2006 - EDIÇÃO 58

Feijoada no Bistrô
Por Jorge Nicola
Kim e André Luís comemoram título da Copa da Liga Francesa, em março

Apaixonante por sua diversidade gastronômica, a França sempre lutou para deixar de ter um futebol sem sal. E conseguiu nesta temporada, graças à ajuda de 28 “chefs” brasileiros que espalham um tempero especial pelo Campeonato Francês, com a pimenta dos baianos, o churrasco dos gaúchos, o feijão dos mineiros...

“A cozinha francesa não costuma aceitar estrangeiros, e isso também existia no futebol”, revela o francês Emmanuel Bassoleil, um dos mais prestigiados cozinheiros do mundo. “Porém, com o bom temperinho especial do Brasil, o futebol francês acabou engolindo os boleiros pentacampeões”. E com muito gosto.

Depois do tremendo sucesso de Juninho Pernambucano, Cris, Caçapa e Fred pelo Lyon, a terra da Torre Eiffel e do Arco do Triunfo se rendeu ao molejo e à irreverência típica dos brazucas. Nunca o campeonato local teve tantos brasileiros como agora – Alemanha e Itália, por exemplo, conta com menos “importações” legitimamente nacionais que a França.

Grafite, Túlio e Paulo André são as estrelas do elenco do Le Mans

A receita brasileira de jogar o bom futebol virou referência. Atual pentacampeão francês, o Lyon caminha a passos largos rumo ao sexto título graças ao molho brasileiro. Fred é o artilheiro do time com sete gols, Juninho Pernambucano ocupa a liderança em assistências e Cris goza do status de atleta que mais minutos atuou – 1.270 na temporada 2006/2007. O Lyon, inclusive, é o recordista em boleiros do nosso País. O Bordeaux aparece logo atrás, com três atletas (o zagueiro Henrique, o volante Fernando e o meia Wendel), além do técnico Ricardo Gomes.

Como a Primeira Divisão é formada com 20 clubes, a média é de mais de um brasileiro por time. Somente os pequenos Lorient, Sedan e Vallenciennes, e o médio Auxerre não contam com atletas formados nos campos de várzea canarinho em seus elencos.

“Somos tratados como heróis na cidade depois que conseguimos o título da Copa da Liga”, revela o zagueiro André Luís, do Nancy, referindo-se à conquista do campeonato, em março – desde 1978, quando ainda contava com Michel Platini, que o Nancy não ganhava qualquer taça. “O pessoal já me olhava de um jeito diferente pelo fato de eu ser brasileiro, agora imagina como a minha vida ficou depois que fiz o gol do título”, conta o atacante Kim, que garantiu o caneco ao Nancy ao marcar de cabeça o gol que decretou o placar de 2 a 1 sobre o Nantes, em pleno Stade de France.

 
INVADINDO A MARSELHESA
 
28 brasileiros atuam no atual Campeonato Francês
Ricardo Gomes é um dos 20 técnicos na 1ª Divisão
O Lyon é o clube com mais brazucas: quatro
Apenas Auxerre, Lorient, Sedan e Vallenciennes não contam com brasileiros

Moral alto - Revelados pelo Atlético-MG, Kim e André Luís representam bem o perfil dos brasileiros que atuam na França. Em geral, são jogadores que deixaram o País cedo, sem muito destaque e entraram na Europa pela porta dos fundos. Meses depois de ser vice-campeão da Taça Libertadores pelo Atlético-PR, em 2005, o zagueiro Paulo André tomou esse rumo: acertou com o Le Mans, em troca de uma verdadeira bolada.

“Vim atrás das oportunidades que irão abrir se eu conseguir me firmar aqui”, admite Paulo André, que tem passaporte italiano e, portanto, não ocupa uma das vagas destinadas aos estrangeiros. “Senti bastante dificuldade no começo, porque o estilo de jogo e a velocidade da partida são bem diferentes daqueles que estava acostumado. Mas com o jeitinho brasileiro se consegue tudo”, reconhece o xerifão, que joga com Grafite (a contratação mais cara da história do clube) e Túlio.

Parece mesmo que todo dia é dia de feijoada na França. Não é em qualquer lugar que tudo acaba em pizza, não é mesmo Emmanuel Bassoleil? “Atualmente os franceses gostam bastante da culinária do Brasil. Por isso, temos que mostrar uma nova gastronomia e não ficar exportando só os pratos tradicionais, precisamos mostrar todos os nossos sabores. Assim como no futebol, a grande riqueza da comida brasileira é a variedade de matérias-primas”, responde o talentoso chef

 
OS BRASILEIROS NA FRANÇA
 
Bordeaux: Henrique (ex-Flamengo), Fernando (ex-Juventude) e Wendel (ex-Santos)
Le Mans: Paulo André (ex-Atlético-PR), Túlio (ex-Aalborg) e Grafite (ex-São Paulo)
Lens: Hilton (ex-Bastia) e Jussie (ex-Cruzeiro)
Lille: Michel Bastos (Fig) e Rafael (Malutrom)
Lyon: Caçapa (ex-Atlético-MG), Cris (ex-Cruzeiro), Juninho Pernambucano (ex-Vasco) e Fred (ex-Cruzeiro)
Olympique de Marselha: Leo (ex-Flamengo)
Monaco: Bolivar (ex-Internacional)
Nancy: André Luís (ex-Atlético-MG), Adailton (ex-Criciúma) e Kim (ex-Atlético-MG)
Nantes: Adriano (ex-Juventude)
Nice: Ederson (ex-Juventude)
PSG: Paulo César (ex-Santos)
Rennes: Adaílton (ex-Vitória)
Saint-Etienne: Ilan (ex-Atlético-PR)
Sochaux: Álvaro (ex-Copenhague)
Toulouse: Fabinho (ex-Santos)
Troyes: Ferreira (ex-Olympique) e Weldon (ex-Cruzeiro)