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do apelido veio da infância, amigos diziam que
ele era a cara do Rato Bill. Já MV, ou Mensageiro
da Verdade, surgiu quando Alex Pereira Barbosa, nome
de batismo, decidiu conscientizar os moradores da Cidade
de Deus, onde vive até hoje. Com letras fortes
e verdadeiras, MV Bill subiu nos palcos mas não
tirou os pés do chão. O rapper e também
escritor usa o hip-hop para promover a transformação
humana. Uma das conseqüências desse esforço
foi a CUFA (Central Única das Favelas), ONG da
qual é representante. Nesta entrevista exclusiva
para o Fatto Olé, o craque das
palavras mostra que a bola, de meia ou de papel, pode
ser fator determinante na vida das crianças do
morro e que um sonho interrompido é o bastante
para a queda na vida do crime.

O futebol marca a identidade brasileira. O campinho
de terra batida, a bola de meia, a chuteira sem cravos...
Qual é a conexão do esporte com o hip-hop?
Existem
muitos jogadores que já declararam publicamente
que tem o hip-hop como a trilha sonora da vida: Zé
Roberto, Denílson, Dodô, Jorginho e Adriano.
Estes caras respeitam nosso som. Fiquei muito feliz
quando uma amiga minha me contou que conheceu o Cláudio
Pitbull e ele disse que curtia minha música.
Eu não concordo que só o samba seja a
cara do futebol. Tem jogador que gosta de axé,
rap, hip-hop, etc.
No Brasil, a criança nasce e ganha nome, religião
e time de futebol. Como uma bola pode ajudar na inclusão
social?
A própria história dos jogadores que têm
a infância pobre e depois ganham muito dinheiro
com a bola faz com que eles voltem para as origens pensando
na inclusão social. É só olhar
para as instituições e projetos que eles
fundam. Mas o importante é que estas instituições
não focam somente o futebol, e sim usam o esporte
para a superação de vários limites
e também para a ampliação de leques.
Um exemplo é a Fundação Cafu, que
realiza reforço escolar, acompanhamento médico,
acesso à Internet e várias outras atividades.
Mas você concorda que música, religião
e futebol são mesmo o tripé da sociedade
brasileira?
Ainda são. Mas existe um esforço grande
de pessoas, eu por exemplo, para ampliar a base da sociedade.
Tem uma coisa que eu sempre falo para o meu sobrinho
Paulo Roberto, de 9 anos, que sonha em ser jogador.
Eu digo: ‘tudo bem, te coloco numa escolinha de
futebol, mas você tem que jurar que vai estudar’.
Isso porque no Brasil as escolas não acompanham
o esporte como, por exemplo, nos EUA.

O traficante da favela e o policial corrupto
sonhavam em ser craques. O que aconteceu?
Já conheci muitos bandidos e policiais e percebi
que existem muitos fatores que fazem com que as pessoas
que tinham o bem na cabeça acabassem desviando
o futuro. Os principais são: ter o sonho adiado
e passar vontade. Não tem jeito, mesmo que pondo
a vida em risco, isso faz com que as pessoas entrem
para o crime, para as coisas negativas.
Se a vida na favela fosse uma partida de futebol,
o tempo seria o juiz?
Se isso acontecesse, o juiz só determinaria quando
a partida começasse e quando iria terminar. Na
vida cada jogador tem seu papel. Quando nós jogamos
em equipe, alcançamos resultados maiores. Mas
se somente o centroavante está preocupado em
fazer o gol, o resultado é desastroso.
Arma na mão rima com bola no pé...
Você já viu muito moleque deixando a bola
para pegar na arma?
Outro dia vi um palpiteiro na TV dizendo que a molecada
no Brasil só pensa em jogar futebol e fazer atletismo.
É claro, os dois esportes são os mais
baratos, por isso mais populares. Tem cara que corre
no sertão, descalço naquele chão
quente. Tem moleque que não tem bola pra bater
uma pelada e por isso joga com bolinha de papel. A partir
daí surgem várias pessoas aptas a serem
profissionais. Mas infelizmente os atletas têm
pouco espaço e muitos acabam se perdendo. O cara
tá com fome, não tem onde arrumar comida...
aí fudeu, abandona o esporte mesmo. Já
vi garoto que treinava em clube mas não ganhava
nada porque era muito novo, então largou o clube
e começou a jogar pelo time da boca, que pagava
pra ele. Um dia fecharam a boca e o cara ficou desempregado.
Você acha que ele foi fazer o quê?

O Bill se arrisca em campo da mesma forma que
se arrisca nos palcos?
De jeito nenhum. Eu sou muito ruim com a bola no pé.
Geralmente um cara do meu tamanho não joga legal.
Eu até tento uma defesa às vezes, mas
não dá. Gosto mesmo é de assistir
aos jogos e procuro não perder nenhum do Flamengo.
Mas no sul tenho simpatia pelo Internacional e pelo
Figueirense.
Quem são seus amigos no futebol?
Não conheço muita gente não, viu.
Mas um cara que é amigo pra valer é o
Jorginho, que talvez vá jogar em Portugal, e
o Zé Roberto, que já jogou na Seleção.
O Ronaldo também é parceiro: fez uma doação
para a CUFA e assim conseguimos reformar um prédio
e montar um centro cultural. Só que ele não
só mandou o dinheiro, como fez questão
de vir até a Cidade de Deus duas vezes pessoalmente
para ver o projeto antes e depois de realizado.
Astros existem muitos, mas poucos são
reis… o que significa o termo craque para você?
O que eu vou falar é meio pesado, mas ultimamente
aqui na Cidade de Deus o único craque que vejo
é o crack (a droga). Antes achava que ele era
restrito em São Paulo. Mas agora a realidade
é outra: o crack está devastando a juventude
e tem muito cara bom de bola por aqui que se tornou
viciado.
Você, o Mensageiro da Verdade, acha que
o maior problema do Brasil é a falta de educação?
O Brasil tem muitos problemas mas quando o assunto é
periferia, eles se multiplicam. Existem movimentos da
Guarda Nacional para acabar com o tráfico na
favela, mas vale a pena lembrar que esse não
é o problema principal, ele é apenas a
conseqüência da falta de educação
no nosso País.
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