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Enxergar
o futebol com a visão além do alcance
de um ídolo das palavras é uma oportunidade
para poucos. Polivalente. Sarcástico. Cômico.
Mago. Craque. Brasileiro. Mario Prata, o eterno camisa
10 da seleção do Fatto Olé!
Afinal, só ele é capaz de assistir a uma
partida de futebol ouvindo jazz do bom. “De preferência
Oscar Peterson, que tem um pianinho legal”, diz.
Ah, o único defeito de Ronaldo é não
saber o que é um peito sem silicone. E para esse
especial torcedor do Linense, “Kaká não
é articulado porra nenhuma”. Quer mais?
Então, aproveite e divirta-se com essa baita
entrevista.
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Literatura
e futebol jogam no time de Mario Prata
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O futebol e o carnaval são retratos fiéis
dos brasileiros?
Eu acho que o futebol sim, pois ele continua sendo jogado
na rua, no quintal e nas escolinhas. Agora o carnaval
mudou muito, tem muito brilho e não retrata mais
a realidade do lugar de onde ele saiu, o morro. Antigamente
sim, porque era um carnaval de rua, nos clubes, sem
essa riqueza toda de hoje.
Existe vida inteligente no planeta bola?
Existe sim. Os mais inteligentes são os cartolas,
e a prova é que são sempre os mesmos que
comandam os clubes. E é claro que existem jogadores
inteligentes, o Ronaldo é um que admiro muito,
dentro e fora do campo, apesar de ele não saber
o que é um peito sem silicone. Mas ele vai cair
na real quando pegar um peito natural. Agora tem uma
coisa que é engraçada hoje em dia: quando
um jogador não erra o português vem um
cara e diz que ele é articulado. O Kaká,
por exemplo, não é articulado porra nenhuma.
Eu considero uma falta de inteligência um jogador
de futebol defender uma igreja, como ele fez com a Renascer.
Mas tem muito jogador que mistura o futebol
com a religião...
Isso me irrita. O cara que dedica o gol que acabou da
fazer a Jesus é um desarticulado, porque isso
não é religião, é talento.
É sério que você assiste
aos jogos de futebol ouvindo jazz?
É. Dependendo do locutor que está narrando
o jogo, eu tiro o som da TV e ponho um jazz, um Oscar
Peterson, que tem um pianinho legal. Não dá
para ficar ouvindo estes locutores que botam um juiz
do lado para dar opinião, até porque se
eles soubessem de futebol não precisariam da
ajuda de outra pessoa. Além do mais, eu quero
resolver se foi pênalti ou não, se foi
impedimento ou não. Estes caras tiram do torcedor
a opção de terem suas próprias
conclusões. E também é um horror
eu ter que escutar o cara falar que é gol se
eu estou vendo que foi gol. A única coisa ruim
de abaixar o volume é que acabo perdendo o som
da torcida. Mas vai chegar o momento em que a gente
vai poder tirar o som só do microfone do locutor
com o controle remoto e deixar só o barulho da
torcida, do técnico gritando, que é bem
engraçado.
Para que time você torce?
Sou Linense, que já disputou a primeira divisão
paulista e que tinha muito jogador bom, como o Américo
Murolo. Agora estamos na terceira, mas pelas minhas
contas vamos jogar o Mundial em 2011. Eu até
já tenho uma camiseta em que está escrito
“Rumo a Tóquio”. Aí sim eu
vou querer escutar o Galvão gritando “O
Linense é do Brasil”.
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Hoje
o escritor mora em Floripa e sua casa tem vista
para o mar
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Quem é o Mario Prata do futebol brasileiro?
(Risos) Eu não sei nem quem sou eu na literatura.
Mas dos caras que jogam aqui tem o Roger, meia do Corinthians;
o Jadílson, lateral do São Paulo; o Paulo
Baier, mesmo eu achando que ele é melhor no meio-de-campo
do que na lateral. Tem o Hélton também,
goleiro da Seleção, e o Rogério
Ceni, que é o melhor goleiro do Brasil disparado.
O que significa o termo craque para você?
O futebol é muito parecido com o balé
quando é bem jogado. Os movimentos de um craque
são iguais aos de um bailarino: o jeito que ele
levanta o braço ou dá um passo. O Ronaldinho
Gaúcho é um craque.
Você diz que o maior problema do Luxa é
o guarda-roupa, o terno, a gravata, toda essa elitização.
Então, o que acha do estilo fashion do
Dunga?
Acho que ele está prejudicando a filha dele ao
dizer que é ela quem escolhe suas roupas. Devia
citar o nome dela só quando fosse elogiado. Mesmo
assim, acho que ela precisa estudar mais. O Dunga estava
indo bem, com roupas tranqüilas, sem o exagero
do Luxemburgo, mas pisou na bola. Ela, a filha, está
começando, e espero que venha a ser uma craque
da roupa.
O Brasil não lê. A culpa é
de quem?
Temos dois problemas. O primeiro é que os garotos
não vêem os pais lendo em casa, então
falta influência. Depois tem o vestibular. Quando
o garoto está na época de começar
a se interessar pela leitura, é obrigado a ler
alguns livros para o vestibular que, apesar de bons,
não refletem a sua realidade. Camões,
por exemplo, é excepcional, mas eu não
consegui ler inteiro até hoje. Nós não
temos livros infanto-juvenis hoje em dia. Uma garota
de 13 anos está lendo Bruna Surfistinha.
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Para
Prata, o Linense é presença garantida
no Mundial de 2011
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Qual seria, idealmente, o papel da mídia?
A mídia está ruim. No meu tempo cada jornal
tinha três ou quatro grandes repórteres.
Estes caras hoje em dia viraram escritores, fazem reportagem
em forma de livro. O Fernando Moraes é um exemplo.
Hoje não tem mais isso. Nesse caso recente do
cara que ganhou na mega-sena e foi assassinado... Nenhum
repórter foi acompanhar o caso de perto, conversar
com o segurança, com a cozinheira. Ficaram esperando
a apuração do delegado e depois divulgaram.
Os grandes furos só acontecem quando alguém
denuncia, entrega todas as provas para a revista ou
o jornal. A Veja até já publicou uma denúncia
anônima de que o Lula tinha uma conta no exterior,
sem apurar nem nada.
O que é uma boa notícia para você?
Eu ler uma notícia e sentir que aquilo não
é um press release, mas que teve alguém
que foi atrás das informações para
escrever aquilo. O Caco Barcelos é um dos únicos
bons repórteres da Globo, que não fica
em baias na redação. Eu, por exemplo,
entrevistei todos os grandes nomes da MPB e às
vezes ficava junto deles por dias, porque eu não
queria ficar fazendo pergunta boba, queria saber como
ele tratava o porteiro do hotel, o que ele comia no
café da manhã. Fazia um perfil de verdade.
Por que a literatura não trata mais do
futebol, já que o brasileiro gosta tanto do esporte?
É muito difícil um escritor inventar um
personagem de ficção no futebol, porque
todo mundo sabe que ele não existiu, não
jogou na Seleção. Fica inverossímil,
já que o brasileiro conhece muito do esporte.
A saída é escrever um livro sobre os atletas.
O Pelé tem muitas biografias; o Barbosa teve
a vida descrita por Roberto Muylart. Eu fiz um livro
que deu certo (Palmeiras, um caso de amor) e
que inspirou até um filme do Bruno Barreto (O
casamento de Romeu e Julieta), mas era sobre os
torcedores... Aí dá pra inventar um monte
de coisa, porque torcedor ninguém conhece.
Qual livro seu você indicaria para o Ronaldo?
E para o Gaúcho?
O Ronaldo tem cara de quem não lê. Já
para o Ronaldinho indicaria os livros de Luis Fernando
Veríssimo, porque o texto dele é muito
alegre e eles iam se dar muito bem.
Se você fosse escrever uma enciclopédia
sobre o planeta, o que é que você diria
num verbete sobre Primeiro Mundo?
É lindo... Mas triste. As pessoas são
tão infelizes que até se suicidam. É
um lugar onde você nasce sem problema: tem médico,
estudo garantido... Mas a juventude bebe demais. Os
EUA, por exemplo, são formadores de guerra, não
só essa aí que a gente está vendo,
mas também guerra contra o colesterol, contra
o cigarro, na qual só o Brasil é seu aliado.
Prefiro o Terceiro Mundo. Aqui no Brasil os caras estão
se ferrando, não temos todas aquelas quinquilharias
importantes, mas ninguém se mata.
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"O
brasileiro é cordial, ele quer gritar gol"
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Seu trabalho o fez circular
por várias realidades brasileiras. Isso mudou
seu olhar?
Descobri que tem lugares no Brasil, como São
Paulo e Rio de Janeiro, que não deram certo.
E isso não tem solução. Só
tende a piorar. Por isso que eu caí fora... Não
escolhi Florianópolis para morar, escolhi sair
de São Paulo. Agora mesmo estou vendo dois canários
da minha janela e ouvindo o barulho do mar.
Você é o craque das idéias.
Já se viu diante de uma idéia de outra
pessoa que gostaria de ter tido primeiro?
Sim, muitas vezes. Mas o contrário aconteceu
quando eu escrevi o livro Minhas mulheres e meus
homens. A idéia de escrevê-lo surgiu
quando eu peguei a minha agenda telefônica e percebi
que cada nome ali tinha uma história; desde minha
família, meus amigos, até o encanador,
o contador. Depois que o lancei, o Ziraldo me liga ‘P’
da vida, brincando é claro, mas disse: ‘seu
filho da mãe, como é que você teve
essa idéia antes de mim? A minha agenda e minhas
histórias são mais interessantes do que
as suas’.
De qual dos políticos brasileiros você
compraria um carro usado?
Do Lula, ele me passa total confiança.
Que pergunta ainda ninguém fez ao nosso
presidente?
Quando foi diplomado pela primera vez como presidente
da república, o Lula passou por um momento muito
bonito, por ser um operário que nunca tinha recebido
diploma e estava recebendo o de presidente. Ninguém
perguntou, e eu perguntaria, o que passou em sua cabeça
naquele segundo.
Você ainda é um brasileiro esperançoso?
Tenho 61 anos de Brasil e posso dizer que o País
melhorou muito. Ele não tem que ser o Primeiro
Mundo, tem que ser um lugar nosso. Mesmo com corrupção,
violência, tráfico de drogas, do governo
FHC pra cá as coisas estão melhorando.
Só que não dá pra resolver isso
em curto prazo. Por exemplo, a geração
dos meus filhos já abomina a corrupção,
são mais honestos, se preocupam com assuntos
que a minha geração não se preocupou.
Enquanto eles se preocupam com a camada de ozônio
nós nos preocupávamos com os militares.
Eu tenho esperança sim, o brasileiro é
cordial, ele quer gritar gol.
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