2007 - EDIÇÃO 68

O IMPÉRIO DAS CAMBALHOTAS
Por Jorge Nicola

Ela já serviu de inspiração para muitos jogadores na comemoração de seus gols. Também foi capaz de encantar milhões de brasileiros com acrobacias em pleno ar e movimentos perfeitos numa área cercada por quatro linhas, assim como no futebol. A gauchinha Daiane dos Santos, maior nome da ginástica artística na história do Brasil, revela toda sua intimidade nesta entrevista exclusiva. A Rainha das Cambalhotas fala sobre o boleiro mais bonito do País, futebol, objetivos, família, rotina de treinos e também a respeito da aposentadoria, cada vez mais próxima. Boa leitura.

Abre o jogo: você é corintiana ou torce para o Inter?
(Risos) Ai, dúvida cruel. Para falar bem a verdade, eu torço para o Corinthians e para o Inter. Virei colorada porque lá em casa todo mundo é. Só que depois passei a gostar também do Corinthians por causa da sua torcida, do time, das cores... Sei lá.

Isto é, você virou a casaca...
Não. Meu pai me mata se ouvir falar que eu não torço mais para o Inter. Sou metade Corinthians, metade Inter. E fiquei superfeliz no ano passado, quando o Inter foi campeão mundial.

Com o jogo de cintura que tem, não acha que faria sucesso no futebol?
Até que eu sei jogar, viu. Como eu gosto bastante de ver as partidas, acabei pegando as manhas. Sei inclusive o que é impedimento. Mas nunca ia ser uma jogadora de sucesso.

Qual o boleiro mais bonito do futebol brasileiro?
Humm. O Nilmar, claro. Ele tem um rosto lindo, parece ser um cara gente-fina e ainda jogou no Inter e no Corinthians. Não é o cara perfeito?

Por falar em caras perfeitos, como anda o coraçãozinho da Daiane?
Bem tranqüilo, viu. Até porque a vida de atleta não permite que se tenha tempo para ocupá-lo.

Mas você adora balada, é do tipo descolada...
Mesmo assim. Estou num momento decisivo da minha carreira. Já decidi que paro com a ginástica depois da Olimpíada do ano que vem, e tenho dado o máximo em todos os treinos para fazer bonito neste finalzinho. Quero ganhar um ouro nos Jogos Pan-Americanos do Rio (em julho) e uma medalha em Pequim.

Essa decisão de parar é definitiva?
É sim. Em 2008 já vou estar com 26 anos, e quero aproveitar um pouco a vida. Para ser uma ginasta de sucesso, a gente tem que se privar de muitas coisas. Adoro baladas, mas só consigo sair nas férias. Não tem jeito. Também quero conhecer gente legal, namorar...

E você já sabe o que fará depois de largar a ginástica?
Claro. Neste ano começo a fazer um curso para aprender a cuidar de crianças especiais. Quero, a partir de 2009, ter uma clínica para dar assistência e cuidar delas.

Ver o treino de qualquer ginasta assusta, pelo grau de exigência. Você deve viver com dores pelo corpo, né não?
Essa é outra situação que acaba saturando. Nós, meninas da Seleção Brasileira, treinamos uma média de sete horas por dia. E não aquela coisinha básica de jogador de futebol, que dá umas corridinhas e treina chute a gol. Passamos as sete horas fazendo força com os braços, as pernas. Para completar, o nosso técnico é o Oleg Ostapenko, considerado um dos melhores do mundo, mas também um dos mais exigentes.

Você se tornou famosa mundialmente graças à ginástica, mas a ginástica brasileira só passou a existir depois de você. Diante disso, dá para dizer que é a Daiane que deve mais à ginástica, ou o contrário?
Acho que está empatado. Tudo o que conquistei na vida eu devo à ginástica. Hoje conto com uma condição financeira boa, sou respeitada nos quatro cantos do mundo e até tenho um salto com o meu nome (Dos Santos). Mas também tenho consciência que dei uma contribuição importante para a ginástica no Brasil. Se uma etapa de Copa do Mundo acontece aqui, e com ginásio cheio, é porque eu fui uma das que ajudou a regar a plantinha da ginástica lá atrás. E isso me dá muito orgulho.

Para fechar: foi do seu pai ou da sua mãe que você herdou tamanha explosão física para dar aqueles saltos altíssimos, cheios de técnica e estilo?
Ah, difícil responder essa, viu. Mas deve ter sido da minha mãe, porque, como o meu pai mesmo fala, ele só foi até hoje um zagueiro sem muito destaque das peladas de fim de semana em Porto Alegre. Já minha mãe tinha o esporte correndo na veia (risos). Só para você ter uma idéia, ela cresceu num sítio, no meio do mato, e lá mesmo ela inventava umas corridas, com direito à travessia de rio e tudo. Agora ela joga vôlei, basquete...