2006 - EDIÇÃO 72

UM PUNK FOLCLÓRICO
Por Nathalia Pazini, especial para o Fatto Olé
Foto: Patricia Cecatti
O quarentão punk se revelou um bom entendedor de bola

Minha próxima missão não é mole não: descobrir quanto vale o guarda-roupa de um punk malucão que tem uma Land Rover e uma Harley Davidson na garagem. Mais do que isso. Desvendar a essência de Eduardo Smith de Vasconcelos Suplicy atrás da fantasia bizarra de Supla. Louco, né? É, minha gente, vida de repórter é mais ou menos como um reality show após o outro. Depois da marcação cerrada, apurei que o rebelde de 40 anos, santista roxo, é um boleiro frustrado. “Se eu tivesse seguido a carreira de jogador de futebol, teria causado um estrago”.

Como roqueiro, o ‘Papito’ é mesmo habilidoso com a bola nos pés. Só para você ter idéia, ele é considerado um dos grandes craques da história do Rockgol – campeonato entre músicos organizado pela MTV. Muito antes de ganhar sua primeira bateria aos 11 anos, a gorduchinha era sua companheira inseparável. O loiro tingido, que tem até alguns pinos na perna por causa de uma contusão sofrida em 1998, costumava freqüentar uma favela para participar das peladas. “Até o dia que me botaram uma arma na cabeça”, lembra Supla, dizendo que a ameaça foi por conta do governo de sua mãe, Marta Suplicy, que na época era prefeita de Sampa. “O cara misturou as coisas e nunca mais voltei naquela área”.

Foto: Nathalia Pazini
O músico lançou a moda do cabelo pintado de branco

Mesmo seguindo o caminho da música, o esporte bretão ainda toma boa parte do seu tempo. Uma das faixas de seu novo CD (‘Vicious’) terá como clipe a trajetória de um garoto pobre que decidiu seguir a carreira de jogador de futebol. “Na música Pensamentos quero demonstrar que dias melhores virão, independentemente das outras pessoas”. Com essa pinta toda de entendedor, o ‘garotão-multimídia’ acredita que o futebol é mesmo a maior fonte de liberdade de expressão das massas. “O momento em que todo mundo pode extravasar e xingar até a mãe do juiz”. Supla ainda discorda dos intelectuais que afirmam que o esporte bretão é uma das ferramentas de alienação do povo. “Um cara que fala isso tem que deixar os livros de lado e sentir a verdadeira vibração da galera num estádio”.

Se tivesse sido boleiro, Supla seria uma espécie de Beckham brasileiro. Imagine outra pessoa ostentando um terno rosa ou quadriculado, feito sob medida pelo estilista Ricardo Almeida. Só o ‘Juninho Papito’ mesmo. Pô, é inevitável: o cara é uma baita referência fashion. É bem provável que Paulo Nunes, Dinei, entre outros jogadores que descoloriram o cabelo, se espelharam no look do ‘Charada Brasileiro’. “Tenho orgulho do meu estilo”, diz Supla, um punk metrossexual. “Quando pintei o cabelo ninguém tinha feito isso por aqui”. Ele garante que não veste máscara de nenhum personagem, interpreta apenas ele mesmo, usa modelitos excêntricos até dentro de casa e esconde no fundo do baú o valor que investe em tratamentos de beleza e roupas de grife. “A maioria delas compro em lojas fora do País”, revela. Com certeza, Supla investe uma fortuna para se repaginar dia-após-dia.

Foto: Nathalia Pazini
As caras e bocas de Supla são sua marca registrada

Sei que não estou aqui para responder perguntas, e sim para perguntar respostas. Por isso, Supla, preciso saber como um cara rotulado de tantas coisas que contradizem a ideologia punk, como rebelde sem causa, playboy, irreverente, brega, pop e muitas vezes excelente marketeiro, pode manter hits de sucesso nas rádios por mais de 20 anos? Afinal de contas não existe um só brasileiro que não tenha na ponta da língua as canções Japa Girl, Garota de Berlim e Humanos. “Tenho noção do meu carisma, sou um metido humilde”, explica. Um punk de 40 anos com vários parafusos a mais e muitos pregos a menos que transita bem por todas as tribos. Antes de ser carismático, antenadíssimo, inteligente, Supla é um verdadeiro político – afinal filho de peixes, peixinho nato.

Bom, por trás daquele figurino extravagante (até mesmo brega), de onde pode-se enxergar estilo na superprodução de roupas de tecido e couro e nas dezenas de acessórios na linha sadomasoquista, encontrei um sujeito sentimental. Acredito que a maior contribuição de Supla para a cultura brasileira está muito além da música e até mesmo da moda. O maior segredo desse punk da elite é saber respeitar as diferenças. Num mundo que peca pelo tédio da mesmice, ele se sobressai. Sua mensagem é fazer com que as pessoas acreditem mais em si mesmas. E isso não é pouco. Você, prezado leitor, tem todo direito de gostar ou não gostar, mas uma coisa é certa: não existem dois iguais. Nem sequer parecidos. Com Supla é assim mesmo, ame-o ou deixe-o.