2006 - EDIÇÃO 70

O CRAQUE DAS IDÉIAS
Por Nathalia Pazini, especial para o Fatto Olé

Enxergar o futebol com a visão além do alcance de um ídolo das palavras é uma oportunidade para poucos. Polivalente. Sarcástico. Cômico. Mago. Craque. Brasileiro. Mario Prata, o eterno camisa 10 da seleção do Fatto Olé! Afinal, só ele é capaz de assistir a uma partida de futebol ouvindo jazz do bom. “De preferência Oscar Peterson, que tem um pianinho legal”, diz. Ah, o único defeito de Ronaldo é não saber o que é um peito sem silicone. E para esse especial torcedor do Linense, “Kaká não é articulado porra nenhuma”. Quer mais? Então, aproveite e divirta-se com essa baita entrevista.

Foto: Acervo pessoal
Literatura e futebol jogam no time de Mario Prata

O futebol e o carnaval são retratos fiéis dos brasileiros?
Eu acho que o futebol sim, pois ele continua sendo jogado na rua, no quintal e nas escolinhas. Agora o carnaval mudou muito, tem muito brilho e não retrata mais a realidade do lugar de onde ele saiu, o morro. Antigamente sim, porque era um carnaval de rua, nos clubes, sem essa riqueza toda de hoje.

Existe vida inteligente no planeta bola?
Existe sim. Os mais inteligentes são os cartolas, e a prova é que são sempre os mesmos que comandam os clubes. E é claro que existem jogadores inteligentes, o Ronaldo é um que admiro muito, dentro e fora do campo, apesar de ele não saber o que é um peito sem silicone. Mas ele vai cair na real quando pegar um peito natural. Agora tem uma coisa que é engraçada hoje em dia: quando um jogador não erra o português vem um cara e diz que ele é articulado. O Kaká, por exemplo, não é articulado porra nenhuma. Eu considero uma falta de inteligência um jogador de futebol defender uma igreja, como ele fez com a Renascer.

Mas tem muito jogador que mistura o futebol com a religião...
Isso me irrita. O cara que dedica o gol que acabou da fazer a Jesus é um desarticulado, porque isso não é religião, é talento.

É sério que você assiste aos jogos de futebol ouvindo jazz?
É. Dependendo do locutor que está narrando o jogo, eu tiro o som da TV e ponho um jazz, um Oscar Peterson, que tem um pianinho legal. Não dá para ficar ouvindo estes locutores que botam um juiz do lado para dar opinião, até porque se eles soubessem de futebol não precisariam da ajuda de outra pessoa. Além do mais, eu quero resolver se foi pênalti ou não, se foi impedimento ou não. Estes caras tiram do torcedor a opção de terem suas próprias conclusões. E também é um horror eu ter que escutar o cara falar que é gol se eu estou vendo que foi gol. A única coisa ruim de abaixar o volume é que acabo perdendo o som da torcida. Mas vai chegar o momento em que a gente vai poder tirar o som só do microfone do locutor com o controle remoto e deixar só o barulho da torcida, do técnico gritando, que é bem engraçado.

Para que time você torce?
Sou Linense, que já disputou a primeira divisão paulista e que tinha muito jogador bom, como o Américo Murolo. Agora estamos na terceira, mas pelas minhas contas vamos jogar o Mundial em 2011. Eu até já tenho uma camiseta em que está escrito “Rumo a Tóquio”. Aí sim eu vou querer escutar o Galvão gritando “O Linense é do Brasil”.

Foto: Acervo pessoal
Hoje o escritor mora em Floripa e sua casa tem vista para o mar

Quem é o Mario Prata do futebol brasileiro?
(Risos) Eu não sei nem quem sou eu na literatura. Mas dos caras que jogam aqui tem o Roger, meia do Corinthians; o Jadílson, lateral do São Paulo; o Paulo Baier, mesmo eu achando que ele é melhor no meio-de-campo do que na lateral. Tem o Hélton também, goleiro da Seleção, e o Rogério Ceni, que é o melhor goleiro do Brasil disparado.

O que significa o termo craque para você?
O futebol é muito parecido com o balé quando é bem jogado. Os movimentos de um craque são iguais aos de um bailarino: o jeito que ele levanta o braço ou dá um passo. O Ronaldinho Gaúcho é um craque.

Você diz que o maior problema do Luxa é o guarda-roupa, o terno, a gravata, toda essa elitização. Então, o que acha do estilo fashion do Dunga?
Acho que ele está prejudicando a filha dele ao dizer que é ela quem escolhe suas roupas. Devia citar o nome dela só quando fosse elogiado. Mesmo assim, acho que ela precisa estudar mais. O Dunga estava indo bem, com roupas tranqüilas, sem o exagero do Luxemburgo, mas pisou na bola. Ela, a filha, está começando, e espero que venha a ser uma craque da roupa.

O Brasil não lê. A culpa é de quem?
Temos dois problemas. O primeiro é que os garotos não vêem os pais lendo em casa, então falta influência. Depois tem o vestibular. Quando o garoto está na época de começar a se interessar pela leitura, é obrigado a ler alguns livros para o vestibular que, apesar de bons, não refletem a sua realidade. Camões, por exemplo, é excepcional, mas eu não consegui ler inteiro até hoje. Nós não temos livros infanto-juvenis hoje em dia. Uma garota de 13 anos está lendo Bruna Surfistinha.

Foto: Acervo pessoal
Para Prata, o Linense é presença garantida no Mundial de 2011

Qual seria, idealmente, o papel da mídia?
A mídia está ruim. No meu tempo cada jornal tinha três ou quatro grandes repórteres. Estes caras hoje em dia viraram escritores, fazem reportagem em forma de livro. O Fernando Moraes é um exemplo. Hoje não tem mais isso. Nesse caso recente do cara que ganhou na mega-sena e foi assassinado... Nenhum repórter foi acompanhar o caso de perto, conversar com o segurança, com a cozinheira. Ficaram esperando a apuração do delegado e depois divulgaram. Os grandes furos só acontecem quando alguém denuncia, entrega todas as provas para a revista ou o jornal. A Veja até já publicou uma denúncia anônima de que o Lula tinha uma conta no exterior, sem apurar nem nada.

O que é uma boa notícia para você?
Eu ler uma notícia e sentir que aquilo não é um press release, mas que teve alguém que foi atrás das informações para escrever aquilo. O Caco Barcelos é um dos únicos bons repórteres da Globo, que não fica em baias na redação. Eu, por exemplo, entrevistei todos os grandes nomes da MPB e às vezes ficava junto deles por dias, porque eu não queria ficar fazendo pergunta boba, queria saber como ele tratava o porteiro do hotel, o que ele comia no café da manhã. Fazia um perfil de verdade.

Por que a literatura não trata mais do futebol, já que o brasileiro gosta tanto do esporte?
É muito difícil um escritor inventar um personagem de ficção no futebol, porque todo mundo sabe que ele não existiu, não jogou na Seleção. Fica inverossímil, já que o brasileiro conhece muito do esporte. A saída é escrever um livro sobre os atletas. O Pelé tem muitas biografias; o Barbosa teve a vida descrita por Roberto Muylart. Eu fiz um livro que deu certo (Palmeiras, um caso de amor) e que inspirou até um filme do Bruno Barreto (O casamento de Romeu e Julieta), mas era sobre os torcedores... Aí dá pra inventar um monte de coisa, porque torcedor ninguém conhece.

Qual livro seu você indicaria para o Ronaldo? E para o Gaúcho?
O Ronaldo tem cara de quem não lê. Já para o Ronaldinho indicaria os livros de Luis Fernando Veríssimo, porque o texto dele é muito alegre e eles iam se dar muito bem.

Se você fosse escrever uma enciclopédia sobre o planeta, o que é que você diria num verbete sobre Primeiro Mundo?
É lindo... Mas triste. As pessoas são tão infelizes que até se suicidam. É um lugar onde você nasce sem problema: tem médico, estudo garantido... Mas a juventude bebe demais. Os EUA, por exemplo, são formadores de guerra, não só essa aí que a gente está vendo, mas também guerra contra o colesterol, contra o cigarro, na qual só o Brasil é seu aliado. Prefiro o Terceiro Mundo. Aqui no Brasil os caras estão se ferrando, não temos todas aquelas quinquilharias importantes, mas ninguém se mata.

Foto: Acervo pessoal
"O brasileiro é cordial, ele quer gritar gol"

Seu trabalho o fez circular por várias realidades brasileiras. Isso mudou seu olhar?
Descobri que tem lugares no Brasil, como São Paulo e Rio de Janeiro, que não deram certo. E isso não tem solução. Só tende a piorar. Por isso que eu caí fora... Não escolhi Florianópolis para morar, escolhi sair de São Paulo. Agora mesmo estou vendo dois canários da minha janela e ouvindo o barulho do mar.

Você é o craque das idéias. Já se viu diante de uma idéia de outra pessoa que gostaria de ter tido primeiro?
Sim, muitas vezes. Mas o contrário aconteceu quando eu escrevi o livro Minhas mulheres e meus homens. A idéia de escrevê-lo surgiu quando eu peguei a minha agenda telefônica e percebi que cada nome ali tinha uma história; desde minha família, meus amigos, até o encanador, o contador. Depois que o lancei, o Ziraldo me liga ‘P’ da vida, brincando é claro, mas disse: ‘seu filho da mãe, como é que você teve essa idéia antes de mim? A minha agenda e minhas histórias são mais interessantes do que as suas’.

De qual dos políticos brasileiros você compraria um carro usado?
Do Lula, ele me passa total confiança.

Que pergunta ainda ninguém fez ao nosso presidente?
Quando foi diplomado pela primera vez como presidente da república, o Lula passou por um momento muito bonito, por ser um operário que nunca tinha recebido diploma e estava recebendo o de presidente. Ninguém perguntou, e eu perguntaria, o que passou em sua cabeça naquele segundo.

Você ainda é um brasileiro esperançoso?
Tenho 61 anos de Brasil e posso dizer que o País melhorou muito. Ele não tem que ser o Primeiro Mundo, tem que ser um lugar nosso. Mesmo com corrupção, violência, tráfico de drogas, do governo FHC pra cá as coisas estão melhorando. Só que não dá pra resolver isso em curto prazo. Por exemplo, a geração dos meus filhos já abomina a corrupção, são mais honestos, se preocupam com assuntos que a minha geração não se preocupou. Enquanto eles se preocupam com a camada de ozônio nós nos preocupávamos com os militares. Eu tenho esperança sim, o brasileiro é cordial, ele quer gritar gol.