2006 - EDIÇÃO 66

A INIMIGA NÚMERO 1 DOS CARTOLAS
Por Nathalia Pazini, especial para o Fatto Olé

A mulher mais poderosa do futebol brasileiro acaba de fazer lipoaspiração. Gislaine Nunes, que costuma deixar os dirigentes e os torcedores de cabelo em pé, perdeu 53 quilos. “Agora ninguém mais pode me xingar de vaca gorda”, afirma a advogada, que já "libertou" mais de 500 boleiros e atualmente cuida de vários processos envolvendo atletas – a maioria sem receber salários ou depósitos do fundo de garantia. Nesta conversa franca, a ‘Princesa Isabel’ do esporte bretão abre o jogo e desvenda tudo o que você merece saber.

Corintiana, Gislaine freqüenta jogos à noite para não ser reconhecida

Você é mesmo odiada pelos dirigentes?
Não sei se odiada, mas posso dizer que sou perseguida por eles e isso acontece geralmente quando me envolvo em casos importantes, com atletas renomados e grandes clubes. Mas tem um cara que já declarou para todo mundo que não me suporta: o Eurico Miranda.

Então, você deve sofrer muitas ameaças...
Muitas. Por isso eu sempre ando com dois seguranças particulares. Prefiro evitar a concretização de todas estas ameaças, que sempre são anônimas, é claro. Os torcedores, que perdem seus ídolos por fraqueza dos clubes, também não gostam muito do meu trabalho.

E tentativas de suborno?
No começo eu sofri bastante com isso, principalmente pelos clubes grandes. Lembro-me perfeitamente do último que tentou me subornar: quando ele percebeu que eu não aceitaria a oferta de jeito nenhum, disse que já tinham falado para ele que eu era pobre, mas orgulhosa. Hoje em dia ninguém toca nesse assunto comigo, porque sabe que eu não sou de conversa mole.

Quantos boleiros você já alforriou?
Entreguei a liberdade, com muito prazer, para mais de 500 atletas. O último foi o Fernando que hoje está no São Paulo e que eu liberei do Fluminense.

Os jogadores brasileiros são injustiçados?
São sim. Principalmente pelas alterações da lei, que teria tudo para beneficiá-los. O lobby dos clubes mudou tudo e os atletas acabaram se prejudicando. Mas também acho que os jogadores têm sua parcela de culpa nessa história, já que eles não se movimentaram para que o lobby deles fosse tão forte quanto o dos clubes. Infelizmente a categoria dos boleiros não é unida.

Quem é o grande explorador: clube ou empresário?
Mais o clube, que lucra com os altíssimos valores dos canais de televisão pelo uso da imagem dos jogadores nos campeonatos. A lei prevê que o atleta deva ganhar 20% do valor que o clube recebe, mas a realidade é outra e o jogador acaba com 5% desse valor. Quanto aos empresários, muitos também não me agradam nem um pouco.

Jogador de futebol ama o que faz ou ama o que ganha?
Eles amam o que fazem, sim. Afinal de contas, eles só sabem fazer isso. Jogador que está fora de sua profissão é sempre frustrado. Mas o que não existe mais é o amor à camisa. Isso é papo furado. Eu não deixo nenhum jogador que cuido beijar a camisa. Eles têm que mostrar profissionalismo e acabou.

A advogada sofre ameaças de cartolas e torcedores

Fala sério: é verdade que você costuma distribuir camisinhas aos seus clientes?
(Risos) Não é assim também. Eu só costumo perguntar se eles usam camisinha quando eles saem para namorar. Isso só aconteceu uma vez que um jogador saiu daqui dizendo que ia encontrar com uma mulher, perguntei se ele tinha preservativo e ele disse que não. Aí mandei meu secretário ir buscar. E eu também não gosto que eles usem a camisinha que as meninas levam. Vai saber, né?

Então, a maior ameaça são as Marias-chuteiras?
Eu morro de medo dessas meninas. Elas criam problemas. Mas acho que a maior ameaça contra os jogadores são eles mesmos: suas atitudes, suas companhias... Sempre digo ‘olha aí estes que já foram grandes nomes e que hoje não estão com dinheiro, veja quem é que está realmente do lado deles’.

Que tipo de loucuras os boleiros costumam fazer por elas?
Eu já vi de tudo: presentes caríssimos, viagens para a Europa (com direito a acompanhante). Isso tudo me constrange muito, os valores que eles gastam com as Marias-chuteiras são desnecessários.

O grande problema do futebol brasileiro é a velhice no poder?
Talvez. Acho que sangue novo é bom, precisamos de mentalidade nova e de pessoas que estão dispostas a ouvir. Se não o futebol brasileiro fica como está, movido pela venda. Isso porque os nossos dirigentes são arcaicos, provincianos.

De que figura do mundo da bola você jamais compraria um carro usado?
(Risos) Você quer me matar? Os leitores terão que usar imaginação para essa resposta.


Na sua opinião de especialista, qual será o último capítulo da novela Nilmar?
Eu não tenho nem dúvidas de que ele vá ficar no Corinthians.

Você já ficou rica?
Vou te dizer que não dá para eu me aposentar ainda. Mas deu para comprar um apartamento, fazer uma lipoaspiração... Aliás, agora nenhum dirigente pode vir me chamar de ‘vaca gorda’, como já fizeram. Perdi 53 quilos. Mas tenho que trabalhar muito ainda para ficar rica.