2006 - EDIÇÃO 56

Gastão, um rebelde com causa
Por Nathalia Pazini, especial para o Fatto Olé

Com o espírito de um jovem revoltado, mas nada moleque, Gastão Moreira provou para o Fatto Olé que sua ideologia não perde a força. Formado em Direito pela PUC e há quatro anos em Floripa, acaba soltando um “tu” ou “ti” numa conversa com resquício de sotaque paulistano. No auge dos seus “quarentão”, como ele mesmo diz, o apresentador, músico e então diretor do documentário Botinada – A origem do Punk no Brasil acredita que a garra dos punks faz falta no futebol brasileiro e diz que a solução do Corinthians é mandar Alberto Dualib para o inferno.

Foto: Ferrari É difícil vestir a camisa de algum movimento no Brasil?
GASTÃO - O Brasil tem uma característica de sempre incorporar movimentos. Isso começou faz tempo com a Antropofagia do Oswald de Andrade, que propunha assimilar as coisas de fora mas sempre com uma característica local. Hoje em dia é difícil vestir alguma camisa, eu mesmo não me identifico com nenhum movimento. E acho que os punks também não. Nos anos 70 sim, se identificavam com o movimento estudantil pois eles tinham um inimigo em comum, a ditadura e o governo.

Qual idéia punk falta ao futebol brasileiro?
Um pouco de raça, de insatisfação. Os jogadores estão muito bem de vida e não têm muito motivo pra suar a camisa.

O punk continua com a proposta de pintar de negro a asa branca?
O punk veio para incomodar a MPB, porque a música brasileira estava encostada na época do surgimento do movimento aqui no Brasil. Mas ele sem dúvida continua incomodando essa nossa cultura pop.

Você chegou aos 40, então conta: a idade pesa ou ainda dá pra correr atrás da bola?
O joelho dói, mas eu corro atrás da bola, tenho sede de gol.

Gastão, eleição e Copa no mesmo ano… Foi uma jogada furada?
A gente fez papelão nos dois âmbitos. O Lula poderia se apropriar muito mais com uma vitória do Brasil na Copa, mas ele não teve esse gostinho como o Médici, nos anos 70.

Se você pudesse escolher alguém para ser presidente, qualquer pessoa, quem escolheria?
Acho que escolheria o cineasta Glauber Rocha. Ele teria visões diferentes do nosso País. Agora, se fosse para escolher alguém vivo, o (Fernando) Gabeira, um cara bacana e com postura, que quer quebrar tabus.

Foto: Ferrari E para ser o técnico da Seleção?
Sem dúvida nenhuma botaria o Felipão. Ele é um técnico punk, manda dar botinada nos outros, faz com o time vá pra cima. Ele é o homem.

Qual foi a maior bola no ângulo da sua vida?
O teste da MTV. Eu tinha acabado de chegar da Inglaterra, não tava nem aí pra nada e mandei bem, saí de lá satisfeito, foi uma bola dentro que mudou minha vida inteira.

E a maior canelada?
Tomei várias, mas que eu dei foi fazer o Musikaos, da Cultura. Era um programa pra um pequeno público e eu dei uma botinada na TV de baixo calão. Nós levávamos poetas, cineastas, circos, músicos. Foi uma batalha periférica, mas que incomodou.

Já fez alguma loucura pelo Timão?
Toda vez que o Corinthians vem pra Floripa eu assisto. Quando morava em São Paulo ia a quase todos os jogos mesmo debaixo de temporais, coisa que eu jamais faria hoje em dia. Ia a pé, de ônibus, fazia uma epopéia pra ver o time perder muitas vezes. Uma vez, em 1986, demorei umas três horas pra chegar no estádio, era uma semifinal entre Corinthians e Palmeiras. O Coringão perdeu por 2 a 1. Nesse dia eu até tomei cacetada da polícia...

Se pudesse mudar alguma coisa no Corinthians, o que faria?
A diretoria em primeiro lugar. Mandava o (Alberto) Dualib pro inferno e a MSI pro Irã.

O que falaria para o Leão?
Bota ordem na casa, velho.

Foto: Ferrari Por que boleiro só ouve pagode?
Eu estava conversando com o Casagrande exatamente sobre isso há alguns dias e não chegamos a nenhuma grande conclusão. Talvez seja a maneira que os jogadores encontraram de manter um cordão umbilical com suas origens. Mostrar que não mudaram muito.

O que você acha que mais mobiliza o nosso povo, futebol ou fé?
Acho que a fé... O Brasil é um país muito crente. As igrejas são verdadeiros templos. Nós quase não temos ateus no País. Mas isso porque o futebol também exige muita fé.

Qual o maior inimigo do povo brasileiro?
Sem cair no chavão, é a corrupção. Dinheiro desviado, essa bagunça toda. E está tudo relacionado, o tráfico, a política. Se a corrupção não existisse, não teríamos espaço para a bandidagem agir como um segundo Estado.

Gastão Moreira por Gastão Moreira.
Uma criança que sonhava em ser arqueólogo e que, depois de crescida, através da música encarnou uma porção Indiana Jones.