2006 - EDIÇÃO 52

Um caipira em New York
Por Jorge Nicola

Foto: DivulgaçãoDa pacata cidade de Porto Feliz para a megalópole Nova Iorque. Essa é apenas uma das inúmeras e radicais mudanças às quais Adhemar deverá passar nos próximos meses. O ex-atacante do São Caetano, um caipira assumido, está a um teste de se tornar jogador de futebol americano. No início do próximo ano ele já deverá estar morando nos EUA e encarando os bruta-montes no esporte da bola oval.

“O pior é que não sou muito chegado em hambúrguer”, admite o atleta, que abandonou o futebol há dois meses. “Também não falo nada em inglês, mas acho que consigo me virar se me arranjarem um tradutor 24 horas por dia”, acrescenta Adhemar, sem esconder a fala arrastada e o sotaque de interiorano.

A explicação para a intenção dele de largar a mordomia que tem em sua fazenda é a bolada que pode faturar numa única temporada nos EUA. “O maior salário que ganhei durante toda minha carreira como jogador não chega nem perto do que posso faturar como kicker”, justifica o principal artilheiro da história do Azulão, com 68 gols marcados. “Ainda não sei exatamente quanto embolsaria, mas seria dinheiro que não acabaria mais.”

O melhor de tudo é que Adhemar não terá de se sujeitar àquelas trombadas violentas comuns no futebol americano. “Quando me perguntaram se eu topava trocar de esporte, levei um susto. Como sou um cara baixo, e nada musculoso, me imaginei trombando com os gigantes. Seria a mesma coisa que estar parado em plena via Dutra, sendo atropelado por um caminhão enorme”, conta, para em seguida dar boas gargalhadas.

O pânico só foi desfeito quando o empresário americano que o procurou colocou os pingos nos “is”. “Ele disse que queria fazer de mim o chutador de algum time. Minha missão é mais simples: eu entro no jogo umas cinco ou seis vezes, apenas para dar uns bicões na bola, com o objetivo de acertar aquele gol deles em formato de garfo.”

Empolgado, o caipira gente-boa tratou de começar a treinar. Comprou uma bola de futebol americano e convocou os amigos e os vizinhos para lhe ajudar nos chutes em sua própria fazenda. “Já nas primeiras batidas percebi que era teta (fácil). Precisei de poucas tentativas para alcançar 50 jardas”, relembra Adhemar. “Se eu colocava a bola no ângulo do Maracanã, chutando do meio da rua, por que não iria conseguir acertar um espaço daqueles do gol americano?”.