2006 - EDIÇÃO 65

MV BILL, O ARTILHEIRO DA INFORMAÇÃO
Por Nathalia Pazini, especial para o Fatto Olé

Parte do apelido veio da infância, amigos diziam que ele era a cara do Rato Bill. Já MV, ou Mensageiro da Verdade, surgiu quando Alex Pereira Barbosa, nome de batismo, decidiu conscientizar os moradores da Cidade de Deus, onde vive até hoje. Com letras fortes e verdadeiras, MV Bill subiu nos palcos mas não tirou os pés do chão. O rapper e também escritor usa o hip-hop para promover a transformação humana. Uma das conseqüências desse esforço foi a CUFA (Central Única das Favelas), ONG da qual é representante. Nesta entrevista exclusiva para o Fatto Olé, o craque das palavras mostra que a bola, de meia ou de papel, pode ser fator determinante na vida das crianças do morro e que um sonho interrompido é o bastante para a queda na vida do crime.

Créditos para: Guto Costa O futebol marca a identidade brasileira. O campinho de terra batida, a bola de meia, a chuteira sem cravos... Qual é a conexão do esporte com o hip-hop?
Existem muitos jogadores que já declararam publicamente que tem o hip-hop como a trilha sonora da vida: Zé Roberto, Denílson, Dodô, Jorginho e Adriano. Estes caras respeitam nosso som. Fiquei muito feliz quando uma amiga minha me contou que conheceu o Cláudio Pitbull e ele disse que curtia minha música. Eu não concordo que só o samba seja a cara do futebol. Tem jogador que gosta de axé, rap, hip-hop, etc.

No Brasil, a criança nasce e ganha nome, religião e time de futebol. Como uma bola pode ajudar na inclusão social?
A própria história dos jogadores que têm a infância pobre e depois ganham muito dinheiro com a bola faz com que eles voltem para as origens pensando na inclusão social. É só olhar para as instituições e projetos que eles fundam. Mas o importante é que estas instituições não focam somente o futebol, e sim usam o esporte para a superação de vários limites e também para a ampliação de leques. Um exemplo é a Fundação Cafu, que realiza reforço escolar, acompanhamento médico, acesso à Internet e várias outras atividades.

Mas você concorda que música, religião e futebol são mesmo o tripé da sociedade brasileira?
Ainda são. Mas existe um esforço grande de pessoas, eu por exemplo, para ampliar a base da sociedade. Tem uma coisa que eu sempre falo para o meu sobrinho Paulo Roberto, de 9 anos, que sonha em ser jogador. Eu digo: ‘tudo bem, te coloco numa escolinha de futebol, mas você tem que jurar que vai estudar’. Isso porque no Brasil as escolas não acompanham o esporte como, por exemplo, nos EUA.

Créditos para: Guto Costa O traficante da favela e o policial corrupto sonhavam em ser craques. O que aconteceu?
Já conheci muitos bandidos e policiais e percebi que existem muitos fatores que fazem com que as pessoas que tinham o bem na cabeça acabassem desviando o futuro. Os principais são: ter o sonho adiado e passar vontade. Não tem jeito, mesmo que pondo a vida em risco, isso faz com que as pessoas entrem para o crime, para as coisas negativas.

Se a vida na favela fosse uma partida de futebol, o tempo seria o juiz?
Se isso acontecesse, o juiz só determinaria quando a partida começasse e quando iria terminar. Na vida cada jogador tem seu papel. Quando nós jogamos em equipe, alcançamos resultados maiores. Mas se somente o centroavante está preocupado em fazer o gol, o resultado é desastroso.

Arma na mão rima com bola no pé... Você já viu muito moleque deixando a bola para pegar na arma?
Outro dia vi um palpiteiro na TV dizendo que a molecada no Brasil só pensa em jogar futebol e fazer atletismo. É claro, os dois esportes são os mais baratos, por isso mais populares. Tem cara que corre no sertão, descalço naquele chão quente. Tem moleque que não tem bola pra bater uma pelada e por isso joga com bolinha de papel. A partir daí surgem várias pessoas aptas a serem profissionais. Mas infelizmente os atletas têm pouco espaço e muitos acabam se perdendo. O cara tá com fome, não tem onde arrumar comida... aí fudeu, abandona o esporte mesmo. Já vi garoto que treinava em clube mas não ganhava nada porque era muito novo, então largou o clube e começou a jogar pelo time da boca, que pagava pra ele. Um dia fecharam a boca e o cara ficou desempregado. Você acha que ele foi fazer o quê?

Créditos para: Guto Costa O Bill se arrisca em campo da mesma forma que se arrisca nos palcos?
De jeito nenhum. Eu sou muito ruim com a bola no pé. Geralmente um cara do meu tamanho não joga legal. Eu até tento uma defesa às vezes, mas não dá. Gosto mesmo é de assistir aos jogos e procuro não perder nenhum do Flamengo. Mas no sul tenho simpatia pelo Internacional e pelo Figueirense.

Quem são seus amigos no futebol?
Não conheço muita gente não, viu. Mas um cara que é amigo pra valer é o Jorginho, que talvez vá jogar em Portugal, e o Zé Roberto, que já jogou na Seleção. O Ronaldo também é parceiro: fez uma doação para a CUFA e assim conseguimos reformar um prédio e montar um centro cultural. Só que ele não só mandou o dinheiro, como fez questão de vir até a Cidade de Deus duas vezes pessoalmente para ver o projeto antes e depois de realizado.

Astros existem muitos, mas poucos são reis… o que significa o termo craque para você?
O que eu vou falar é meio pesado, mas ultimamente aqui na Cidade de Deus o único craque que vejo é o crack (a droga). Antes achava que ele era restrito em São Paulo. Mas agora a realidade é outra: o crack está devastando a juventude e tem muito cara bom de bola por aqui que se tornou viciado.

Você, o Mensageiro da Verdade, acha que o maior problema do Brasil é a falta de educação?
O Brasil tem muitos problemas mas quando o assunto é periferia, eles se multiplicam. Existem movimentos da Guarda Nacional para acabar com o tráfico na favela, mas vale a pena lembrar que esse não é o problema principal, ele é apenas a conseqüência da falta de educação no nosso País.