2006 - EDIÇÃO 53

Ilustração: Gustavo Stojkow
Direção: Juliana Nottoli - Realização: Nathalia Pazini - Fotos: Gustavo Stojkow

FATTO OLÉ - Quem é mais você: Rachel Pacheco ou Bruna Surfistinha?
BRUNA SURFISTINHA - No dia-a-dia sou mais a Bruna Surfistinha. Ela é quem toma conta do meu tempo. Tenho que cuidar mais dela, que paga as minhas contas. A Rachel ainda não tem autonomia, se eu quiser trabalhar em alguma coisa eu ainda tenho que estudar. E não tenho tempo para isso. Atualmente me dedico mais à Bruna Surfistinha.

Foto: Gustavo StojkowVocê deu entrevista para o New York Times, a BBC e até mesmo para a rede árabe Al Jazeera… O livro vai virar filme...A Bruna Surfistinha não está indo longe demais?
Está, e eu não esperava esse sucesso. Tanto que quando lancei o livro aqui no Brasil, em novembro do ano passado, a primeira edição foi de 10 mil exemplares e na época eu tinha mais ou menos 20 mil leitores no blog por dia. Achava que mais ou menos uns cinco mil leitores poderiam comprar o livro. E com esse número já estaria muito feliz. Eu imaginava que sofreria preconceito, e que a mídia fosse me estigmatizar e depois me deixar de lado. Mas não é o que está acontecendo.

Fala sério, você se sente um peixe fora do aquário?
Têm algumas situações que sim. Por exemplo, sinto que em algumas entrevistas as pessoas querem que eu apareça para dar ibope. Elas me usam. Isso acontece direto nos programas de TV. Às vezes isso faz até bem pra mim, porque eu consigo expor um outro lado, o que eu gosto e o que eu sou. Agora, um peixe fora d’água no sentido de me sentir diferente de outras pessoas, isso de jeito nenhum. Mesmo porque eu sei que existem pessoas que fingem, que se fazem de santas e não existe ninguém que não tenha cometido nenhum erro na vida.

De garota de programa à dona de casa... O que mudou na sua vida?
O ritmo. Antes o telefone tocava o dia todo e eu atendia aos clientes, tinha dia que eu não parava. Eu não tinha tempo pra algumas coisas simples como assistir a TV, a um filme, ler um livro, uma revista. Depois dessa transição a minha vida acalmou muito.

Se você fosse escrever um dicionário sobre a vida brasileira, o que diria num verbete, por exemplo, sobre prostituição?
Prostituição é uma opção de vida que as mulheres têm. Não vendem apenas o corpo, porque pra mim não é só isso, a garota de programa acaba sendo uma amiga, uma psicóloga . É uma troca de aprendizado na vida. Eu aprendi muito com meus clientes e eles também aprenderam muito comigo. Não só sobre sexo mas com outras coisas na vida. A prostituição foi uma escola pra mim.

Foto: Gustavo StojkowQual a importância do sexo na sua vida?
Eu considero o sexo muito importante ainda, embora eu faça sexo apenas com meu namorado ultimamente. É claro que a base de uma relação é o amor e a cumplicidade, mas o sexo faz muita diferença na relação. Se o sexo não está bom pro casal, a relação acaba tendo muitos atritos, da mesma forma que o dinheiro é muito importante.

Você se considera uma espécie de ilha da fantasia sexual?
Não sou expert em sexo. Por mais que eu tenha feito muito sexo por três anos, eu não sei tudo. Sempre tem alguma coisa que estou aprendendo. Eu acredito que já tenha visto de tudo entre quatro paredes, mas quando o assunto é sexo a mente humana ultrapassa esse mundo.

Na boa, quando os homens pensam em você hoje, pensam no quê?
Têm alguns que pensam que devo ser vagabunda ou fútil, que continuo ganhando dinheiro fácil contando as minhas histórias. Também têm homens que me elogiam pela minha coragem.

Antes, valorizava-se a tradição. Hoje, o que se valoriza é a riqueza rápida?
Sim, porque todos sabem que a vida é muito curta, passa muito rápido. As pessoas querem atingir o sucesso e a estabilidade financeira para curtir mais a vida. Porque por mais que as pessoas falem que o dinheiro não é importante na vida, sem ele ninguém consegue fazer nada.

Espelho, espelho meu, qual terá sido a sua maior contribuição para o País?
Foi sempre passar a imagem de que eu aproveito a minha vida, que eu não tenho medo de realizar as coisas - como muitas pessoas têm. A vida é curta e a gente tem que fazer o que tem vontade. Com as mulheres, minha contribuição foi ajudar. Dei umas dicas do que os homens gostam, produzi os dez mandamentos na cama.

Teme a velhice?
Morro de medo. Eu acho a velhice muito triste. Quando eu vejo um velhinho fico procurando um olhar feliz e não é fácil de encontrar. Mas ao mesmo tempo eu vou ser uma velha que curtiu muito a vida, que sabe que fez tudo o que tinha vontade. Eu vou morrer feliz.

Bruna Surfistinha joga o jogo da equipe do Fatto Olé

Faça um paralelo entre prostituição e andar de bicicleta (uma coisa que você aprende e nunca mais esquece).
Cada dia é uma caixinha de surpresas na prostituição. Eu nunca soube com que tipo de homem estava lidando. Eu já saí com caras de todos os tipos, desde assassino de aluguel até celebridades. Quando você anda de bicicleta é sempre a mesma coisa, tem que pedalar, segurar o guidão... Na prostituição não, cada dia a gente tem que conviver com pessoas diferentes.

Bruna Surfistinha por Bruna Surfistinha.

A Bruna depende da Rachel, mas ao mesmo tempo é um pouco diferente dela. Ela é mais fria, pensa mais no dinheiro. A Bruna é mercenária.

Ilustração: Gustavo Stojkow