2006 - EDIÇÃO 63

FÉRIAS DE BOLEIRO
Por Jorge Nicola

A bola está parada. Então, o Fatto Olé resolveu vestir a sua camisa “NO STRESS” verde-amarela e cair na estrada em busca do cotidiano sem ansiedade, da alegria sem meta, da felicidade sem pressa. FÉRIAS, LÁ VAMOS NÓS! Sempre em busca da sábia preguiça solar – a nossa vontade era ficar bebendo frappé de coco para sempre. Mas ooops... chega dessa caretice de sombra e água fresca: o negócio é pagar pedágio especialmente para você e revelar como os grandes ídolos do futebol curtem seus dias de descanso.

Rogério passa férias assistindo a filmes infantis com suas filhas

Veraneio, relax de tudo, sossego total. Olha só, Wanderley Luxemburgo de chapéu e shortinho no Pantanal, completamente descompromissado, Bosco pegando altas ondas, Marcos com cigarrinho de palha numa pescaria amadora em Oriente (SP), Edmundo e Renato Gaúcho jogando futevôlei na praia de Ipanema ou na Barra da Tijuca, Rogério Ceni de babá das filhas gêmeas em sua fazenda em Sinop (MS), Parreira distribuindo autógrafos em Nova Iorque e Carlos Alberto tirando fotos do Pateta na Disneylândia...

Em época de férias, atleta que é atleta muda de endereço. Ficar em casa é sinônimo de queimação de filme, para sorte das companhias aéreas. Em geral, os craques aproveitam o tempo livre para voltar às origens. “Fico longe da minha mãe o ano inteiro. Bate uma saudade que vocês não acreditam”, conta o meia são-paulino Souza, que se mandou para Maceió, capital alagoana, horas depois de ter sido liberado pelo Tricolor. “Aqui vou rever minha família toda, que é grande demais. Tenho programa para os 30 dias de folga.”

Assim como Souza, também procuraram o conforto da terra-natal o carioca Roger, os baianos Obina, Fábio Costa, Paulo Almeida e Fabão, os gaúchos Paulo Baier e Nilmar... Ídolo do Flamengo, Obina está literalmente deitando e rolando na Ilha de Itaparica. Mas adivinhe qual a grande diversão do artilheiro? Disputar peladas, e como goleiro. “Tenho qualidade no gol, também”, brinca.

Wanderley Luxemburgo se refugia no Pantanal

Os boleiros são mesmo uma espécie maluca. Passam o ano inteiro reclamando da seqüência desgastante de jogos, mas, quando têm a chance de ficar longe da gorduchinha, fazem questão de participar da maior quantidade de peladas possível. Seja amistosa, para ajudar instituições de caridade ou para reunir a turma de infância e a família. O atacante Aloísio, do São Paulo, é o organizador de uma já tradicional partida de fim de ano em Alagoas. “Vem jogador de todo o Nordeste”, conta. “Tem cada cracaço na minha pelada”, comemora, citando o são-paulino Júnior e o jovem Andrade, que está de saída do Vasco.

Além do futebol sem compromisso, há na agenda de férias dos boleiros alguns outros esportes. O goleiro Bosco, por exemplo, não passa uma manhã sem surfar, encarando as ondas do Morro do Careca, em Natal (RN). Já seu companheiro de posição, Rogério Ceni, gasta mais da metade do dia, acreditem, assistindo a desenhos infantis com as filhas gêmeas Beatriz e Clara. Livres dos treinos em dois períodos, os meias Rosinei e Elton, do Corinthians, não desgrudam do Playstation 2. O jogo que não sai do videogame da dupla é o Winning Eleven 10.

É bem verdade que há a classe de atletas e profissionais do futebol que preferem a calmaria absoluta. O melhor representante deste grupo, sem dúvida, é o goleiro palmeirense Marcos. “Quando saio de férias, ninguém me acha. Vou para Oriente (interior de São Paulo) e me escondo lá”, reconhece o goleiro tetracampeão mundial.

Marcos se esconde em Oriente, na pescaria

Tempos atrás, os dirigentes da CBF sentiram na pele o quanto o ídolo palmeirense foi sincero ao dizer que se esconde em sua cidade. Convocado de última hora para um amistoso do Brasil, ele precisava ser avisado de que teria de se apresentar para a viagem. Os cartolas ligaram dezenas de vezes em seu celular, mas o boleiro não atendia. “O jeito foi recorrer ao delegado da cidade, que sabe que eu adoro pescar. Aí aparece ele lá no pesque-e-pague, numa viatura de polícia. Levei o maior susto”, relembra Marcos. "É engraçado pensar que ele só queria me passar o recado de que eu estava convocado para a Seleção."

Luxemburgo também investe pesado por dias de sossego incontestável. Em sua habitual viagem de fim de ano, o destino é sempre o Pantanal. Lá ele chega a ficar mais de 12 horas seguidas no rio, em busca de peixes que podem passar dos 80 quilos. “E de celular desligado, viu. Ninguém consegue me perturbar durante a pescaria”, avisa o treinador santista, soltando um aliviante “Ufa!”.

Difícil mesmo é esquecer a Bahia, o Pantanal, a ilha de Fernando de Noronha, a fazenda, a praia, a montanha, aquela sensação única de liberdade, não é mesmo? O juiz apita, o jogo começa, a bola rola, mas todos os boleiros continuam lá, viajando, na moral. O craque chuta e leva junto com ele a Praia da Pipa, a Torre Eifel, a montanha-russa, o sol e mar, os santos e os orixás, os coqueiros e as frutas, as sensações e os prazeres, as cores e os sons... Todos os momentos se unem num só grito: GOOOOOL!!