2006 - EDIÇÃO 54

A verdade sobre a camisa 10
Por Nathalia Pazini, especial para o Fatto Olé

Pode ser num campo de várzea, num clássico entre Barcelona e Real Madrid ou numa final de Copa do Mundo. Todos os olhos do público vão estar sempre voltados para um só jogador: o dono da camisa 10. Depois de muito fuçar, o Fatto Olé descobriu porque cargas d'água essa camisa é garantia de sucesso. Afinal de contas, vestiu, levou a fama. O 10 teve e ainda tem papel decisivo no futebol mundial. Magia, feitiço, sorte ou coincidência?

Ilustração: Evandro RodriguesO mito começou com uma distribuição aleatória de camisas que a Fifa fez para a Seleção Brasileira na Copa de 58. Isso porque nos anos 50 a numeração não tinha muita importância. O resultado foi meio estranho. Por exemplo, a três ficou com o goleiro Gilmar; o ponta-direita Garrincha ganhou a 11; o meia Didi levou a seis; e Pelé calhou de ficar com a camisa 10. O sucesso na Copa fez nascer a crença na camisa. O Rei, a partir daí, só trocou o número uma vez, num jogo em que começou no banco de reservas, diante da Áustria, em 1972. Como a tradição não permite que um 10 fique de reserva, o supersticioso Zagallo fez com que ele usasse a 13.

Autor do livro A Magia da Camisa 10, o escritor André Ribeiro tem na ponta da língua as características do homem que usa o manto sagrado. “Ele precisa contar com rebeldia com a bola nos pés, bom temperamento e acima de tudo genialidade”, explica. Em sua obra, ele conta a história dos grandes personagens. “A 10 é um dom. São geralmente homens especiais, que estão no lugar certo e na hora certa... Eles são predestinados.”

Só para refrescar a memória e reforçar a teoria da mística: Maradona, Zidane, Zico, Ademir da Guia, Eusébio, Puskas e Platini são alguns nomes que marcaram o futebol mundial e coincidentemente usaram a 10. Mas quem nasceu primeiro? Ou seja, esses jogadores viraram craques por vestirem a 10 ou vestiram a 10 porque viraram craques?

Neto, o grande camisa 10 da história do Corinthians, reconhece que carregar o número às costas não é uma missão simples. “Sempre me senti cobrado. Se o time perde o jogo, a culpa é toda do 10. A camisa se tornou sinônimo de futebol arte”. O meia André Luiz, do Santos, concorda. “Sinto-me honrado em jogar com a camisa 10 que foi de Pelé, mas é uma grande responsabilidade”.

Ilustração: Evandro RodriguesTalvez com medo da pressão da camisa que já foi de Pelé, Robinho só foi vestir a 10 quando se transferiu para o Real Madrid – enquanto esteve na Vila Belmiro, entre 2002 e 2005, ele usou a sete. Há também craques que, por ironia do destino, nunca sentiram essa responsabilidade, como Kaká e o uruguaio Pedro Rocha. Já a 10 que foi do argentino Tevez, no Corinthians, virou item em liquidação em todas as lojas – revoltados com a saída do atleta do Parque São Jorge, os torcedores não a querem nem pintada de ouro. Outro que ficou com o filme bem queimado foi o italiano Roberto Baggio. Quem não se lembra do pênalti perdido na final da Copa de 1994 contra o Brasil?

Atualmente, esquemas cada vez mais defensivos e prioridade ao futebol de força têm diminuído o brilho dos donos das camisas 10. Há até uma crença de que já não se fazem mais meias cerebrais como antigamente. Ou você é capaz de encontrar três meio-campistas fora-de-série no País? “A falta de verdadeiros camisas 10 é resultado da falta de romantismo no futebol”, avalia André. Já Neto é mais incisivo: “É culpa dos treinadores que optaram por esquemas táticos defensivos e que não formam mais jogadores de divisão de base. Só os criam para vender.”