2007 - EDIÇÃO 64

O MALUCO VIROU GÊNIO
Por Jorge Nicola

Gente, vocês sabiam que o vôlei brasileiro também tem o seu Fenômeno? Nem Pelé, nem Ronaldinho... Ricardinho é considerado o melhor do mundo na atualidade e um dos três melhores levantadores de todos os tempos. Isso é muito. Direto de Modena, na Itália, o capitão da Seleção lembra dos tempos em que não arranjava emprego porque era considerado maluco, devido à velocidade que impunha com suas levantadas. Hoje, o maluco virou gênio e muitos não cansam de dizer que este paulista de 31 anos revolucionou o esporte. Nesta entrevista exclusiva, Ricardinho fala sobre a reviravolta em sua vida, desemprego, sucesso, assédio, dinheiro, futebol (é claro!) e muito mais. Confira.

Giba e Ricardinho. Companheirismo dentro e fora das quadras

No Brasil se fala muito de Ronaldinho Gaúcho, Kaká e Ronaldo, mas nosso Pelé hoje é você. Até o Bernardinho e o Giba já reconheceram isso...
Pô, você não sabe a satisfação que sinto ao escutar qualquer elogio. Já ralei demais e passei por muito perrengue antes de virar titular e capitão da Seleção. Vejo as comparações como uma vitória pessoal imensa, e estes dias têm sido os mais gostosos da minha vida.

Seu maior drama foram os dois anos de desemprego?
Com certeza. Imagine a situação: tinha casado há pouco tempo, minha filha Julia já era nascida e eu não arrumava time para jogar. Sabia que tinha condição de ser titular em qualquer equipe, mas as portas se fechavam para mim. Primeiro passei um ano e dois meses desempregado. Depois fiz uma temporada, e fiquei mais oito meses sem clube. Passou tanta coisa pela minha cabeça. A única certeza que tinha era de que nunca desistiria do sonho de ser jogador de vôlei.

Explique por que o pessoal na Seleção brinca que você passou de maluco a gênio num instante.
Era exatamente por causa dessa história de maluco que eu não arranjava emprego. O que acontece é que eu sempre tive um estilo de jogo muito diferente do convencional para um levantador. Desde que virei profissional, sempre pus velocidade total nas jogadas. Meu ritmo é muito mais rápido e o pessoal não entendia isso. Via como algo inviável.

Agora o maluco é copiado pelos quatro cantos do mundo.
Pois é. Os mesmos que me criticavam falam que sou gênio, que estou transformando o vôlei. Mas a verdade é que todo mundo está tentando me copiar, e isso ficou muito claro no Mundial que vencemos agora, no Japão. Só que eles vão cair do cavalo, porque não é de um dia para o outro que essa mudança de velocidade no jogo acontece. Até porque não passa só pelo levantador. Os atacantes precisam entender que vão ter de se esforçar mais, correr mais...

Família reunida: o desemprego não assustou o jogador

O Ronaldo ganha mais de R$ 60 milhões por ano. Um fenômeno do vôlei, como você, chega perto desse valor, jogando aí na Itália?
(Risos) Precisaria jogar até os 100 anos para conseguir juntar todo o dinheiro que ele ganha numa temporada. Para falar a verdade, nem sabia que o futebol pagava tão bem. Ou então dá para concluir que o vôlei paga muito mal. Eu não ganho mais que R$ 300 mil por ano, e olha que estou no topo da lista dos mais bem pagos.

Por que essa diferença tão grande, se vocês atuam numa liga superprofissional, com os melhores do mundo e repleta de patrocinadores?
Porque o futebol é incomparável. Ele está numa outra realidade. O futebol é um fenômeno mundial, enquanto o vôlei ainda engatinha para se tornar uma potência.

Mas pelo menos na preferência feminina, o vôlei já é o esporte número 1 no Brasil, de acordo com pesquisas.
Jura? Sensacional. Mas é até compreensível, porque as mulheres sempre tiveram uma proximidade grande com o vôlei, e acho que nossa geração está contribuindo para aproximá-las ainda mais.

O que ouviu sobre a festa pelo título mundial dos jogadores com a população aqui no Brasil (Ricardinho não esteve no País, pois se apresentou ao seu time na Itália)?
Ouvi maravilhas. Conversei com quase todos os jogadores, e eles falaram que foi uma emoção indescritível. Que pararam a avenida Paulista para abraçá-los, que aonde eles iam tinha gente acenando. Agora imagina como seria essa comemoração se o vôlei tivesse a penetração na mídia que o futebol tem. Na Copa da Alemanha, rolava um Big Brother da Seleção, né? Se tivesse isso com a nossa Seleção, estaríamos ainda mais na boca do povo. Mas pelo menos voltamos com a consciência limpa, e cientes de que aproximamos um pouco mais o vôlei do futebol.

A equipe do Parreira era tão favorita quanto o time de Bernardinho. O que vocês tiveram a mais do que eles?
Acho que é cascata dizer que os caras do futebol não tiveram vontade. É praticamente impossível você estar numa Copa e não ter vontade. Também não foi a meia do Roberto Carlos que impediu o título. Só que nenhuma seleção é imbatível, e justo naquele dia em que não podia perder, o Brasil perdeu. Pelo menos essa é a minha visão como capitão.

O capitão segura o troféu conquistado no Mundial do Japão

Como é ser capitão de uma Seleção que tem como técnico o Bernardinho e reúne várias personalidades completamente diferentes entre os atletas?
Não é nem um pouco fácil, cara. Como sou o capitão dos jogadores, tenho que estar do lado deles. Então arranjo cada confusão com a comissão-técnica por causa disso. Às vezes um cara mais novo, como o Samuel ou o Murilo, não tem moral para chegar no Bernardinho para colocar alguma coisa, e cabe a mim fazer isso. Também tenho que brigar por causas que nem sempre são as minhas.

O Bernardinho é uma mala, mesmo?
Ele é muito pior do que você imagina. Aqueles berros e broncas que dá na quadra são fichinha perto do estresse que ele coloca na gente. A relação dele com o grupo é como de marido e mulher. Entre tapas e beijos, saca? O dia-a-dia com ele é duro demais. Por exemplo: ele quer sair para treinar todo dia meia-hora mais cedo do horário combinado, acha que temos que alongar quase uma hora, cobra demais no treino, não polpa ninguém nunca. Mas ao mesmo tempo ele é muito inteligente e sabe lidar com os diferentes gênios dos atletas.

E qual é o seu gênio?
Sou o mais reclamão. Disparado.

Na concentração dos boleiros do futebol, não pode faltar videogame. E com vocês?
Com a gente o negócio é bem variado. Gustavo, Murilo e Rodrigão não saem da frente do videogame. E o pior é que, apesar de sermos do vôlei, eles são viciados em joguinhos de futebol. Já eu e o Giba curtimos ficar no restaurante, passear em shoppings e conhecer a cidade. Tem ainda a turma do iPod e uma outra que não sai da frente do computador e do MSN.

Rapidez do craque garantiu vaga na Seleção

Com seu 1,91m, você vai melhor como zagueiro ou centroavante com a bola nos pés?
Para falar a verdade, não vou bem de jeito nenhum com a bola nos pés. Sou um verdadeiro fiasco no futebol. Mas se tivesse que escolher uma posição, ficaria com a de meia, para ter a responsabilidade de armar as jogadas.

E você torce para algum time?
Sou corintiano, mas nada muito fanático. Meu pai é quem gosta mais, acompanha, sabe a escalação... Eu fui meio que na empolgação de criança.

Você chegou a retirar um tumor da perna com nove anos de idade. O quanto isso te estimulou a superar obstáculos?
Ah, dá para dizer que foi a minha primeira grande vitória na vida. E o mais curioso é que por conta da cirurgia, o médico mandou que eu começasse a praticar esporte. Passei a ir assistir aos treinos do meu irmão, que jogava vôlei. Até que um dia o técnico dele me chamou para jogar. Nunca mais parei.