2006 - EDIÇÃO 58

Escondemos a raquete do Fininho
Entrevista: Nathalia Pazini - Fotos: Gustavo Stojkow

O Fatto Olé bateu um ping-pong com um dos maiores nomes da história do tênis brasileiro, o são-paulino Fernando Meligeni. Desafio de bamba. Fala sério: você está cansado de saber que o Fininho é gente boa, inteligente e uma baita figura do esporte nacional, não é mesmo? Por isso, fizemos o cara trocar as mãos pelos pés neste bate-papo; nada de raquete, saibro, saques, aces e bolinhas pequeninas. Aqui e agora o capitão do Brasil na Copa Davis coloca o time em campo pra falar de futebol, oras. Aproveite e faça uma tabelinha com o craque Fino!

O tênis e o futebol têm algo em comum?
FERNANDO MELIGENI: No Brasil, os dois têm a mesma característica de falta de organização que espanta a iniciativa privada. Imagina só se tivéssemos no futebol uma federação mais organizada, os estádios mais seguros, menos impunidade, o preço fosse justo, se ir para o Morumbi fosse a mesma coisa do que ir para o Santiago Bernabéu! Poderíamos estar muito além. A mesma coisa no tênis: todos os presidentes de empresas gostam do esporte. Para relacionamento, o tênis é incrível. Mas essa falta de organização...

Argentino de nascença e brasileiro por opção, como você analisa a passagem de Tevez e Mascherano pelo Timão?
Acho que essa rivalidade entre e Brasil e Argentina é muito complicada. Olha, não é por ter nascido lá e eu também nem sou corintiano, mas acho que o time e a torcida deveriam ser muito gratos ao Tevez. Muito mais do que ao Mascherano ou qualquer outro jogador. Ele foi o melhor do campeonato, ganharam muitos jogos em função dele. Claro que a situação ficou chata por ele ser argentino e por ter ido embora de uma maneira estranha, mas o Corinthians tem problemas há um bom tempo para as pessoas colocarem a culpa no Tevez. Todo mundo sabia que o prazo de validade dos argentinos no Brasil era de um ou dois anos.

Você sempre foi considerado um guerreiro do esporte: dá para se imaginar de chuteira?
Sempre gostei muito de atuar no gol. Eu joguei futebol de salão na época de escola, mas era péssimo. Depois, nos rachões que jogava entre tenistas eu ficava embaixo nas traves. Sempre curti jogar bola, mas como goleiro.

Fino, como são-paulino que é, já pensou em ocupar um cargo na diretoria do Tricolor?
Já fui chamado várias vezes no São Paulo para fazer palestras, conversar com os jogadores. Na época do Paulo César Carpegiani eu fui conversar com a boleirada, tinha acabado de chegar de uma final de Roland Garros. Era muita pressão porque o elenco para quem eu falava era o Raí, o Márcio Santos... Essa foi a maior proximidade. Acho que é cada um na sua. Existem pessoas no Brasil que sabem muito mais de futebol do que eu. Não entendo muito do esporte, entendo de garra, de atitude e de tênis. Eu acredito que só perseverança e vontade não ganham jogo. Você tem que ter a técnica.

Muita gente considera o Rogério Ceni arrogante. E você, que já deu uma surra no goleiro na quadra, concorda?
Eu tenho muita admiração por ele. O Ceni é um cara inteligente, apaixonado pelo time que joga. Muito ponderado nas atitudes. Torço muito para que ele seja o presidente do São Paulo mais tarde, ou pelo menos um dirigente. Ele incorporou o time. Quando o São Paulo perde, ele perde. O cara veste a camisa de verdade.

De cada 100 boleiros, 90 tomam cerveja... Jogador de futebol pode ser considerado atleta?
Pode. Esse tabu de que atleta não pode fazer nada na vida tem que acabar. As pessoas acham que nós somos santos. É diferente, os atletas foram regrados a vida inteira, mas tomam cerveja. Eu, por exemplo, bebia, saía à noite, me relacionava com mulheres, mas tudo na hora certa. É claro que se existir uma competição importante, o atleta tem que dormir bem, mas se ele está nos dias de descanso, qual o problema? Muitas vezes o cara sai pra um bar pra esquecer, pra espairecer. Claro que tem jogador que quebra tudo e que é baladeiro mesmo, como tem tenista, jogador de basquete... O mundo é assim.

Voltando pra sua praia, você manda bem com qualquer raquete na mão?
(Risos). As pessoas acham que jogadores de tênis são bons com qualquer raquete. Em ping-pong sou uma negação. Squash nem fala... O mais fácil que tem é frescobol, mas me garanto mesmo é no tênis.

E o Guga, vai ou racha?
O Guga está tentando recuperar o lado físico dele, que é seu grande problema. A parte técnica está esperando que o físico permita que ele jogue melhor. Eu mesmo, que sou mais próximo dele, não posso fazer qualquer tipo de especulação. O que eu acho é a mesma coisa que todo mundo acha. A resposta está dentro do corpo dele mesmo.

Bom, a Copa Fino é seu novo xodó, né não?
Eu nunca tinha imaginado fazer uma copa infanto-juvenil. Quando eu parei de jogar, senti uma vontade muito grande de olhar mais de perto a molecada, que é minha gasolina dentro do tênis. Fiquei pensando em fazer palestras ou construir quadras de tênis para treinar os meninos. Só que aí eu percebi que ia acabar pegando muito pouca gente. Aí pensei em fazer um campeonato de tênis: eis a Copa Fino.

Por causa do seu corpo, ganhou o apelido de Fininho durante a carreira. Mesmo fora das quadras, você adotou o apelido?
Quem me deu esse apelido foi o Dácio Campos (ex-tenista) quando eu tinha uns 17 ou 18 anos de idade. Na verdade não fui eu quem adotou o apelido, adotaram pra mim (risos). Eu já era chamado de Mogli (o menino lobo), Ringo Star (Beatles), Esqueleto (do He-Man) e Fininho. É sempre assim, a galera adota o apelido que você menos gosta.