2007 - EDIÇÃO 67

NÓS VAMOS INVADIR A SUA PRAIA
Por Jorge Nicola

Aloha, galera. Veja só: não é todo jogador que depende da bola para estar na crista da onda. Muito menos para escapar da maré baixa, saca? Depois de encarar muito crownd (muita gente surfando na mesma praia), o Fatto Olé dropou a 'morra' da série para invadir os points dos boleiros-surfistas. Atletas que, se não fossem profissionais do futebol, tentariam a sorte em cima de uma prancha.

Os boleiros-surfistas dividem seu tempo entre a praia e os gramados

Os surfistas de carteirinha no Brasil são o goleiro Bosco, do São Paulo, e o meia Rodrigo, que virou Rodrigo Beckham depois de imitar alguns penteados do craque da seleção inglesa. Aquele mesmo que passou por Botafogo, Atlético-PR e Juventude. Do outro lado do Oceano Atlântico, encarando as perfeitas esquerdas do Sul da Espanha, aparece o lateral-direito Michel Salgado, do Real Madrid.

Com a mesma intensidade que odeia conviver com jogadores brasileiros, Salgado ama estar no mar. “Sinto uma sensação de liberdade incrível enquanto estou lá no fundo, depois da arrebentação, esperando pelas ondas”, conta o madrilenho, conhecido pelos arranca-rabos com Ronaldo, Robinho e Cicinho. É bem verdade que o lateral surfa de long-board (prancha maior, mais larga e com mais flutuação), porém ele demonstra desenvoltura e até arrisca algumas manobras.

Nada que se compare a Rodrigo. Nascido e criado em Santos, litoral sul de São Paulo, o jogador cresceu se dividindo entre as peladas na praia e as “quedas” (como os surfistas chamam o ato de surfar) no Guarujá, município vizinho. “Os estudos acabavam ficando sempre em terceiro plano. Minha rotina era linda: fingia que estudava de manhã, pegava onda à tarde e jogava bola à noite”, relembra o atleta.

Mas os tempos áureos de Rodrigo estão voltando. Ele acertou recentemente contrato com duração de quatro meses com o Boavista Sport Clube, time que disputará a Primeira Divisão do Campeonato Carioca em 2007. A boa notícia para o bonitão é que a sede do Boavista é em Saquarema, município no Rio conhecido como Capital Nacional do Surfe.

Michel Salgado é adepto do long-board

"Estou morrendo de vontade de dar uma queda, mas não tive tempo ainda”, diz Rodrigo, que mudou-se na última terça-feira para o palco de diversas etapas do WCT (Campeonato Mundial de Surf). “Escuto há anos o pessoal falando que as direitas aqui são cavadas. Na primeira pausa que tivermos na pré-temporada, vou correr para o mar”, avisa o paulista, que arrebenta dentro da água.

Já o são-paulino Bosco não tem a mesma sorte do reforço do Boavista. Por morar na capital de São Paulo, ele é obrigado a esperar pelos dias de folga concedidos pelo técnico Muricy Ramalho para sonhar com os tubos. “Quando não tem treino, eu pego o carro e corro para alguma praia do litoral. Já conheci várias, e gostei bastante de Maresias. Além de ser uma cidade bacana, cheia de agito, tem uma série (seqüência de ondas grandes) bem interessante”, conta o reserva de Rogério Ceni, que aprendeu a correr paredes, entrar em tubos e tentar aéreos na praia de Boa Viagem, em Recife (PE).

“Pena que os outros jogadores não gostam muito de surfar. Eles não sabem o bem que faz esse contato com a natureza”, acrescenta Bosco, que se revela um fã incondicional do norte-americano Kelly Slater, oito vezes campeão mundial. A paixão do goleiro pela prancha é tal que nem os constantes ataques de tubarões na praia de sua terra natal conseguiram impedi-lo de surfar. “Medo eu tenho de tomar uma mordida, né? Mas eu prefiro arriscar, porque é raro estar lá em Recife, e quando tenho a chance, gosto de relembrar meu passado.”