2006 - EDIÇÃO 62

A fila andou...
Por Jorge Nicola

Fala sério. Deve ser extremamente broxante trabalhar como técnico num país com 188 milhões de treinadores. Aí é que está; no Brasil todo mundo acha que sabe sobre política, carnaval e futebol. Estamos diante da verdade: eis uma profissão ingrata. O cara é o culpado nas derrotas. Sempre. Nas vitórias, os especialistas dizem que apenas 20% do mérito são do ‘professor’. Ser treinador é conviver com o maldito ponto de interrogação nas costas. É colecionar um caminhão de xingamentos a cada jogo - FDP, grande *#@, vou #@** a mãe deste *#&@! É viver como piloto de avião, pulando de aeroporto em aeroporto, de concentração em concentração, muitas vezes longe de casa e da família. Em resumo: se ficar o bicho pega, se correr o bicho come.

Para Leão, demissões mostram a fraqueza dos dirigentes

"Nossa profissão é muito menos glamourosa do que se imagina", avalia Tite. “Você não pode se planejar para nada, porque não sabe como será o dia de amanhã." O ex-técnico do Palmeiras, alvo de uma dantesca ‘palaiada’ (se é que vocês me entendem) lembra que em 2004 foi demitido do São Caetano sem mais nem menos. “O pior é que eu tinha acabado de tirar meus filhos de Caxias do Sul e matriculá-los numa escola em São Paulo”, conta.

Nem os mais renomados, como Émerson Leão, escapam da guilhotina dos cartolas patéticos. “Os dirigentes brasileiros são, em geral, fracos”, detona o agora corintiano. “A tática é sempre igual: mandar o técnico embora quando os resultados não aparecem. Assim eles limpam a barra deles, como se não tivessem culpa pelos erros de planejamento e montagem do elenco."

Se o futebol moderno cada vez mais depende de planejamento, chega a hora de acabar de uma vez por todas com essa história de técnico descartável. Para se ter idéia, só o Paraná mudou de ‘maestro’ entre os seis melhores times do Campeonato Brasileiro. Por outro lado, o Fluminense contou com seis treinadores em 11 meses. Resultado: escapou por muito pouco da Série B.

Tite foi demitido do Azulão dias após matricular os filhos na escola

O melhor exemplo da importância real que deve ser dada a um treinador está no Manchester United: Alex Ferguson dirige o time inglês há mais de 20 anos. Incrível, não é mesmo? Aos 64 anos de idade, ele soma mais de mil partidas à frente dos Diabos Vermelhos e coleciona títulos. “Sei que todos os dias encaro uma enorme responsabilidade, mas tenho a sorte de contar com uma boa energia para agüentar o ritmo e superar os desafios do dia-a-dia”, comemora Ferguson.

Uma coisa é certa: o futebol está revendo os seus conceitos. A figura do treinador que pula de clube para clube se tornou mais rara também aqui no Brasil. Só oito técnicos trabalharam em mais de uma equipe. No ano passado, foram 13. Em 2004, 16. Na estréia dos pontos corridos, em 2003, 10. Não há mais espaço para a improvisação. Marcas históricas de longevidade foram batidas, como fez Renato Gaúcho no conturbado Vasco. Ele dirige a equipe, somando esta edição e a do ano passado, há 67 rodadas. Ninguém se manteve em São Januário por tanto tempo.

Muricy Ramalho quase não participou da criação dos filhos

Tite vai além e sugere até uma mudança no regulamento. “Deveriam estabelecer que os técnicos não poderiam mudar de clube durante o campeonato. Isso já acontece com os jogadores, que depois de completarem sete jogos ficam impedidos de se transferir”, opina. “Desta maneira, os dirigentes teriam de pensar muito antes de contratar um de nós."

Bom, sobram duas perguntas para reflexão: os técnicos realmente merecem orelhões de asno? Ou os verdadeiros burros são os cartolas que contratam um, dois, três, quatro, cinco, seis... treinadores diferentes sem qualquer tipo de critério ou planejamento?