2007 - EDIÇÃO 76

DENILSON, O ÚLTIMO BOLEIRO INOCENTE
Por Jorge Nicola

É óbvio que jogador de futebol nenhum confessaria ao Fatto Olé que nunca pegou uma mulher. Evidentemente. Imaginem a tiração de sarro no mundo da bola. Também pouco importa se o cara é virgem ou não. Na verdade, o que interessa é que Denilson, jovem de 19 anos, é uma das maiores revelações do futebol brasileiro nos últimos anos. Forte candidato a craque da próxima Olimpíada. Titular absoluto do todo-poderoso Arsenal, o ex-jogador do São Paulo é capaz de fugir de toda e qualquer tentação para não perder o fôlego. “Não bebo, não fumo, não saio na noite e não namoro...”, confessa Denilson. Então, amém.

Fala sério, do que você já abriu mão para ser jogador?
DENILSON - (Risos). É mais fácil você perguntar do que eu não abri mão. Desde muito pequeno, coloquei na cabeça que meu grande objetivo na vida era ser um jogador de futebol de sucesso. Disse para mim mesmo que tinha que vencer, passando por cima do obstáculo que aparecesse. Eu não bebo, não fumo, não saio na noite, não namoro... Vou ter muito tempo para aproveitar os prazeres da vida mais tarde. Agora me concentro apenas na minha profissão.

Bom, mas como é o seu dia em Londres?
Acordo cedo, tomo café da manhã, vou para o Centro de Treinamentos do Arsenal e fico lá para treinar, seja de manhã ou à tarde. Depois volto para o hotel, onde faço musculação, pego uma piscina e tomo sauna. Também estou estudando inglês quase todos os dias. Acabado tudo isso, só me sobra tempo de tomar banho e cair na cama.

Tudo bem que você é um cara de tremenda responsa, mas não fez nenhuma baladinha por aí?
Cara, vou ser bem sincero: não faço, não. Vejo que aqui em Londres existem muitos pubs, e que o pessoal gosta bastante de beber, gosta da noite e tudo mais. Mas não é para mim, não.

A mulherada inglesa não estimula?
Olha, dá para dizer que elas são bonitas, principalmente de rosto. Porém elas não têm nada de melhor em relação às brasileiras.

Mas elas dão em cima?
Não muito. E tem outra: eu entendo tudo o que falam, mas como também não consigo falar tão bem o inglês, acaba dificultando a comunicação. Então não tenho contato. Como falei, meu foco está apenas no trabalho.

O que seus amigos de infância conseguem fazer que você, por causa das atividades profissionais, fica impossibilitado?
Cara, muitos dos meninos que cresceram comigo já se foram. Sou de uma região muito pobre de São Paulo, e vários acabaram caindo na vida do crime. Infelizmente morreram. É também por isso que tenho tanta certeza que a minha obstinação por fazer tudo certinho está me levando para o caminho certo.

 Seu pai é quem sempre quis que você fosse boleiro?
É, sim. Ele se chama José Pereira Neves, e até foi jogador. Era dos bons, melhor até do que eu, mas acabou não tendo muitas oportunidades. Então ele trabalhou para que eu me preparasse e fosse completo, para ter uma chance de verdade. Foi ele também quem me ensinou a ter esse foco total no futebol, e eu agradeço muito. A única coisa ruim é que não estou mais tão próximo, porque ele ficou em São Paulo, dando aulas de futebol numa escolinha.

Você mora sozinho?
Sim. Faz parte do aprendizado, né? De vez em quando um colega meu do Brasil fica aqui em casa. Mas não posso reclamar, porque tenho tudo aqui. Uma empregada faz o café-da-manhã, prepara o almoço, a janta... Às vezes meu empresário também passa uns tempos por aqui.
   
DENILSON NA INTIMIDADE
Filme predileto:
“Adorei Dois Filhos de Francisco. Sou fã dos filmes de guerra, e ação, mas este é o melhor que já vi.”
Música:
“Sempre gostei de pagode e axé, mas desde que cheguei à Inglaterra, aprendi a escutar black music. No meu rádio toca muito Beyoncé e 50 Cent.”
Comida:
“Não troco macarrão com carne moída por nada nesse mundo. Tem um restaurante italiano aqui chamado Buono Amico que é delicioso.”
Videogame:
“Playstation 3, com certeza. Mas só jogo os games de futebol. Estou ficando fera no Winning Eleven.”
Em quase um ano de Londres, o que já deu para conhecer?
Ah, conheço alguns shoppings daqui, que são bem legais para passear. Também já fui no Big Ben, que é um dos pontos turísticos mais famosos de Londres. Agora quero ir para Wimbledon (palco do famoso torneio de tênis em grama). Quando estou a fim de comer algo fora de casa, geralmente vou a um restaurante chamado Rico, uma churrascaria bem legal. 

Qual foi a sua maior loucura de consumo?
Ah, acabei de comprar um Playstation 3. Queria há bastante tempo esse videogame, mas não estava a fim de gastar o dinheiro, então comecei a juntar todas as moedas que ganhava. Juntei, juntei, juntei, até que consegui. Agora estou jogando direto o Wining Eleven (game de futebol).

Falando de futebol, seu clube é dono do Emirates Stadium, considerado o estádio mais moderno do mundo. Ele é tudo isso mesmo?
Cara, os brasileiros não têm noção do que é o Emirates Stadium. O estádio é maravilhoso, deslumbrante. Não tenho nem adjetivos para descrevê-lo. Para ficar mais fácil de entender, dá para dizer que o Emirates põe o Morumbi no bolso.

No Brasil muito se fala dos hooligans...
Até agora não tive problema e não vi nada de confusão envolvendo os hooligans. O torcedor aqui sabe respeitar um jogador, e gosta bem mais de futebol do que o brasileiro.

Como foi ter tomado o “Chá das Cinco” com a Rainha da Inglaterra?
Foi uma experiência nova, e legal. Quem não quer estar perto de uma personalidade como a Rainha da Inglaterra (Elisabeth 2ª). Eu só não tomei o chá porque já tinha experimentado e achei o gosto estranho. O pessoal aqui mistura chá com leite, e fica ruim pra caramba. Mas o Gilberto e o Júlio Baptista tomaram o chá com a Rainha. Também foi divertido porque ela puxou papo com nós três, por causa do café. Quando disseram a ela que éramos brasileiros, ela fez questão de falar que só toma o café produzido no Brasil.

O técnico do seu time, Arsene Wenger, já tem mais de dez anos de clube. O quanto isso é bom e ruim para você?
É maravilhoso, e gostaria que essa fosse a realidade no Brasil. Como o Wenger tem o respaldo da diretoria, toma as decisões com convicção. Ele dá liberdade para o jogador, conversa com todo mundo. Vejo o Wenger como se fosse um pai.

O Henry costuma ser cruel com a Seleção Brasileira. Ele ao menos te trata bem, ou também é carrasco com você?
O Henry é um cara sensacional, além de um cracaço. Quando cheguei, nem tinha muita coragem de chegar para falar com ele. Mas não precisou, porque ele sempre veio conversar comigo, me dar dicas, toques... Prometo que quando eu já estiver fera no inglês, pergunto por que ele faz tanto gol no Brasil.