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Gente,
vocês sabiam que o vôlei brasileiro também
tem o seu Fenômeno? Nem Pelé, nem Ronaldinho...
Ricardinho é considerado o melhor do mundo na
atualidade e um dos três melhores levantadores
de todos os tempos. Isso é muito. Direto de Modena,
na Itália, o capitão da Seleção
lembra dos tempos em que não arranjava emprego
porque era considerado maluco, devido à velocidade
que impunha com suas levantadas. Hoje, o maluco virou
gênio e muitos não cansam de dizer que
este paulista de 31 anos revolucionou o esporte. Nesta
entrevista exclusiva, Ricardinho fala sobre a reviravolta
em sua vida, desemprego, sucesso, assédio, dinheiro,
futebol (é claro!) e muito mais. Confira.
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Giba
e Ricardinho. Companheirismo dentro e fora das
quadras
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No Brasil se fala muito de Ronaldinho Gaúcho,
Kaká e Ronaldo, mas nosso Pelé hoje é
você. Até o Bernardinho e o Giba já
reconheceram isso...
Pô, você não sabe a satisfação
que sinto ao escutar qualquer elogio. Já ralei
demais e passei por muito perrengue antes de virar titular
e capitão da Seleção. Vejo as comparações
como uma vitória pessoal imensa, e estes dias
têm sido os mais gostosos da minha vida.
Seu maior drama foram os dois anos de desemprego?
Com certeza. Imagine a situação: tinha
casado há pouco tempo, minha filha Julia já
era nascida e eu não arrumava time para jogar.
Sabia que tinha condição de ser titular
em qualquer equipe, mas as portas se fechavam para mim.
Primeiro passei um ano e dois meses desempregado. Depois
fiz uma temporada, e fiquei mais oito meses sem clube.
Passou tanta coisa pela minha cabeça. A única
certeza que tinha era de que nunca desistiria do sonho
de ser jogador de vôlei.
Explique por que o pessoal na Seleção
brinca que você passou de maluco a gênio
num instante.
Era exatamente por causa dessa história de maluco
que eu não arranjava emprego. O que acontece
é que eu sempre tive um estilo de jogo muito
diferente do convencional para um levantador. Desde
que virei profissional, sempre pus velocidade total
nas jogadas. Meu ritmo é muito mais rápido
e o pessoal não entendia isso. Via como algo
inviável.
Agora o maluco é copiado pelos quatro cantos
do mundo.
Pois é. Os mesmos que me criticavam falam que
sou gênio, que estou transformando o vôlei.
Mas a verdade é que todo mundo está tentando
me copiar, e isso ficou muito claro no Mundial que vencemos
agora, no Japão. Só que eles vão
cair do cavalo, porque não é de um dia
para o outro que essa mudança de velocidade no
jogo acontece. Até porque não passa só
pelo levantador. Os atacantes precisam entender que
vão ter de se esforçar mais, correr mais...
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Família
reunida: o desemprego não assustou o jogador
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O Ronaldo ganha mais de R$ 60 milhões
por ano. Um fenômeno do vôlei, como você,
chega perto desse valor, jogando aí na Itália?
(Risos) Precisaria jogar até os 100 anos para
conseguir juntar todo o dinheiro que ele ganha numa
temporada. Para falar a verdade, nem sabia que o futebol
pagava tão bem. Ou então dá para
concluir que o vôlei paga muito mal. Eu não
ganho mais que R$ 300 mil por ano, e olha que estou
no topo da lista dos mais bem pagos.
Por que essa diferença tão
grande, se vocês atuam numa liga superprofissional,
com os melhores do mundo e repleta de patrocinadores?
Porque o futebol é incomparável. Ele está
numa outra realidade. O futebol é um fenômeno
mundial, enquanto o vôlei ainda engatinha para
se tornar uma potência.
Mas pelo menos na preferência
feminina, o vôlei já é o esporte
número 1 no Brasil, de acordo com pesquisas.
Jura? Sensacional. Mas é até compreensível,
porque as mulheres sempre tiveram uma proximidade grande
com o vôlei, e acho que nossa geração
está contribuindo para aproximá-las ainda
mais.
O que ouviu sobre a festa pelo título
mundial dos jogadores com a população
aqui no Brasil (Ricardinho não esteve no País,
pois se apresentou ao seu time na Itália)?
Ouvi maravilhas. Conversei com quase todos os jogadores,
e eles falaram que foi uma emoção indescritível.
Que pararam a avenida Paulista para abraçá-los,
que aonde eles iam tinha gente acenando. Agora imagina
como seria essa comemoração se o vôlei
tivesse a penetração na mídia que
o futebol tem. Na Copa da Alemanha, rolava um Big Brother
da Seleção, né? Se tivesse isso
com a nossa Seleção, estaríamos
ainda mais na boca do povo. Mas pelo menos voltamos
com a consciência limpa, e cientes de que aproximamos
um pouco mais o vôlei do futebol.
A equipe do Parreira era tão
favorita quanto o time de Bernardinho. O que vocês
tiveram a mais do que eles?
Acho que é cascata dizer que os caras do futebol
não tiveram vontade. É praticamente impossível
você estar numa Copa e não ter vontade.
Também não foi a meia do Roberto Carlos
que impediu o título. Só que nenhuma seleção
é imbatível, e justo naquele dia em que
não podia perder, o Brasil perdeu. Pelo menos
essa é a minha visão como capitão.
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O
capitão segura o troféu conquistado
no Mundial do Japão
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Como é ser capitão de
uma Seleção que tem como técnico
o Bernardinho e reúne várias personalidades
completamente diferentes entre os atletas?
Não é nem um pouco fácil, cara.
Como sou o capitão dos jogadores, tenho que estar
do lado deles. Então arranjo cada confusão
com a comissão-técnica por causa disso.
Às vezes um cara mais novo, como o Samuel ou
o Murilo, não tem moral para chegar no Bernardinho
para colocar alguma coisa, e cabe a mim fazer isso.
Também tenho que brigar por causas que nem sempre
são as minhas.
O Bernardinho é uma mala, mesmo?
Ele é muito pior do que você imagina. Aqueles
berros e broncas que dá na quadra são
fichinha perto do estresse que ele coloca na gente.
A relação dele com o grupo é como
de marido e mulher. Entre tapas e beijos, saca? O dia-a-dia
com ele é duro demais. Por exemplo: ele quer
sair para treinar todo dia meia-hora mais cedo do horário
combinado, acha que temos que alongar quase uma hora,
cobra demais no treino, não polpa ninguém
nunca. Mas ao mesmo tempo ele é muito inteligente
e sabe lidar com os diferentes gênios dos atletas.
E qual é o seu gênio?
Sou o mais reclamão. Disparado.
Na concentração dos boleiros
do futebol, não pode faltar videogame. E com
vocês?
Com a gente o negócio é bem variado. Gustavo,
Murilo e Rodrigão não saem da frente do
videogame. E o pior é que, apesar de sermos do
vôlei, eles são viciados em joguinhos de
futebol. Já eu e o Giba curtimos ficar no restaurante,
passear em shoppings e conhecer a cidade. Tem ainda
a turma do iPod e uma outra que não sai da frente
do computador e do MSN.
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Rapidez
do craque garantiu vaga na Seleção
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Com seu 1,91m, você vai melhor
como zagueiro ou centroavante com a bola nos pés?
Para falar a verdade, não vou bem de jeito nenhum
com a bola nos pés. Sou um verdadeiro fiasco
no futebol. Mas se tivesse que escolher uma posição,
ficaria com a de meia, para ter a responsabilidade de
armar as jogadas.
E você torce para algum time?
Sou corintiano, mas nada muito fanático. Meu
pai é quem gosta mais, acompanha, sabe a escalação...
Eu fui meio que na empolgação de criança.
Você chegou a retirar um tumor
da perna com nove anos de idade. O quanto isso te estimulou
a superar obstáculos?
Ah, dá para dizer que foi a minha primeira grande
vitória na vida. E o mais curioso é que
por conta da cirurgia, o médico mandou que eu
começasse a praticar esporte. Passei a ir assistir
aos treinos do meu irmão, que jogava vôlei.
Até que um dia o técnico dele me chamou
para jogar. Nunca mais parei.
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