2007 - EDIÇÃO 74

A VERDADEIRA MENINA DE OURO
Por Nathalia Pazini, especial para o Fatto Olé

Pare, relaxe e pense por alguns segundos. Alguma vez na vida você já ouviu falar de uma mulher que tenha sofrido preconceito por ser extremamente bonita? Loira, olhos azuis, barriga chapada, corpão definido... A campeã mundial de boxe na categoria superleve, Duda Yankovich, precisa fazer cara de mau para ser respeitada na sua profissão. Eis o preço de tanta beleza. “Sou um homem no ringue e uma mulher fora do tablado”, diz a bela, que é uma fera. O Fatto Olé ousou encará-la sem esquivas. Entre golpes e defesas, fomos além do pugilismo e discutimos temas interessantes. Opa, se Clint Eastwood tivesse a sorte de ter conhecido esta sérvia (com coração brasileiro), a pop star Hilary Swank não teria durado dois rounds no longa-metragem Menina de Ouro. O Oscar vai para... você. Boa leitura!

Foto: Interfel Duda, você é muito casca grossa?
Pelo contrário, meu comportamento é de uma mulher normal, apesar de lutar boxe, que não é considerado um esporte muito feminino. Há uns tempos eu achava que precisava mostrar a minha força, sabe o famoso ‘eu me garanto?’. Mas hoje eu sou contra essa agressividade, não há necessidade.

O que representa ser campeã de boxe num planeta extremamente violento?
A luta que pratico é um esporte, não é briga, não é violência. Por exemplo, a minha última disputa foi contra a americana Belinda Laracuente, uma atleta experiente, que já lutou com mulheres do mundo inteiro, e que pratica boxe há 17 anos. Disputamos o título mundial da forma mais esportiva possível. A luta foi técnica, inteligente, do tipo ‘me engana, que eu te engano’. O que menos teve no ringue foi briga.

Você é supervaidosa... Passa mais tempo trocando socos e esquivas ou em frente ao espelho cuidando da aparência?
Tudo depende da época em que vivo. Se estou num período de luta, admito que largo um pouco minha vaidade de mulher, pois é preciso concentração no treino. Mas quando eu tô tranqüila, aí cuido do cabelo, da minha beleza, uso maquiagem. É tudo uma questão de organização de tempo.

Aos olhos de boa parte dos brasileiros, você é uma mulher esteticamente perfeita...
Eu me acho sim, porque todo mundo busca sua própria perfeição. E faço essa busca não só esteticamente, mas no trabalho também, só que esse esforço pela perfeição é pra mim mesma. Eu não acho que agrado a todos os gostos, afinal de contas, gosto é uma coisa que não se discute e tem muita gente que acha que eu tenho o ombro grande demais, a perna forte demais. Não posso pensar em ter a beleza de uma Angelina Jolie quando eu não sou a Angelina Jolie.

É difícil conviver com tanta beleza?
Não canso de ser bonita. Só que tem gente que me acha muito mulher para lutar. Acham que eu tenho que coçar o saco para lutar melhor. Antes eu me irritava muito porque as pessoas se esquecem que o que luta lá dentro sou eu, não é cabelo, nem unha e nem olho claro. Já disseram que ganhei uma luta porque sou bonitinha. Ah, não é isso, né? Esse é um esporte de rendimento. Luto profissionalmente, são 10 assaltos. O ringue não é um desfile de moda.

Foto: Interfel Dizem que as pugilistas são mais respeitadas quando são feias...Você já quis ser feia para assustar as adversárias?
Aparência não ganha luta. Hoje estou mais tranqüila, mas ainda acho muito ridículo as pessoas ficarem me rotulando. A cada dia que passa eu vou me tornando uma lutadora melhor, hoje eu sou a melhor do mundo, só que na minha federação. O trabalho de ficar onde estou é mais difícil do que chegar aonde cheguei.

Como é a Duda longe do ringue?
A única coisa que mantém bem 100% é o esporte. Mesmo o meu lazer é baseado nele. Agora, por exemplo, estou na fase de praticar wakeboard, que é o máximo. Tenho treinado bastante para fazer isso tão bem quanto um iniciante de competição. Eu também gosto de sair, dançar, curtir uma balada, mas não agüento isso muito tempo, me enjoa. Procuro não dispensar uma praia, um mar.

Geralmente as meninas quando crianças sonham em ser modelo e brincam de boneca. E você, pensava em ser o quê?
Eu queria ser aeromoça ou bailarina. Mas como era muito gordinha, desisti do sonho de ser bailarina e encanei em ser aeromoça. Isso porque eu venho de um país do leste europeu, a minha família é de classe média baixa, então eu vivia sonhando em ficar viajando, para conhecer o mundo todo. Esse era só um sonho de menina, não me arrependo em nada de não ter virado aeromoça.

Qual foi a sua maior extravagância de consumo?
O melhor investimento que eu fiz na minha vida foi colocar meu silicone. Mas isso tem explicação. Desde sempre tive meus complexos de criança e coloquei a prótese para resolver um problema psicológico mesmo, me tornei uma pessoa melhor, mais feliz. Além disso, eu tenho direito, o boxe é um esporte masculino, mas eu sou supervaidosa, pô. O Maguila mesmo já veio falar que meu peito é muito durinho para eu lutar. Ninguém merece, né? O cara tem o peito maior do que o meu.

Você tem projetos de fazer algo pela sociedade brasileira?
Trabalhava na Buena Vista Boxe, uma academia que era perto de uma favela. Era de um grupo de cubanos que treinava a seleção masculina. Tínhamos um projeto em que a gente trazia, três vezes por semana, crianças das favelas e também de creches. Só que a academia fechou e eu não tinha condições de manter o projeto sozinha. Quero voltar a fazer isso no futuro porque eu achei muitos talentos naquele grupo. Posso, quem sabe, acabar tirando alguém da rua, das drogas, enfim, da criminalidade. O boxe ajuda a extravasar a energia negativa.

Foto: Cia Athletica Você já teve medo de homem?
Nunca tive razão para ter. Meu pai não era bravo, não apanhava dele nem nada. Minha família é toda tradicional, toda séria e cheia de regras. Só que eu nasci desse jeito e me acostumei a viver nesse ritmo militar, acostumei a ter respeito. Tive muito respeito pelo meu pai, pelo meu avô, e estes são os homens de quem se deve ter medo. Penso que se a gente não provocar nada, não ganha nada em troca.

E os homens, têm medo de você?
Tenho percebido que os caras têm medo de mim, sim. Eu adquiri uma fama de ser grosseira com os homens, mas tem um detalhe, eu só trato mal quem não me respeita. Tem uns caras que já não sabem mais como se comunicar com uma mulher. Se eu vou numa balada só com minhas amigas, a última coisa que eu quero é que um cara me encoste na parede, sem saber meu nome, e comece a me agarrar. É claro que esse tipo de homem vai receber tudo o que for ruim de mim. Os caras estão muito folgados. E isso não tem nada a ver com o boxe, acho que qualquer mulher deve ter essa atitude e não merece ser tratada dessa forma.

O futebol é uma paixão nacional. Você, que já é tupiniquim de coração, adotou o esporte bretão?
Me considero brasileira, apesar do meu processo de naturalização não ter terminado ainda. Eu só não consegui adotar um clube. Não sei se sou são-paulina, corintiana, santista. Isso é definido quando as pessoas são crianças, muitas vezes por causa dos pais, de alguma tradição. Só consegui adotar a Seleção Brasileira. E torço muito, visto a camisa do Brasil, acordo de madrugada para assistir aos jogos, grito na Copa...

Qual o jogador brasileiro que você acha mais bonito?
(Risos) O Adriano. Aliás, eu passei a última Copa com a camisa dele da Seleção, a número sete. Mas ele me decepcionou, não jogou nada. Tive tanta vergonha que até enfiei a camisa dele no fundo do armário.

Foto: Cia Athletica Você acha que o treinamento de boxe pode ajudar na preparação física dos boleiros?
O boxe é um dos esportes que dá muito condicionamento físico, porque trabalha a parte aeróbia e anaeróbia do corpo. Mistura força, resistência, velocidade, agilidade e autoconfiança. E como o futebol é um esporte anaeróbio, com certeza, iria ajudar. Mas teria que haver uma adaptação do treino, porque no futebol os jogadores usam mais os membros inferiores e no boxe usamos mais os membros superiores.

Duda, você posaria nua?
Depende. Eu não posaria pelo exibicionismo, para me afirmar como linda, maravilhosa. Mas se fosse um momento bom e as fotos se tornassem um bom negócio pra mim e pras pessoas ao meu redor, eu toparia. Mas esse não é meu objetivo agora, nem meu sonho e muito menos meu próximo passo.

Essa pergunta é inevitável: qual a importância do sexo na sua vida?
É importante como na vida de todo mundo. Sexo é uma necessidade fisiológica de todas as pessoas. Para os homens é mais física mesmo, para as mulheres é mais emocional. Para mim, sexo sem amor não funciona. Eu tenho namorado, e a minha vida sexual é normal.

Qual a melhor palavra do seu dicionário?
São duas: cumplicidade e determinação.

Se você fosse publicar um anúncio em vários idiomas para o mundo inteiro ler, qual seria a sua mensagem de paz?
O ser humano devia ser mais ser humano e deixar um pouco de lado os outros interesses.