2007 - EDIÇÃO 74

O HOMEM MAIS ODIADO DO FUTEBOL
Por Jorge Nicola

Émerson Leão tem 40 anos de experiência no futebol. Juntando os títulos como jogador e técnico, ele soma 20. Mas estes números são fichinha se forem comparados aos inimigos que o treinador do Corinthians coleciona. A lista conta com todos os tipos de pessoas envolvidas no mundo da bola, desde dirigentes, passando por empresários, jogadores, médicos, jornalistas e até faxineiros e seguranças. Sem sombra de dúvida, Leão é dono do status de homem mais detestado do esporte bretão no Brasil.

Para entender a facilidade com que o técnico arranja desafetos, é preciso voltar no tempo. Década de 60: o garoto Émerson tinha um mísero amigo, que nem era tão próximo assim. “Conheço ele desde muito jovem, pois éramos vizinhos em Ribeirão Preto”, conta o jornalista Márcio Bernardes. “Já naquela época, a cidade inteira o considerava arrogante, prepotente e antipático”, lembra o apresentador de um programa de futebol na Rádio Transamérica.

A personalidade forte, o jeito genioso e a língua afiada fizeram de Leão um verdadeiro pára-raios de qüiproquós e quizumbas. Entre os casos célebres na ficha corrida do homem de cabelos brancos estão o soco que deu em Marinho Chagas durante a Copa do Mundo de 1974; o chute na cabeça que levou de Serginho Chulapa em 1981; a batalha campal da qual fez parte em 1997, contra o Lanús, enquanto comandava o Santos na Taça Conmebol; e o spray de pimenta que atingiu seus olhos, atirado por policiais que tentavam impedi-lo de agredir o árbitro, numa partida com o Paysandu, no Brasileiro de 2002.

Mas tais confusões não representam 1/10 de todo o currículo do mais odiado cara do mundo da bola. “Sou o mais odiado? Bom saber...”, ironiza Leão, ao ser questionado pelo Fatto Olé sobre sua baixíssima popularidade no mercado. “Não estou nem um pouco preocupado com isso. Só me concentro no meu trabalho. E se incomodo tanta gente, é porque devo ter valor”, acrescenta o corintiano, dando a entender que a inveja predomina dentro das quatro linhas.

Difícil é saber se Leão criou mais inimigos enquanto era goleiro ou se desde que virou técnico. Em sete meses de Parque São Jorge, por exemplo, ele já esteve perto de trocar socos com Carlos Alberto, Tevez, Mascherano e o iraniano Kia Joorabchian, responsável pela MSI. Nos tempos de São Paulo, estabeleceu clima de guerra com Júnior, Luizão e Falcão – lembra do gênio brasileiro do futsal, que quase não teve chance para encantar nos gramados?

No Palmeiras, a rusga maior do comandante orgulhoso foi com os funcionários. Gente que passa desapercebida na rotina do futebol, mas que entrou em desespero enquanto teve como chefe o colecionador de carros antigos. “O dia mais feliz para todo mundo aqui foi quando ele foi demitido”, afirma um segurança, que prefere ter o nome mantido em sigilo, com medo de perder o emprego. “O Leão é o cúmulo da arrogância e tratou mal nós da segurança, jardineiros, faxineiros...”

Quem vai domar a fera? O treinador é mal-quisto até entre os colegas de profissão, e o santista Wanderley Luxemburgo encabeça o movimento. Tudo começou quando Leão, com sua metralhadora giratória, acusou o adversário de ter puxado seu tapete no Santos, em 2004. Depois, “Gloria Menezes”, como Leão é maldosamente chamado, afirmou publicamente que nunca apertará a mão de Luxemburgo. “Amizade e inimizade existem em qualquer lugar. Também não faço a mínima questão de cumprimentá-lo”, retruca o ex-treinador da Seleção Brasileira.

Outro desafeto incondicional do técnico que já passou por todos os grandes de São Paulo é o presidente da CBF, Ricardo Teixeira. Demitido da Seleção após fraca campanha na Copa das Confederações, em que só pôde convocar atletas reservas, Leão bradou nos quatro cantos do mundo o ódio a Teixeira, a quem chamou de traíra. “Nunca mais trabalho na Seleção enquanto ela for comandada por essas pessoas”, avisa o corintiano. Mesmo que quisesse, não teria a mínima chance, já que ele é persona non grata na entidade.

Para completar, Leão também é abominado pela classe dos árbitros e por grande parte da imprensa. Os motivos são óbvios: ele não minimiza nas críticas aos homens do apito, e vive numa relação de amor e ódio com os jornalistas. Já há quem defenda a idéia de levantar um busto para a esposa de Leão, que o agüenta há mais de 30 anos. Mulher corajosa, né não?
O QUE FALAM SOBRE LEÃO
Kia Joorabchian
“Ele não tem competência para conviver com grandes atletas, e vive usando desculpas para justificar a insatisfação deles. Um técnico não deveria protagonizar brigas infantis em público e durante uma partida, mas sim guiar aqueles que estão em processo de amadurecimento. O Leão é um cara que precisa trabalhar mais e falar menos.”
Marco Aurélio Cunha
“O Leão é um treinador com prazo de validade. Seu estilo durão, típico de uma ditadura, funciona seis meses. A partir daí, os jogadores se rebelam e os resultados desaparecem. O Leão também vive se gabando dos caras que lança, mas ele nem sabia se o Josué era preto ou branco quando chegou ao São Paulo. E olha que o Josué já fazia sucesso no Goiás há quase dez anos.”
Falcão
“Eu tenho certeza que poderia ter dado certo no futebol, mas o orgulho do Leão não permitiu. Ele ficava incomodado com o fato de a imprensa dar notícias minhas, e querer me entrevistar. Acho que ele se sentia desprestigiado, e não me punha para jogar. Apesar disso, minha passagem pelo São Paulo foi maravilhosa e só guardo ótimas recordações.”
Carlos Alberto
“É muito complicado trabalhar com ele. Você tem que ter uma paciência muito grande, porque o cara é o dono da verdade e só quer mandar. Tem de haver um respeito de homem para homem, e comigo ele não teve. Tem que deixar a vaidade de lado, já que ele passa dos limites. Não vivemos mais na ditadura. Espero nunca mais ter de trabalhar com ele.”
Serginho Chulapa
“O Leão é um dos sujeitos mais desprezíveis no meio do futebol. Não gosto nem de falar sobre ele.”