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Com
o espírito de um jovem revoltado, mas nada moleque,
Gastão Moreira provou para o Fatto Olé
que sua ideologia não perde a força. Formado
em Direito pela PUC e há quatro anos em Floripa,
acaba soltando um “tu” ou “ti”
numa conversa com resquício de sotaque paulistano.
No auge dos seus “quarentão”, como
ele mesmo diz, o apresentador, músico e então
diretor do documentário Botinada – A
origem do Punk no Brasil acredita que a garra dos
punks faz falta no futebol brasileiro e diz que a solução
do Corinthians é mandar Alberto Dualib para o
inferno.

É difícil vestir a camisa de algum movimento
no Brasil?
GASTÃO - O Brasil tem uma característica
de sempre incorporar movimentos. Isso começou
faz tempo com a Antropofagia do Oswald de Andrade, que
propunha assimilar as coisas de fora mas sempre com
uma característica local. Hoje em dia é
difícil vestir alguma camisa, eu mesmo não
me identifico com nenhum movimento. E acho que os punks
também não. Nos anos 70 sim, se identificavam
com o movimento estudantil pois eles tinham um inimigo
em comum, a ditadura e o governo.
Qual idéia punk falta ao futebol brasileiro?
Um pouco de raça, de insatisfação.
Os jogadores estão muito bem de vida e não
têm muito motivo pra suar a camisa.
O punk continua com a proposta de pintar de
negro a asa branca?
O punk veio para incomodar a MPB, porque a música
brasileira estava encostada na época do surgimento
do movimento aqui no Brasil. Mas ele sem dúvida
continua incomodando essa nossa cultura pop.
Você chegou aos 40, então conta:
a idade pesa ou ainda dá pra correr atrás
da bola?
O joelho dói, mas eu corro atrás da bola,
tenho sede de gol.
Gastão, eleição e Copa
no mesmo ano… Foi uma jogada furada?
A gente fez papelão nos dois âmbitos. O
Lula poderia se apropriar muito mais com uma vitória
do Brasil na Copa, mas ele não teve esse gostinho
como o Médici, nos anos 70.
Se você pudesse escolher alguém
para ser presidente, qualquer pessoa, quem escolheria?
Acho que escolheria o cineasta Glauber Rocha. Ele teria
visões diferentes do nosso País. Agora,
se fosse para escolher alguém vivo, o (Fernando)
Gabeira, um cara bacana e com postura, que quer quebrar
tabus.

E para ser o técnico da Seleção?
Sem dúvida nenhuma botaria o Felipão.
Ele é um técnico punk, manda dar botinada
nos outros, faz com o time vá pra cima. Ele é
o homem.
Qual foi a maior bola no ângulo da sua
vida?
O teste da MTV. Eu tinha acabado de chegar da Inglaterra,
não tava nem aí pra nada e mandei bem,
saí de lá satisfeito, foi uma bola dentro
que mudou minha vida inteira.
E a maior canelada?
Tomei várias, mas que eu dei foi fazer o Musikaos,
da Cultura. Era um programa pra um pequeno público
e eu dei uma botinada na TV de baixo calão. Nós
levávamos poetas, cineastas, circos, músicos.
Foi uma batalha periférica, mas que incomodou.
Já fez alguma loucura pelo Timão?
Toda vez que o Corinthians vem pra Floripa eu assisto.
Quando morava em São Paulo ia a quase todos os
jogos mesmo debaixo de temporais, coisa que eu jamais
faria hoje em dia. Ia a pé, de ônibus,
fazia uma epopéia pra ver o time perder muitas
vezes. Uma vez, em 1986, demorei umas três horas
pra chegar no estádio, era uma semifinal entre
Corinthians e Palmeiras. O Coringão perdeu por
2 a 1. Nesse dia eu até tomei cacetada da polícia...
Se pudesse mudar alguma coisa no Corinthians,
o que faria?
A diretoria em primeiro lugar. Mandava o (Alberto) Dualib
pro inferno e a MSI pro Irã.
O que falaria para o Leão?
Bota ordem na casa, velho.

Por que boleiro só ouve pagode?
Eu estava conversando com o Casagrande exatamente sobre
isso há alguns dias e não chegamos a nenhuma
grande conclusão. Talvez seja a maneira que os
jogadores encontraram de manter um cordão umbilical
com suas origens. Mostrar que não mudaram muito.
O que você acha que mais mobiliza o nosso
povo, futebol ou fé?
Acho que a fé... O Brasil é um país
muito crente. As igrejas são verdadeiros templos.
Nós quase não temos ateus no País.
Mas isso porque o futebol também exige muita
fé.
Qual o maior inimigo do povo brasileiro?
Sem cair no chavão, é a corrupção.
Dinheiro desviado, essa bagunça toda. E está
tudo relacionado, o tráfico, a política.
Se a corrupção não existisse, não
teríamos espaço para a bandidagem agir
como um segundo Estado.
Gastão Moreira por Gastão Moreira.
Uma criança que sonhava em ser arqueólogo
e que, depois de crescida, através da música
encarnou uma porção Indiana Jones.
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