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Ele
também tinha o desafio de ganhar o hexa, de comandar
estrelas, de controlar o ego de jogadores famosos...
Mas diferentemente de Carlos Alberto Parreira, o carioca
chamado Bernardo Rocha de Rezende, ou Bernardinho, voltou
para o Brasil com o sexto título mundial, à frente da
seleção masculina de vôlei, conquistado no Japão
há duas semanas. Com seu estilo durão, o treinador
de 47 anos é um fenômeno. Desde que assumiu o Brasil,
em 2001, venceu 14 dos 17 torneios disputados. Nesta
entrevista ao Fatto Olé, Bernardinho revela que
também adora o esporte praticado com chuteiras (é
botafoguense roxo), admite que um dia pode integrar
uma comissão técnica de futebol, justifica o fracasso
de Ronaldo, Ronaldinho e companhia na Copa da Alemanha,
e conta o que gosta de fazer quando está longe das quadras.
Como técnico hexacampeão mundial
que é, o que acha que faltou para a seleção
brasileira conseguir a sexta estrela no futebol?
É muito difícil dar uma opinião
sobre o assunto, porque não estive lá
e acompanhei tudo à distância. Mas acontece
que tanto no vôlei quanto no futebol ou no basquete
só um pode vencer. A França foi melhor
que o Brasil naquela semifinal da Copa e pronto.
Mas você acha que o Parreira não
conseguiu lidar com tantas estrelas?
Uma pessoa só se torna estrela quando conquista
grandes vitórias. O grupo que o Parreira tinha
em mãos era altamente vitorioso, formado por
grandes jogadores. Só que na hora da decisão,
alguma coisa deu errado. Faz parte.
E por que a sua seleção, também
com várias estrelas, nunca decepciona?
A grande vantagem que eu e meus jogadores temos é
que a expectativa que se cria é muito menor.
Eu diria para você que a maior diferença
do futebol para o vôlei é a visibilidade.
O futebol é a paixão mundial. O País
parou para ver a Copa do Mundo, o assédio da
mídia é e sempre será enorme, e
conseqüentemente a pressão nos ombros dos
atletas por vitória deve pesar demais.

O esporte atual não tolera mais o individualismo?
Com certeza absoluta. A primeira lição que passo para
os meus atletas é a de que jamais podemos buscar um
culpado. O que precisamos é aprender com os erros
dos outros. Na seleção masculina estamos
criando cada vez mais a consciência coletiva e eu estimulo
isso. Porque no dia em que eu não tocar a alma ou o
coração deles, tenho de repensar minha posição.
Depois de transformar uma seleção
desacreditada em hexacampeã, você se sente
o melhor treinador do mundo?
Não me sinto e não sou o melhor do mundo. Não
conquistei nada sozinho. Quem trabalha com um grupo
de pessoas de qualidade gera a possibilidade de se conseguir
bons resultados. Nós todos conseguimos isso e sou apenas
mais uma peça.
Podemos ter a esperança de contar com você
trabalhando no futebol em breve?
Como treinador não, pois não tenho experiência
para isso. Agora integrar uma comissão técnica
seria viável. Sempre gostei muito de futebol,
acompanho desde pequeno. Só que nunca vivi o
dia-a-dia do futebol, porque sempre estive muito ligado
ao vôlei.
É verdade que você já recebeu
propostas para trabalhar como técnico no futebol?
Prefiro não responder. Deixa isso para lá.
Vamos mudar de assunto.
Então tá. Qual é o segredo
para montar equipes e seleções campeãs?
Levo comigo um conceito: é preciso escolher as
pessoas certas. O que significa isso? Tenho que ter
em mãos um misto de talento com determinação.
Em todo grupo é necessário existir aqueles
que carreguem o piano.
Nas quadras, você está sempre berrando,
xingando, esbravejando. Na sua casa é você
também quem manda?
(Risos) Dizem que tem que existir equilíbrio
nas relações. Então eu mando na
quadra e a Fernanda (Venturini, ex-jogadora da seleção
feminina) em casa. Na verdade mesmo, quem manda em casa
é a Júlia (filha de cinco anos do casal).
Você é do tipo família?
Com certeza. É uma das coisas que mais dou valor.
Me perguntaram uma vez se o meu presente de aniversário
havia sido o título da Liga Mundial. Respondi
na hora que não. O presente foi a recuperação
do meu pai, que fez uma cirurgia no coração
e está se recuperando muito bem.
E a sensação de dirigir seu filho
Bruno na seleção?
Ah, dá para dizer que foi maravilhoso. Fiquei
feliz demais com a forma como os outros jogadores receberem
ele. O Bruno é um atleta disposto a aprender
tudo, e tem uma disposição imensa. Como
técnico tive muito prazer, e como pai foi bom
demais acompanhar sua evolução como jogador
e seu crescimento como pessoa.

Você e a Fernanda pensam em ter mais filhos?
Para falar a verdade, eu e ela gostaríamos muito,
e em breve. Se possível neste ano, mesmo. Mas
precisamos ver se o trabalho vai deixar. E não
me importo que seja menino ou menina. O que vale é
que venha saudável.
Depois do título com a seleção
masculina, você volta a dirigir mulheres, no Rexona.
Como funciona essa mudança?
A base de treinamento é a mesma: meu objetivo
é ajudar as meninas a renderem tudo o que elas
podem. Só mudam alguns detalhes de tática
e técnica. A forma de falar também é
outra, porque não dá para dizer para elas
algumas coisas que grito para os homens.
Você já conseguiu ficar rico às
custas de tantas palestras que dá?
(Risos) Quem me dera. Estou fazendo muitas palestras,
sim. Mas boa parte do que ganho com elas eu dou para
projetos sociais que participo.
E o Bernardinho empreendedor?
Eu sou muito agitado e não consigo ficar parado.
Acho que até por isso tenho uma cadeia de restaurantes
(chamada Delírio Tropical, no Rio). Também
sou sócio de uma rede de academias e agora estou
lançando um livro sobre minhas experiências
à frente das seleções masculina
e feminina.
Curtir um dia de folga é?
Ir para a praia, jantar fora, passear com meus filhos
e minha esposa...
Qual é seu filme inesquecível?
A Cor Púrpura, filme muito bem feito, que se originou
de um ótimo livro que também li.
E o prato que não pode faltar na sua
casa ?
Ah, comida italiana, sem dúvida. Principalmente
o Tortelloni di Zucca.
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