2007 - EDIÇÃO 75

FUTEBOL HI-TECH
Por Jorge Nicola

Dinamômetro isocinético, plataforma vibratória, Evolution Real Power, espionagem virtual... Não pense que todos estes termos compõem o mais novo enredo de um filme de George Lucas para o "Guerra nas Estrelas", ou que você está diante de uma matéria futurista. Tudo isso já faz parte da realidade do futebol brasileiro. É a mais moderna tecnologia a favor do mundo da bola.

Se tivessem a chance de conhecer o futebol por trás das câmeras, Luke Skywalker, Darth Vader e Mestre Yoda ficariam impressionados. Afinal, com a ajuda de equipamentos que mais parecem robôs, tudo se transformou. Os jogadores ficam cada vez menos tempo em recuperação de contusões graves, chegam a correr dez quilômetros numa única partida, usam chuteiras e roupas que estão quase falando... Nesses tempos modernos, até a forma de contratar atletas mudou: o DVD virou moda.

“O futebol atual vai muito além da disputa entre 22 caras correndo atrás de uma bola, num campo cheio de linhas”, ressalta o médico e comentarista esportivo Osmar de Oliveira. “O trabalho de retaguarda cresce a cada dia, e se aproveita da imensa evolução científica para gerar benefícios”, acrescenta Osmar, que trabalhou durante anos como médico do Corinthians.

A preparação física ganhou a ajuda de equipamentos capazes de detectar futuras lesões, desequilíbrio muscular entre as pernas, quantidade de resíduos expelidos após um exercício... Até o trio de arbitragem foi incluído na Era Biônica, ou você nunca reparou que o árbitro e seus assistentes andam com uma parafernália espalhada por todo o corpo. Além de se comunicarem, eles contam com um aparelho que conta todo o histórico dos atletas, prevenindo fraudes e a presença de jogadores irregulares.

O inchaço das comissões técnicas comprova o quanto a tecnologia tem jogado a favor. O Santos, por exemplo, conta com mais de 30 profissionais trabalhando ao lado do técnico Wanderley Luxemburgo. Para manter esta turma em ação, saem dos cofres do Peixe aproximadamente R$ 900 mil por mês, apenas com salários. “Mas também temos o que há de mais avançado no nosso Centro de Treinamento”, garante o fisioterapeuta Nilton Petrone, contratado a peso de ouro, e conhecido mundialmente pela recuperação de Ronaldo.

Tanta tecnologia proporciona situações bastante engraçadas. Outro dia, o técnico do Portsmouth contratou uma empresa que faz imagens aéreas para filmar o treino secreto realizado pelo Manchester United. Na rodada seguinte, as duas equipes se enfrentariam pelo Campeonato Inglês e o treinador queria descobrir as jogadas ensaiadas que Alex Fergunson preparava com Cristiano Ronaldo, Rooney e Giggs. Somente dias depois os craques dos Diabos Vermelhos foram entender que aquele helicóptero que insistia em sobrevoar o treino estava lá para filmar tudo o que se passava. Conclusão da história: acabaram revoltados e criaram o maior bafafá.

Não fosse pela evolução da medicina e de todos os equipamentos, é bem provável que Ronaldo, Nilmar, Ricardo Oliveira, Rafael Sobis e companhia limitada estivessem hoje do lado de cá da televisão, assistindo às partidas da poltrona. “Já somos capazes de quase tudo a serviço dos jogadores. Uma lesão de joelho que representaria o fim da carreira na década de 70 hoje pode ser corrigida em seis meses de recuperação”, conta o médico corintiano Paulo Faria.

O vestuário de um atleta também é produzido após intermináveis estudos. As chuteiras de uma imensa fabricante, por exemplo, chegam aos pés dos craques depois de passarem até por testes em túneis de vento, como acontece com os carros da Fórmula 1. Outra empresa conseguiu fazer uma chuteira que aumenta a velocidade da bola em 3%, graças a um longo estudo desenvolvido em cooperação com cientistas canadenses. A tecnologia fez com que houvesse melhora da transferência de energia entre o calçado e a bola.

O mais curioso é que, apesar de tanta inovação, o dia-a-dia dos clubes não consegue desprezar velhos itens da preparação física como cones, cordas e a barreira de madeira. O trio funciona como o vinho: quanto mais velhos, melhores.

DVD na moda - “Vejo mais de dez DVDs por dia”, garante o são-paulino Muricy Ramalho. A afirmação pode dar a entender que o técnico é um algum viciado em filmes. Ledo engano. O comandante tricolor gasta horas assistindo a vídeos com os melhores lances de jogadores que buscam uma vaga no São Paulo. “Agora é só assim que se contrata. Chove DVD aqui, e é minha obrigação ver, para tentar achar algum bom reforço”, justifica.

Desta maneira o Verdão conheceu o chileno Valdivia, o Timão acertou com o boliviano Arce, e o Flamengo com o uruguaio Peralta. “Mas a gente também acaba ficando com uns bondes, porque no DVD só aparecem os melhores lances dos caras”, reconhece o botafoguense Cuca. Como esquecer de Santiago Silva, o El Tanque, que fracassou no Corinthians; Rondon, o atacante venezuelano que quase não jogou no São Paulo; Dudar, zagueiro que cansou de dar sustos na torcida do Vasco... Ficar roendo essa rapadura tecnológica não é mole não.