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Pare,
relaxe e pense por alguns segundos. Alguma vez na vida
você já ouviu falar de uma mulher que tenha
sofrido preconceito por ser extremamente bonita? Loira,
olhos azuis, barriga chapada, corpão definido...
A campeã mundial de boxe na categoria superleve,
Duda Yankovich, precisa fazer cara de mau para ser respeitada
na sua profissão. Eis o preço de tanta
beleza. “Sou um homem no ringue e uma mulher fora
do tablado”, diz a bela, que é uma fera.
O Fatto Olé ousou encará-la
sem esquivas. Entre golpes e defesas, fomos além
do pugilismo e discutimos temas interessantes. Opa,
se Clint Eastwood tivesse a sorte de ter conhecido esta
sérvia (com coração brasileiro),
a pop star Hilary Swank não teria durado dois
rounds no longa-metragem Menina de Ouro. O Oscar
vai para... você. Boa leitura!
Duda, você é muito casca grossa?
Pelo contrário, meu comportamento é de
uma mulher normal, apesar de lutar boxe, que não
é considerado um esporte muito feminino. Há
uns tempos eu achava que precisava mostrar a minha força,
sabe o famoso ‘eu me garanto?’. Mas hoje
eu sou contra essa agressividade, não há
necessidade.
O que representa ser campeã de boxe num
planeta extremamente violento?
A luta que pratico é um esporte, não é
briga, não é violência. Por exemplo,
a minha última disputa foi contra a americana
Belinda Laracuente, uma atleta experiente, que já
lutou com mulheres do mundo inteiro, e que pratica boxe
há 17 anos. Disputamos o título mundial
da forma mais esportiva possível. A luta foi
técnica, inteligente, do tipo ‘me engana,
que eu te engano’. O que menos teve no ringue
foi briga.
Você é supervaidosa... Passa mais
tempo trocando socos e esquivas ou em frente ao espelho
cuidando da aparência?
Tudo depende da época em que vivo. Se estou num
período de luta, admito que largo um pouco minha
vaidade de mulher, pois é preciso concentração
no treino. Mas quando eu tô tranqüila, aí
cuido do cabelo, da minha beleza, uso maquiagem. É
tudo uma questão de organização
de tempo.
Aos olhos de boa parte dos brasileiros, você
é uma mulher esteticamente perfeita...
Eu me acho sim, porque todo mundo busca sua própria
perfeição. E faço essa busca não
só esteticamente, mas no trabalho também,
só que esse esforço pela perfeição
é pra mim mesma. Eu não acho que agrado
a todos os gostos, afinal de contas, gosto é
uma coisa que não se discute e tem muita gente
que acha que eu tenho o ombro grande demais, a perna
forte demais. Não posso pensar em ter a beleza
de uma Angelina Jolie quando eu não sou a Angelina
Jolie.
É difícil conviver com tanta beleza?
Não canso de ser bonita. Só que tem gente
que me acha muito mulher para lutar. Acham que eu tenho
que coçar o saco para lutar melhor. Antes eu
me irritava muito porque as pessoas se esquecem que
o que luta lá dentro sou eu, não é
cabelo, nem unha e nem olho claro. Já disseram
que ganhei uma luta porque sou bonitinha. Ah, não
é isso, né? Esse é um esporte de
rendimento. Luto profissionalmente, são 10 assaltos.
O ringue não é um desfile de moda.

Dizem que as pugilistas são mais respeitadas
quando são feias...Você já quis
ser feia para assustar as adversárias?
Aparência não ganha luta. Hoje estou mais
tranqüila, mas ainda acho muito ridículo
as pessoas ficarem me rotulando. A cada dia que passa
eu vou me tornando uma lutadora melhor, hoje eu sou
a melhor do mundo, só que na minha federação.
O trabalho de ficar onde estou é mais difícil
do que chegar aonde cheguei.
Como é a Duda longe do ringue?
A única coisa que mantém bem 100% é
o esporte. Mesmo o meu lazer é baseado nele.
Agora, por exemplo, estou na fase de praticar wakeboard,
que é o máximo. Tenho treinado bastante
para fazer isso tão bem quanto um iniciante de
competição. Eu também gosto de
sair, dançar, curtir uma balada, mas não
agüento isso muito tempo, me enjoa. Procuro não
dispensar uma praia, um mar.
Geralmente as meninas quando crianças
sonham em ser modelo e brincam de boneca. E você,
pensava em ser o quê?
Eu queria ser aeromoça ou bailarina. Mas como
era muito gordinha, desisti do sonho de ser bailarina
e encanei em ser aeromoça. Isso porque eu venho
de um país do leste europeu, a minha família
é de classe média baixa, então
eu vivia sonhando em ficar viajando, para conhecer o
mundo todo. Esse era só um sonho de menina, não
me arrependo em nada de não ter virado aeromoça.
Qual foi a sua maior extravagância de
consumo?
O melhor investimento que eu fiz na minha vida foi colocar
meu silicone. Mas isso tem explicação.
Desde sempre tive meus complexos de criança e
coloquei a prótese para resolver um problema
psicológico mesmo, me tornei uma pessoa melhor,
mais feliz. Além disso, eu tenho direito, o boxe
é um esporte masculino, mas eu sou supervaidosa,
pô. O Maguila mesmo já veio falar que meu
peito é muito durinho para eu lutar. Ninguém
merece, né? O cara tem o peito maior do que o
meu.
Você tem projetos de fazer algo pela sociedade
brasileira?
Trabalhava na Buena Vista Boxe, uma academia que era
perto de uma favela. Era de um grupo de cubanos que
treinava a seleção masculina. Tínhamos
um projeto em que a gente trazia, três vezes por
semana, crianças das favelas e também
de creches. Só que a academia fechou e eu não
tinha condições de manter o projeto sozinha.
Quero voltar a fazer isso no futuro porque eu achei
muitos talentos naquele grupo. Posso, quem sabe, acabar
tirando alguém da rua, das drogas, enfim, da
criminalidade. O boxe ajuda a extravasar a energia negativa.

Você já teve medo de homem?
Nunca tive razão para ter. Meu pai não
era bravo, não apanhava dele nem nada. Minha
família é toda tradicional, toda séria
e cheia de regras. Só que eu nasci desse jeito
e me acostumei a viver nesse ritmo militar, acostumei
a ter respeito. Tive muito respeito pelo meu pai, pelo
meu avô, e estes são os homens de quem
se deve ter medo. Penso que se a gente não provocar
nada, não ganha nada em troca.
E os homens, têm medo de você?
Tenho percebido que os caras têm medo de mim,
sim. Eu adquiri uma fama de ser grosseira com os homens,
mas tem um detalhe, eu só trato mal quem não
me respeita. Tem uns caras que já não
sabem mais como se comunicar com uma mulher. Se eu vou
numa balada só com minhas amigas, a última
coisa que eu quero é que um cara me encoste na
parede, sem saber meu nome, e comece a me agarrar. É
claro que esse tipo de homem vai receber tudo o que
for ruim de mim. Os caras estão muito folgados.
E isso não tem nada a ver com o boxe, acho que
qualquer mulher deve ter essa atitude e não merece
ser tratada dessa forma.
O futebol é uma paixão nacional.
Você, que já é tupiniquim de coração,
adotou o esporte bretão?
Me considero brasileira, apesar do meu processo de naturalização
não ter terminado ainda. Eu só não
consegui adotar um clube. Não sei se sou são-paulina,
corintiana, santista. Isso é definido quando
as pessoas são crianças, muitas vezes
por causa dos pais, de alguma tradição.
Só consegui adotar a Seleção Brasileira.
E torço muito, visto a camisa do Brasil, acordo
de madrugada para assistir aos jogos, grito na Copa...
Qual o jogador brasileiro que você acha
mais bonito?
(Risos) O Adriano. Aliás, eu passei a última
Copa com a camisa dele da Seleção, a número
sete. Mas ele me decepcionou, não jogou nada.
Tive tanta vergonha que até enfiei a camisa dele
no fundo do armário.

Você acha que o treinamento de boxe pode
ajudar na preparação física dos
boleiros?
O boxe é um dos esportes que dá muito
condicionamento físico, porque trabalha a parte
aeróbia e anaeróbia do corpo. Mistura
força, resistência, velocidade, agilidade
e autoconfiança. E como o futebol é um
esporte anaeróbio, com certeza, iria ajudar.
Mas teria que haver uma adaptação do treino,
porque no futebol os jogadores usam mais os membros
inferiores e no boxe usamos mais os membros superiores.
Duda, você posaria nua?
Depende. Eu não posaria pelo exibicionismo, para
me afirmar como linda, maravilhosa. Mas se fosse um
momento bom e as fotos se tornassem um bom negócio
pra mim e pras pessoas ao meu redor, eu toparia. Mas
esse não é meu objetivo agora, nem meu
sonho e muito menos meu próximo passo.
Essa pergunta é inevitável: qual
a importância do sexo na sua vida?
É importante como na vida de todo mundo. Sexo
é uma necessidade fisiológica de todas
as pessoas. Para os homens é mais física
mesmo, para as mulheres é mais emocional. Para
mim, sexo sem amor não funciona. Eu tenho namorado,
e a minha vida sexual é normal.
Qual a melhor palavra do seu dicionário?
São duas: cumplicidade e determinação.
Se você fosse publicar um anúncio
em vários idiomas para o mundo inteiro ler, qual
seria a sua mensagem de paz?
O ser humano devia ser mais ser humano e deixar um pouco
de lado os outros interesses.
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