2006 - EDIÇÃO 50

Concentração ou não, eis a questão
Por Nathalia Pazini, especial para o Fatto Olé

“Se concentração ganhasse jogo, o time dos monges beneditinos era campeão”, disse certa vez o jornalista João Saldanha. O Fatto Olé pulou o muro e invadiu um dos assuntos mais polêmicos do futebol: a concentração. Deixar uma legião de jogadores trancafiados na véspera das partidas funciona ou é mais uma balela?

Concentração do Santos no CT Rei Pelé

Antes de mais nada, é preciso fazer algumas revelações. Se tempos atrás os boleiros tinham que fugir de hotéis e escapar de seguranças para driblar a concentração, hoje tal sacrifício é desnecessário graças à internet. Um exemplo? Com a ajuda de MSN e webcams, muitos craques conseguem quase tudo. Basta um pouco de xaveco e eles passam horas se divertindo com meninas fazendo strip-tease do outro lado do computador. Se o intuito era poupar hormônios, eis uma tentativa frustrada.

Segundo estudo da Unesp (Universidade Estadual Paulista) feito com jogadores profissionais, existem alguns apontamentos positivos para a concentração como: união de pensamentos do grupo, cumprimento de regras, preparo psicológico e definição de objetivos. O atacante palmeirense Edmundo é um dos defensores da concentração. “Esse é o momento em que eu como no horário certo e descanso. Para mim, é sagrada”.

O ex-corintiano Neto, que hoje atua como comentarista da TV Record e da Rádio Transamérica, só é contra a reclusão dos atletas por mais de três dias. “Os treinadores fazem isso normalmente quando o time está perdendo muito. Desta maneira tentam colocar a culpa nos jogadores”, avalia Neto.

Campos de treino e instalações do CT do São Paulo na Barra Funda

O mesmo estudo traz ainda aspectos negativos. São eles bagunças, brigas pelo excesso de tempo recluso e desunião. Craque da Seleção na Copa de 1982, o médico Sócrates sempre se mostrou contra. “A concentração é mais uma conduta paternalista que persiste, levando a uma perda de motivação, porque, estando os jogadores distantes de seu habitat natural, o sentimento corrente é de sonolência, mau humor e relaxamento, que em nada favorecem suas performances”.

A fim de racionalizar custos, São Paulo e o Santos investiram pesadamente na construção de hotéis próprios. Nos centros de treinamento dos dois clubes, há uma estrutura montada para receber até 25 atletas, com todo o conforto do mundo. “Os grandes times devem sim investir nesse setor. O Corinthians e o Palmeiras, por exemplo, gastam horrores com hospedagem, comida...”, explica Neto, com o respaldo de já quem foi dirigente - ele trabalhou como diretor de futebol do Guarani em 2002.

Neto defende a concentração nas vésperas dos jogos

A cultura no exterior é bem diferente. Até o pequeno Le Mans, da França, já adota a concentração apenas nos jogos como visitante. “Quando a partida é em casa, a gente só se encontra no estádio, duas horas antes da partida”, revela o ex-são-paulino Grafite. Desta maneira, o Le Mans seria o clube dos sonhos do baixinho Romário, que acredita que a concentração é inútil. “Você só encontra os outros jogadores na hora da refeição e na preleção. Ela só serve pra impedir que o atleta caia na farra”.

Hexacampeão mundial com a Seleção masculina de vôlei, Bernardinho permite que seus jogadores levem as mulheres para a concentração e acredita que o método poderia funcionar no esporte bretão. “Muitas vezes a concentração do futebol é um álibi para o jogador escapar. Fugir de casa é difícil, mas na concentração é mole. Dá para ele poder fazer suas bagunças”.