| Pouca
gente consegue imaginar Serginho Groisman, o porta-voz
dos jovens, batendo uma bola. Aliás, quase ninguém
sabe que o cara é fissuradíssimo pelo
esporte bretão. E mais: já encarou várias
loucuras pelo Corinthians, sua grande paixão.
Nessa conversa franca, de mais de meia hora, o apresentador
do programa Altas Horas, da Rede Globo, faz uma tabelinha
sensacional com o Fatto Olé.
Ah, aqui o futebol é só o pontapé
inicial para um debate superinteressante que vai muito
além das quatro linhas. Seguinte: como Serginho
mesmo diria, fala-garoto!

Você é um dos melhores perguntadores do
Brasil. Então, pra começar, qual seria
a primeira pergunta que faria a você mesmo?
Ah, boa pergunta. Acho que seria: será que você
agüenta? Trata-se de uma brincadeira, porque adoro
o que eu faço, e quero ter pique para continuar
fazendo tudo isso.
Em mais de 20 anos trabalhando ao lado dos jovens, qual
foi a grande mudança que percebeu na cabeça
da galera?
Em muitas coisas o jovem avançou. Hoje ele tem
uma consciência ecológica maior e é
capaz até de lidar melhor com a política.
Mas ainda falta muito. Uma das coisas que mais admiro
é o fato de o jovem não aceitar a impunidade
que existe no Brasil, um dos graves problemas da atualidade.
Para finalizar, acho que faltam discussões sobre
temas atuais, principalmente na escola. No País
há pouca reflexão e muita comoção.
Também espero que essa geração
seja capaz de fazer um Brasil menos conservador.
É muito difícil ser adolescente
num País como o nosso?
É difícil ser adolescente em qualquer
país, pois é uma fase em que eles passam
por transformações físicas, começam
a ter responsabilidades profissionais e de afirmação.
No Brasil há uma dificuldade a mais, que é
a violência. Ao mesmo tempo em que quer viver
mais com os amigos, curtir a noite, o jovem se preocupa
com o que pode acontecer com ele. E seus pais passam
a controlá-lo, impedindo essa liberdade tão
desejada.
O que há em comum entre um jovem de 18
anos vendendo balas num sinal de trânsito e outro,
com a mesma idade, que fecha com pressa o vidro do carrão
importado?
Usei essa comparação durante bastante
tempo na revista Trip. O grande lance dessa idéia
é o seguinte: o garoto que está dentro
do carro está dentro da escola, do mercado de
trabalho, da sociedade... E o garoto do lado de fora
está fora da escola, do mercado, da sociedade...
A adolescência no Brasil é muito desigual.
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| Serginho
em seu programa Altas Horas, com a cantora Marina
Lima |
Antigamente a curtição era o álcool.
Hoje os caras também usam drogas e drogas pesadas...
Por que os jovens entram nessa?
A primeira explicação que eu vejo é
o barateamento das drogas pesadas, e das drogas sintéticas.
A situação é complexa, porque quando
o jovem oferece ecstasy para o amigo, não tem
a intenção de causar qualquer mal. Não
quer matá-lo. Faz achando que é bom. Acho
que falta orientação ao dependente. Já
pensei até em fazer uma campanha de esclarecimento.
Como a droga é ilegal, o usuário acaba
excluído da informação. Aí
vem overdose, dependência... O cara entra nesse
mundo sem saber a diferença entre o ecstasy,
a cocaína e o craque.
No Brasil, a criança nasce e ganha nome,
religião e time de futebol. Uma bola pode ajudar
na inclusão social?
Pode, e muito. Ainda mais para o brasileiro, que é
muito bom no esporte. Se aqui tivéssemos o sistema
de ensino dos Estados Unidos, em que as faculdades estimulam
os alunos a praticar alguma atividade, surgiriam craques
todo santo dia. Mas infelizmente isso não acontece.
O futebol e o pagode vão continuar sendo por
um bom tempo as formas de ascensão social mais
rápidas para os marginalizados.
Pouca gente sabe que você é apaixonado
por futebol...
Realmente. Acho que é porque não fico
falando durante meus programas que o Corinthians foi
bem, ou perdeu. Mas sou viciado em futebol. Vejo todos
os jogos do meu time, pela TV ou no estádio.
É difícil imaginar o Serginho
Groisman jogando futebol. Qual sua intimidade com a
bola?
Eu jogava futsal. No começo gostava de ficar
na frente, queria ser goleador. Com o tempo, percebi
que minhas maiores virtudes me tornariam um bom defensor,
com tranqüilidade. Não tenho porte físico,
por isso jogava mais na classe. Mas quando virei apresentador
de TV, tive que parar, para não me machucar.
Você pode reparar que me locomovo durante os programas,
e não dá para estar machucado. No começo,
ainda conciliava. Até que machuquei o joelho
e tive que aparecer no Mix TV (da Gazeta) de cadeira
de rodas. Queimou o filme e parei total. Mas tenho saudade
das peladas.

Qual foi a maior loucura que você já
fez pelo Corinthians?
Ah, tiveram algumas. Talvez a maior tenha sido participar
da invasão corintiana ao Maracanã (na
semifinal do Brasileirão de 1976, contra o Fluminense).
Naquela época estava duro, sem qualquer dinheiro,
e peguei carona num ônibus pela Dutra completamente
parada. Fui de bolso vazio, mas com meu bandeirão.
Levei a minha. Quando cheguei no Maracanã, achei
que só teria torcedor do Fluminense. Aí,
entrei no estádio e vi um mar de corintianos
e comecei a chorar na hora. Foi minha maior emoção
como torcedor, ao lado da conquista do Paulistão
em 1977, contra a Ponte Preta. Foi o fim do jejum de
23 anos. Eu estive nas três partidas finais.
O Mario Prata, por exemplo, assiste a futebol ouvindo
jazz... E você, tem alguma mania ou superstição?
Quando estou sozinho, desligo todos os telefones, fecho
a casa inteira, e torço de pé. Já
quando estou acompanhado, esqueço minhas manias,
se não pega mal, né? Só numa grande
decisão que faço questão de estar
sozinho. Aí quando o time perde, me desligo totalmente
do mundo. Não abro Internet, não vejo
TV e tiro o telefone da tomada. Também quando
ganha, vejo todas as mesas-redondas, leio tudo o que
sai no jornal, escuto rádio...
Essa pergunta é inevitável: o
maior problema do futebol brasileiro é a velhice
no poder?
Não é a idade, mas a modernidade. No caso,
a falta dela. O Fernando Collor foi o presidente mais
jovem do Brasil e ferrou a gente. É uma questão
de formação. Tem cartolas superados em
todos os times, não apenas no meu. Há
uma geração ultrapassada, que não
tem absolutamente mais nada a acrescentar. A administração
de um clube precisa ser diversificada, descentralizada.

Qual foi o gol de placa da sua vida?
Como jogador, foi num jogo numa quadra na avenida Tiradentes,
de uns militares. A gente alugava aquele espaço.
Lembro que o goleiro me deu a bola, e eu consegui dar
dois chapéus antes de fazer o gol. Foi tão
raro que só lembro dele. Já fora do campo
é difícil lembrar de um só. Sou
muito feliz no trabalho e me considero dono de vários
gols bonitos.
E qual foi, afinal, o grande lance que você
teve a chance de realizar na vida mas não fez,
por algum motivo?
Aconteceu o contrário. Recusei uma vez uma coisa
que queria muito, que era apresentar e dirigir um programa
de TV. Só que os caras queriam que eu o fizesse
na parte da manhã, bem cedo, e não aceitei.
Passei uns seis meses me arrependendo todo santo dia
de ter recusado. Mas aí, tempos depois, me ofereceram
o mesmo programa à noite. Aceitei e fiquei um
bom tempo à frente do TV Mix.
Quem são os seus amigos no futebol?
Fiz uma certa amizade com o Vladimir, do Corinthians.
Nós tínhamos um amigo em comum, na época
áurea da Democracia Corintiana (na década
de 80). Hoje também sou amigo do Casagrande,
de quem fui um fã absurdo. Ia para ver ele e
o Sócrates jogarem. Para mim, falta isso no Corinthians
de hoje: um craque que leve multidões aos estádios,
independentemente do jogo. Cada vez que encontro o Casão,
fico horas com ele, porque ele adora falar aquilo que
eu gosto de ouvir, que é futebol.
Quem é o Groisman do futebol brasileiro?
Difícil responder essa, viu. Não vejo
no futebol atual alguém fazendo alguma coisa
legal, bacana. Me identificava muito com aquele time
da Democracia. Imagine a alegria que era para mim ver
meu time fazendo e agindo exatamente da forma como eu
pensava.
Qual é a melhor palavra do seu vocabulário?
Tranqüilidade. Tento ter e transmitir. É
difícil tirar minha paciência, e nem o
Corinthians consegue. O que ele tem feito ultimamente
é me tirar o humor. Com muita freqüência,
por sinal.
O que te faz chorar?
Nada. Tenho um defeito grave, que é não
chorar. Se for chorar, vou chorar por questões
importantes. Não por futebol. Amo muito futebol,
mas sei que o futebol é um esporte. Fico comovido
com violência. Isso me comove demais.
Na boa, você teme ser visto pelos jovens
como um velho?
Não. Até porque não sou jovem e
nunca espero que me vejam como tal.
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