2006 - EDIÇÃO 52

Profissão: Mulher de Boleiro
Por Jorge Nicola

A lista de mulheres que sonham em ser casadas com jogadores de futebol é enorme. Há até a conhecida classe das maria-chuteiras, formada por interessadas em pegar uma carona na fama e na grana dos boleiros. Mas a realidade daquelas que trocaram alianças com atletas é, em geral, bem menos glamorosa e feliz do que se imagina.

Ouvidas pelo Fatto Olé, muitas donas dos corações de ídolos de São Paulo, Inter, Botafogo, Corinthians, Cruzeiro e Palmeiras reclamam. E como reclamam. Solidão, mudanças de endereço e infidelidade são as situações que mais causam tristeza nelas. “O grande problema é que o marido delas quase nunca está em casa”, reconhece o ex-gerente de futebol da MSI, Paulo Angione.

Nos tradicionais almoços de família aos domingos, eles são ausência certa. Afinal, domingo é dia de jogo. E não é só: se há um programa para sábado à noite, descarte ter a companhia do amado, já que as concentrações acontecem, pelo menos, 24 horas antes de cada partida. “A gente sofre de saudade”, admite Amanda, companheira de todas as horas do zagueiro são-paulino Fabão.

Por causa de jogos, concentrações e demais atividades ligadas ao futebol, a boleirada quase não pára em casa. “Hoje tem jogo em Recife, no domingo vamos a Presidente Prudente e uma semana depois vai saber onde estaremos”, lamenta o meia-atacante Marcinho, citando a maratona enfrentada pelo seu Palmeiras. “Às vezes acho que sou uma visita na minha própria casa”, brinca o meia Carlos Alberto, do Corinthians.

Endereço fixo?

Não exija que uma mulher de boleiro lembre de cabeça o nome da rua onde mora, o bairro, tampouco o CEP. No futebol atual, há jogadores que mudam de clube até cinco vezes numa mesma temporada. O atacante Luizão é um ótimo exemplo. Atualmente no Flamengo, ele já carregou a mulher e os filhos para Santos, São Paulo, Japão... A esposa de Luizão revelou a amigas que não agüenta mais esse vai-e-vem.

As conseqüências das constantes mudanças são trágicas. Longe dos pais e do marido, elas se vêem sem amigas e completamente isoladas de tudo. Muitas acabam entrando em depressão, enquanto várias outras pedem o divórcio. Há ainda aquelas que reclamam tanto da situação que acabam infernizando os maridos. “O divórcio é bastante comum no meio do futebol”, avalia o técnico Tite. O lateral e volante Rogério, agora do Fluminense, já está no quarto casamento.

Dois outros fatores contribuem para as separações: o primeiro é o fato de várias uniões começarem quando o casal é ainda muito novo; e o segundo se dá pela infidelidade da parte masculina. São raros os jogadores capazes de resistir à aventura com marias-chuteiras. Apontado como uma das revelações do Brasileirão, o atacante Marcelinho, do São Caetano, casou com 17 anos. O meia Élson, do Cruzeiro, foi além: ele trocou alianças pouco depois de completar 16 anos.

Nesse meio em que a imagem nem sempre corresponde à realidade, mais felizes são as mulheres dos craques do Paraná. Por decisão do técnico Caio Júnior, foi criado no clube um departamento social voltado apenas a elas. Lá há atividades para todos os gostos: desde malhação, passando por artesanato, tricô e cursos profissionalizantes. “Além de ocuparem a cabeça, isso tudo serve para integrá-las. Elas mais felizes deixam meus jogadores mais felizes, e o time rende mais”, explica o treinador, que comanda uma das campanhas mais surpreendentes do Brasileirão.