2006 - EDIÇÃO 49

As mentiras do futebol
Por Nathalia Pazini, especial para o Fatto Olé

Conversa de pescador? Não, conversa de boleiro. No futebol do Brasil e do mundo existem todos os tipos de mentira: sinceras, com ou sem intenção, descaradas, deslavadas, cínicas. O Fatto Olé trouxe as maiores lorotas do planeta bola para você rir, chorar, desacreditar, mas nunca perder a paixão pelo esporte bretão.

O que não falta são os famosos “causos”. Quem não se lembra da história de Rui Rei, atacante da Ponte Preta que foi acusado de ter provocado sua própria expulsão para favorecer o Corinthians na final do Campeonato Paulista em 1977? A única confirmação que se tem até hoje é que o jogador foi desestabilizado psicologicamente minutos antes do jogo. Verdade?

E essa: Dé Aranha, então atacante do Bangu em 1969, garante ter feito um gol graças a uma ajuda um tanto quanto inusitada. “Peguei uma pedra de gelo que estava chupando e atirei na bola. O Reyes, zagueiro do Flamengo, não esperava pelo desvio da bola e ficou feito barata tonta. Então invadi a área, driblei o goleiro e fiz o gol". Alguém duvida?

Ilustração: Renato Prado“As lendas acrescentam no futebol pelo folclore do esporte como espetáculo”, avalia o jornalista e comentarista da ESPN Brasil, Celso Unzelte. Em 1989, num jogo entre Brasil e Chile, o goleiro chileno Rojas resolveu dar uma de ator. Ao notar que um rojão caiu próximo a ele, no gramado, Rojas não pensou duas vezes e tirou de dentro de sua luva uma lâmina, cortando a própria testa para fingir que foi atingido. E não é que a farsa quase deu certo. A ponto de a partida ter sido cancelada. Porém pouco depois Rojas foi desmascarado e punido com uma suspensão de dois anos, imposta pela Fifa. “Foi um corte à minha dignidade. Tive problemas em casa, com minha mulher. Meus amigos me deram as costas... Se fosse um argentino, uruguaio ou brasileiro, não teria sido suspenso.” A questão é: quem carrega uma lâmina na luva em um jogo de Eliminatória da Copa?

Para Zizinho, craque mundial na década de 60, a grande mentira do futebol foi dita em uma entrevista que Parreira deu em 1996. “Ele veio com uma história de que o sistema 4-3-3 era do Zagallo. Na verdade, foi criado em 1945 pelo uruguaio Ondino Vieira, que foi técnico do Vasco”. Parreira pego na mentira!

Já para Tostão, maior artilheiro da história do Cruzeiro e cronista esportivo atualmente, a lorota mais pesada é a política do futebol. “Estes escândalos que estamos vendo e todas estas mentiras são reflexo do continuísmo que existe no futebol”, aponta. “A gente precisa de uma mudança na política, de novas mentalidades”.

Difícil discordar. Afinal, o ex-árbitro Edílson Pereira de Carvalho está aí para comprovar. Edílson quase acabou com o Brasileirão do ano passado porque todos os 11 jogos que apitou foram anulados, lembra? O cara manipulava resultados para favorecer apostadores de loterias clandestinas na internet.

Existem também os personagens-mentiras do futebol. São aqueles que davam toda a pinta de que fariam grande sucesso, mas não vingaram. Promessas como Arinelson, a quem Luxemburgo atribuía o rótulo de novo Pelé santista, ou Adriano, meia que brilhou com a camisa da Seleção em todas as categorias de base, mas nunca se firmou no São Paulo, no Guarani e em todos os outros clubes que jogou. Fora os boleiros que viraram lorotas internacionais, por nunca se adaptarem ao jogo fora do Brasil. Viola e Marcelinho Carioca são bons exemplos.

Até a Copa está na mira das grandes mentiras: o Mundial de 1998 foi mesmo vendido para a Nike? E a Copa de 2006? “A grande mentira foi todo mundo fazer de conta que um time que não jogava junto há três meses podia ser favorito absoluto”, afirma Unzelte. “Foi a mentira da falta do profissionalismo”. Quer mais uma lenda? Amor de Maria Chuteira, mas isso é assunto para outra discussão.