2007 - EDIÇÃO 73

‘SOU VICIADO EM FUTEBOL’
Por Jorge Nicola

Pouca gente consegue imaginar Serginho Groisman, o porta-voz dos jovens, batendo uma bola. Aliás, quase ninguém sabe que o cara é fissuradíssimo pelo esporte bretão. E mais: já encarou várias loucuras pelo Corinthians, sua grande paixão. Nessa conversa franca, de mais de meia hora, o apresentador do programa Altas Horas, da Rede Globo, faz uma tabelinha sensacional com o Fatto Olé. Ah, aqui o futebol é só o pontapé inicial para um debate superinteressante que vai muito além das quatro linhas. Seguinte: como Serginho mesmo diria, fala-garoto!

Você é um dos melhores perguntadores do Brasil. Então, pra começar, qual seria a primeira pergunta que faria a você mesmo?
Ah, boa pergunta. Acho que seria: será que você agüenta? Trata-se de uma brincadeira, porque adoro o que eu faço, e quero ter pique para continuar fazendo tudo isso.

Em mais de 20 anos trabalhando ao lado dos jovens, qual foi a grande mudança que percebeu na cabeça da galera?
Em muitas coisas o jovem avançou. Hoje ele tem uma consciência ecológica maior e é capaz até de lidar melhor com a política. Mas ainda falta muito. Uma das coisas que mais admiro é o fato de o jovem não aceitar a impunidade que existe no Brasil, um dos graves problemas da atualidade. Para finalizar, acho que faltam discussões sobre temas atuais, principalmente na escola. No País há pouca reflexão e muita comoção. Também espero que essa geração seja capaz de fazer um Brasil menos conservador.

É muito difícil ser adolescente num País como o nosso?
É difícil ser adolescente em qualquer país, pois é uma fase em que eles passam por transformações físicas, começam a ter responsabilidades profissionais e de afirmação. No Brasil há uma dificuldade a mais, que é a violência. Ao mesmo tempo em que quer viver mais com os amigos, curtir a noite, o jovem se preocupa com o que pode acontecer com ele. E seus pais passam a controlá-lo, impedindo essa liberdade tão desejada.

O que há em comum entre um jovem de 18 anos vendendo balas num sinal de trânsito e outro, com a mesma idade, que fecha com pressa o vidro do carrão importado?
Usei essa comparação durante bastante tempo na revista Trip. O grande lance dessa idéia é o seguinte: o garoto que está dentro do carro está dentro da escola, do mercado de trabalho, da sociedade... E o garoto do lado de fora está fora da escola, do mercado, da sociedade... A adolescência no Brasil é muito desigual.

Serginho em seu programa Altas Horas, com a cantora Marina Lima

Antigamente a curtição era o álcool. Hoje os caras também usam drogas e drogas pesadas... Por que os jovens entram nessa?
A primeira explicação que eu vejo é o barateamento das drogas pesadas, e das drogas sintéticas. A situação é complexa, porque quando o jovem oferece ecstasy para o amigo, não tem a intenção de causar qualquer mal. Não quer matá-lo. Faz achando que é bom. Acho que falta orientação ao dependente. Já pensei até em fazer uma campanha de esclarecimento. Como a droga é ilegal, o usuário acaba excluído da informação. Aí vem overdose, dependência... O cara entra nesse mundo sem saber a diferença entre o ecstasy, a cocaína e o craque.

No Brasil, a criança nasce e ganha nome, religião e time de futebol. Uma bola pode ajudar na inclusão social?
Pode, e muito. Ainda mais para o brasileiro, que é muito bom no esporte. Se aqui tivéssemos o sistema de ensino dos Estados Unidos, em que as faculdades estimulam os alunos a praticar alguma atividade, surgiriam craques todo santo dia. Mas infelizmente isso não acontece. O futebol e o pagode vão continuar sendo por um bom tempo as formas de ascensão social mais rápidas para os marginalizados.

Pouca gente sabe que você é apaixonado por futebol...
Realmente. Acho que é porque não fico falando durante meus programas que o Corinthians foi bem, ou perdeu. Mas sou viciado em futebol. Vejo todos os jogos do meu time, pela TV ou no estádio.

É difícil imaginar o Serginho Groisman jogando futebol. Qual sua intimidade com a bola?
Eu jogava futsal. No começo gostava de ficar na frente, queria ser goleador. Com o tempo, percebi que minhas maiores virtudes me tornariam um bom defensor, com tranqüilidade. Não tenho porte físico, por isso jogava mais na classe. Mas quando virei apresentador de TV, tive que parar, para não me machucar. Você pode reparar que me locomovo durante os programas, e não dá para estar machucado. No começo, ainda conciliava. Até que machuquei o joelho e tive que aparecer no Mix TV (da Gazeta) de cadeira de rodas. Queimou o filme e parei total. Mas tenho saudade das peladas.

Qual foi a maior loucura que você já fez pelo Corinthians?
Ah, tiveram algumas. Talvez a maior tenha sido participar da invasão corintiana ao Maracanã (na semifinal do Brasileirão de 1976, contra o Fluminense). Naquela época estava duro, sem qualquer dinheiro, e peguei carona num ônibus pela Dutra completamente parada. Fui de bolso vazio, mas com meu bandeirão. Levei a minha. Quando cheguei no Maracanã, achei que só teria torcedor do Fluminense. Aí, entrei no estádio e vi um mar de corintianos e comecei a chorar na hora. Foi minha maior emoção como torcedor, ao lado da conquista do Paulistão em 1977, contra a Ponte Preta. Foi o fim do jejum de 23 anos. Eu estive nas três partidas finais.

O Mario Prata, por exemplo, assiste a futebol ouvindo jazz... E você, tem alguma mania ou superstição?
Quando estou sozinho, desligo todos os telefones, fecho a casa inteira, e torço de pé. Já quando estou acompanhado, esqueço minhas manias, se não pega mal, né? Só numa grande decisão que faço questão de estar sozinho. Aí quando o time perde, me desligo totalmente do mundo. Não abro Internet, não vejo TV e tiro o telefone da tomada. Também quando ganha, vejo todas as mesas-redondas, leio tudo o que sai no jornal, escuto rádio...

Essa pergunta é inevitável: o maior problema do futebol brasileiro é a velhice no poder?
Não é a idade, mas a modernidade. No caso, a falta dela. O Fernando Collor foi o presidente mais jovem do Brasil e ferrou a gente. É uma questão de formação. Tem cartolas superados em todos os times, não apenas no meu. Há uma geração ultrapassada, que não tem absolutamente mais nada a acrescentar. A administração de um clube precisa ser diversificada, descentralizada.

Qual foi o gol de placa da sua vida?
Como jogador, foi num jogo numa quadra na avenida Tiradentes, de uns militares. A gente alugava aquele espaço. Lembro que o goleiro me deu a bola, e eu consegui dar dois chapéus antes de fazer o gol. Foi tão raro que só lembro dele. Já fora do campo é difícil lembrar de um só. Sou muito feliz no trabalho e me considero dono de vários gols bonitos.

E qual foi, afinal, o grande lance que você teve a chance de realizar na vida mas não fez, por algum motivo?
Aconteceu o contrário. Recusei uma vez uma coisa que queria muito, que era apresentar e dirigir um programa de TV. Só que os caras queriam que eu o fizesse na parte da manhã, bem cedo, e não aceitei. Passei uns seis meses me arrependendo todo santo dia de ter recusado. Mas aí, tempos depois, me ofereceram o mesmo programa à noite. Aceitei e fiquei um bom tempo à frente do TV Mix.

Quem são os seus amigos no futebol?
Fiz uma certa amizade com o Vladimir, do Corinthians. Nós tínhamos um amigo em comum, na época áurea da Democracia Corintiana (na década de 80). Hoje também sou amigo do Casagrande, de quem fui um fã absurdo. Ia para ver ele e o Sócrates jogarem. Para mim, falta isso no Corinthians de hoje: um craque que leve multidões aos estádios, independentemente do jogo. Cada vez que encontro o Casão, fico horas com ele, porque ele adora falar aquilo que eu gosto de ouvir, que é futebol.

Quem é o Groisman do futebol brasileiro?
Difícil responder essa, viu. Não vejo no futebol atual alguém fazendo alguma coisa legal, bacana. Me identificava muito com aquele time da Democracia. Imagine a alegria que era para mim ver meu time fazendo e agindo exatamente da forma como eu pensava.

Qual é a melhor palavra do seu vocabulário?
Tranqüilidade. Tento ter e transmitir. É difícil tirar minha paciência, e nem o Corinthians consegue. O que ele tem feito ultimamente é me tirar o humor. Com muita freqüência, por sinal.

O que te faz chorar?
Nada. Tenho um defeito grave, que é não chorar. Se for chorar, vou chorar por questões importantes. Não por futebol. Amo muito futebol, mas sei que o futebol é um esporte. Fico comovido com violência. Isso me comove demais.

Na boa, você teme ser visto pelos jovens como um velho?
Não. Até porque não sou jovem e nunca espero que me vejam como tal.