2006 - EDIÇÃO 56

A vida louca de Elano
Por Jorge Nicola

Você não imagina as confusões, as roubadas e as frustrações que o novo queridinho da Seleção Brasileira enfrenta no futebol ucraniano. Perto de completar dois anos no Shakhtar, Elano abriu o jogo para o Fatto Olé, direto da cidade de Donetsk. O ex-santista não vê a hora de mudar de praia. Temperaturas de 28º C negativos, idioma incompreensível, baixíssimo nível do futebol e alguns bons micos dentro e fora de campo serviram para tirar do sério até quem cresceu em meio ao corte de canas de açúcar, como bóia-fria, ao lado dos pais, em Iracemápolis, no interior de São Paulo.

Elano comemora gol contra Argentina

“Acho que em janeiro, quando o mercado de transferências na Europa reabrir, as sondagens que recebi nos últimos dias irão virar propostas concretas e eu conseguirei realizar meu desejo de jogar num país com mais tradição”, admite o Elano, em entrevista exclusiva.

O fato de ter virado xodó de Dunga está o ajudando. Com os dois gols marcados na vitória do Brasil sobre a Argentina por 3 a 0, em amistoso realizado em setembro, Elano virou o alvo de clubes da Inglaterra e da Espanha. Quem não gostou muito foi o presidente do Shakhtar, Rinat Akhmetov. “O homem não quer me liberar de jeito nenhum. Me comprou até uma casa bacana”, conta o meia.

O novo lar, com quatro quartos, quintal espaçoso e num bairro bastante arborizado, em nada lembra o apartamentinho modesto onde ele passou alguns dos momentos mais duros da vida. Porque, apesar da bolada que recebe mensalmente (quase dez vezes mais que na época do Santos), Elano penou demais enquanto morou no quarto-e-sala alugado pelo Shakhtar. “O apartamento era ridículo. Nada lá funcionava, porque as instalações eram muito antigas”, lembra. “Como não havia garagem para o carro, eu tinha de acordar sempre uma hora mais cedo, para ficar tirando a neve que ficava em cima dele.”

Pelo Shakhtar , com o brasileiro Brandão

E não era pouca neve, não. “Cheguei a ter de treinar com menos 28º C. Eu chorava quando saía de casa, pensando que precisaria correr atrás de uma bola com essa temperatura”, admite o garoto de 25 anos, que ainda hoje não encontrou a fórmula para escapar do congelamento. “Me encho de roupa, coloco touca, uso pomada nos pés e mãos, e deixo só os olhos para fora, mas nada funciona.”

ENTRANDO NUMA FRIA – A pacata cidade de Donetsk está localizada a sudoeste da Ucrânia, e fica bem mais próxima da divisa com a Rússia (cerca de 100 quilômetros) do que da própria capital do país, Kiev, que está a quase 600 quilômetros de distância. Somente nos meses de junho, julho e agosto, a população local consegue escapar das baixas temperaturas para até arriscar bermudas, saias ou roupas mais curtas.

Brasileiro foi capa da revista do Shakhtar

Elano viveu sua maior alegria em território ucraniano há nove meses, quando nasceu sua primeira filha, Maria Teresa. Usando a camisa número 36 do Shakhtar, ele também teve momentos animadores – é o atual artilheiro da equipe no ano e tem dois títulos nacionais. “Eu e os outros cinco brasileiros do time (Jadson, Fernandinho, Brandão, Leonardo e Matusalém) conseguimos fazer do time o mais forte. Até porque o pessoal por aqui costuma correr muito e pensar pouco”, dispara.

Nome certo em todas as convocações de Dunga até o momento, e com o passaporte recém-obtido da Comunidade Européia, o brasileiro alcançou fama de pop-star na Ucrânia. Num dos três encontros anuais promovidos pelo Shakhtar entre torcedores e jogadores, 99% das perguntas dos fãs foram para Elano. "Teve gente querendo saber se o Kaká é realmente bonito, se o Ronaldinho Gaúcho é legal, se o Robinho é brincalhão..." Fala sério.