da Seleção foge das entrevistas em razão das prisões do apóstolo Estevam e da bispa Sônia, em Miami – a dupla tentava entrar nos Estados Unidos com mais de R$ 100 mil não declarados. A dupla, que havia realizado até o casamento do ‘Bom Pastor’, é de total confiança do boleiro-galã. Companheiros de Kaká garantem que ele dá, todo mês, um décimo do que recebe à igreja. Algo em torno de R$ 90 mil.

BAIXO ASTRAL – Enquanto tenta apagar o escândalo de Estevam e Sônia, Kaká acompanha de perto a fritura dos atletas que não têm o perfil de santinhos. Ronaldo recebeu o recado de que está descartado para sempre por causa de seu comportamento na Copa do Mundo da Alemanha, em 2006. Depois de chegar 18 quilos acima do peso, ele deu mau exemplo aos demais ao exagerar nas doses de vinho, nas noites seguintes aos jogos do Brasil. “Como o grupo era proibido de sair da concentração, tinha de ficar no hotel. E o Ronaldo pedia um vinho atrás do outro. Bebia sem parar, apesar dos pedidos da comissão técnica para que ele parasse”, revela um dos braços direitos de Carlos Alberto Parreira, na época.

Por mais que arrebente no Milan, Ronaldo não terá mais vez na CBF. Seu ex-companheiro de Real Madrid, Roberto Carlos, é outro com o filme queimadíssimo. Ainda que tivesse idade para disputar a próxima Copa, não faria parte da lista de qualquer que fosse o treinador. O atacante Adriano, mais novo integrante do time dos rebeldes, recebeu três puxões de orelha de Dunga somente neste ano. Em vão. Segue aprontando durante as noitadas na Itália.

Um dos poucos remanescentes da panela mais ousada, Robinho está isolado no santuário tupiniquim. “É incrível como ele está tendo que mudar seu comportamento. Por não ter mais os amigos de bagunça por perto, atualmente é menos brincalhão e mais concentrado”, analisa um jornalista altamente influente nos corredores da CBF. O ex-atacante do Santos sabe que, ou se enquadra, ou perde o lugar também. Ronaldinho, que esquentou a reserva, também é um peixe fora d’água.

Foto: Patricia Cecatti
A fé é marca registrada da nova Seleção Brasileira

Sem a corja dos lobos para incomodar, Dunga já garantiu a presença de quase todas suas estrelas na Copa América. E o torneio, que acontece em junho e julho, na Venezuela, nunca caiu no gosto dos brasileiros que atuam na Europa – afinal, faz com que eles tenham de trocar suas férias por mais futebol. Só Ronaldinho Gaúcho não deu certeza do ar de sua graça na competição. E a decisão do astro do Barça é explicável. Relegado ao segundo plano, ele sabe o quanto Dunga depende de um bom resultado na Venezuela para fugir das sombras de Luiz Felipe Scolari e Wanderley Luxemburgo. Ou seja, se não estiver na Seleção, as chances de título diminuem e o emprego do treinador fica ainda mais a perigo.

Não se esqueçam que Felipão recebeu inúmeros convites para voltar, desde o fim da Copa passada. Na última semana, o homem dos longos bigodes admitiu publicamente que agora considera possível treinar o Brasil mesmo morando na Europa, conforme querem seus familiares. Correndo por fora está Luxemburgo, que sonha em desfazer a má imagem deixada enquanto esteve no comando dos principais craques do País. Definitivamente Dunga fica, no máximo, até 2008.