2006 - EDIÇÃO 55

Ilustração: Gustavo Stojkow

Felipe Massa trocou o capacete pela bola de futebol só para deixar o Fatto Olé na cara do gol. Você sabia que o baixinho é o craque do time entre os pilotos-boleiros da Fórmula 1? Durante bate-papo de mais de uma hora, o ídolo brasileiro revela segredos interessantes dos bastidores da categoria. Entre outras confidências, o são-paulino da escuderia Ferrari conta que Rubens Barrichello é um baita grosso: “ele não manja nada de futebol”.

Foto: Ferrari Rola nos bastidores da F-1 o papo de que você é o craque do time dos pilotos...
FELIPE MASSA – É verdade. Não dá para esconder que o nível da turma é baixo, mas pelo menos eu me salvo. Jogo de ponta-direita e aproveito minha velocidade para criar as jogadas para os companheiros. Mas também meto meus golzinhos.

É comum no Brasil que o primeiro presente de cada menino seja uma bola. Com você também foi assim?
Foi. Exatamente como todos os meus amigos. Eu deveria ter lá pelos dois anos quando meu pai (Titonio Massa) apareceu com uma bola. A paixão pela velocidade só veio depois, já com uns cinco anos, quando ganhei uma bicicleta. Em seguida me deram uma moto e mais para frente passei para o kart.

E o futebol ficou de lado?
Um pouquinho. Para ser bem sincero, tenho conseguido jogar bola nos eventos da própria F-1. Toda quinta-feira que antecede um Grande Prêmio tem futebol entre o pessoal da Ferrari, e eu não perco um. Também rolam os jogos entre os pilotos, e só perco um ou outro.

Então quer dizer que a estrela dos pilotos-boleiros não dá o ar de sua graça em toda pelada?
Mas tem uma explicação boa: é que eu não gosto de jogar quando convidam os jogadores profissionais. Os caras são muito melhores que a gente, porque vivem disso, e fazem de tudo para nos humilhar. Ou você não lembra do rolinho que o Robinho deu no Schumacher em 2004, lá na Vila Belmiro? Sem contar que há sempre uma chance grande de a gente se machucar, porque eles são muito mais fortes, encorpados, e entram em cada dividida para rachar.

Foto: Ferrari Além de você, quem mais tem talento com a bola nos pés?
O Fernando Alonso tem bastante noção. O (Giancarlo) Fisichella também sabe o que fazer quando vai ao ataque, e o (Vitantonio) Liuzzi é daquele tipo artilheiro. Também incluiria o Schumacher no time dos melhores, mas por causa do fôlego dele. O cara joga toda semana num time semiprofissional e corre feito louco. Ele é daquele tipo volante que está em todas as partes do campo, sabe? Apesar de não ter aquele remelexo todo, melhorou bastante nos últimos anos.

Essa parceria entre você e o Schumi no futebol ajudou no relacionamento dentro e fora das pistas de velocidade?
Ah, com certeza sim. Até porque ele é meio fechadão, e o futebol serviu para quebrar o clima. Cansei de pôr ele na cara do gol, e as coisas entre a gente, a partir daí, melhoraram bastante. Não considero o Michael um amigo, pois não existe amizade na F-1. Mas ele é um grande companheiro, e existe muita lealdade das duas partes.

E quem são os grandes pernas-de-pau?
O Rubinho está no topo da lista, viu. Ele é muito grosso, não manja nada de bola e também nem gosta. O mais engraçado de tudo é que ele não aceita que você diga que ele é ruim. É capaz até de ele ficar bravo comigo por eu estar falando isso nesta entrevista (risos).

Vocês, pilotos, já jogaram futebol em todos os cantos do planeta. Qual é a melhor recordação dessas peladas?
Uma vez fizemos uma partida na Alemanha para quase 60 mil pessoas. Foi um barato, porque tinha gente demais assistindo, e eu nunca tinha vivido essa realidade. Na Hungria também teve um episódio bem legal: fomos jogar num estádio pequeno, para 12 mil pessoas, eu acho, e tinha quase o dobro de gente.

Foto: Ferrari E rola alguma rivalidade entre os pilotos dentro de campo?
Não, o que acontece é que a rivalidade das pistas é levada para o campo. Vou dar um exemplo: o Alonso sempre jogou com a gente, e adora futebol. Só que depois que ele e o Schumacher começaram a se estranhar publicamente, por causa das provas deste ano, nunca mais apareceu para jogar bola.

São-paulino que é, você acha que o tetra no Brasileirão já está garantido?
É só uma questão de tempo, mas o título já é nosso. E o São Paulo merece ser campeão, porque foi melhor que os adversários desde o comecinho. Quem sabe a gente não assegura o campeonato contra o Santos, que é o time do meu pai.

Ah, então rola uma disputa em casa?
Meu pai sempre quis que eu fosse santista. Cheguei até a torcer para o Santos quando era criança, mas, conforme fui crescendo, virei são-paulino. Na época que decidi mudar de time, o São Paulo ganhava tudo e a maioria dos meus amigos era tricolor. Então acabei aderindo.

Mas você é daqueles fanáticos?
Só não fui mais ao estádio porque cresci em Botucatu (cidade a 225 quilômetros de São Paulo), e era complicado pegar tanta estrada. Mas sou são-paulino fanático, sim. Nesse ano cheguei a ir ao Morumbi, num jogo contra o Chivas (em que o Tricolor foi derrotado e perdeu uma invencibilidade de 29 jogos em casa na Taça Libertadores). Só porque os mexicanos conseguiram acabar com esse tabu a turma passou a me chamar de pé-frio. Depois, também, fiquei com raiva e não fui mais.