2006 - EDIÇÃO 49

Bernardinho, esse é hexa
Por Jorge Nicola

Ele também tinha o desafio de ganhar o hexa, de comandar estrelas, de controlar o ego de jogadores famosos... Mas diferentemente de Carlos Alberto Parreira, o carioca chamado Bernardo Rocha de Rezende, ou Bernardinho, voltou para o Brasil com o sexto título mundial, à frente da seleção masculina de vôlei, conquistado no Japão há duas semanas. Com seu estilo durão, o treinador de 47 anos é um fenômeno. Desde que assumiu o Brasil, em 2001, venceu 14 dos 17 torneios disputados. Nesta entrevista ao Fatto Olé, Bernardinho revela que também adora o esporte praticado com chuteiras (é botafoguense roxo), admite que um dia pode integrar uma comissão técnica de futebol, justifica o fracasso de Ronaldo, Ronaldinho e companhia na Copa da Alemanha, e conta o que gosta de fazer quando está longe das quadras.

Como técnico hexacampeão mundial que é, o que acha que faltou para a seleção brasileira conseguir a sexta estrela no futebol?
É muito difícil dar uma opinião sobre o assunto, porque não estive lá e acompanhei tudo à distância. Mas acontece que tanto no vôlei quanto no futebol ou no basquete só um pode vencer. A França foi melhor que o Brasil naquela semifinal da Copa e pronto.

Mas você acha que o Parreira não conseguiu lidar com tantas estrelas?
Uma pessoa só se torna estrela quando conquista grandes vitórias. O grupo que o Parreira tinha em mãos era altamente vitorioso, formado por grandes jogadores. Só que na hora da decisão, alguma coisa deu errado. Faz parte.

E por que a sua seleção, também com várias estrelas, nunca decepciona?
A grande vantagem que eu e meus jogadores temos é que a expectativa que se cria é muito menor. Eu diria para você que a maior diferença do futebol para o vôlei é a visibilidade. O futebol é a paixão mundial. O País parou para ver a Copa do Mundo, o assédio da mídia é e sempre será enorme, e conseqüentemente a pressão nos ombros dos atletas por vitória deve pesar demais.

O esporte atual não tolera mais o individualismo?
Com certeza absoluta. A primeira lição que passo para os meus atletas é a de que jamais podemos buscar um culpado. O que precisamos é aprender com os erros dos outros. Na seleção masculina estamos criando cada vez mais a consciência coletiva e eu estimulo isso. Porque no dia em que eu não tocar a alma ou o coração deles, tenho de repensar minha posição.

Depois de transformar uma seleção desacreditada em hexacampeã, você se sente o melhor treinador do mundo?
Não me sinto e não sou o melhor do mundo. Não conquistei nada sozinho. Quem trabalha com um grupo de pessoas de qualidade gera a possibilidade de se conseguir bons resultados. Nós todos conseguimos isso e sou apenas mais uma peça.

Podemos ter a esperança de contar com você trabalhando no futebol em breve?
Como treinador não, pois não tenho experiência para isso. Agora integrar uma comissão técnica seria viável. Sempre gostei muito de futebol, acompanho desde pequeno. Só que nunca vivi o dia-a-dia do futebol, porque sempre estive muito ligado ao vôlei.

É verdade que você já recebeu propostas para trabalhar como técnico no futebol?
Prefiro não responder. Deixa isso para lá. Vamos mudar de assunto.

Então tá. Qual é o segredo para montar equipes e seleções campeãs?
Levo comigo um conceito: é preciso escolher as pessoas certas. O que significa isso? Tenho que ter em mãos um misto de talento com determinação. Em todo grupo é necessário existir aqueles que carreguem o piano.

Nas quadras, você está sempre berrando, xingando, esbravejando. Na sua casa é você também quem manda?
(Risos) Dizem que tem que existir equilíbrio nas relações. Então eu mando na quadra e a Fernanda (Venturini, ex-jogadora da seleção feminina) em casa. Na verdade mesmo, quem manda em casa é a Júlia (filha de cinco anos do casal).

Você é do tipo família?
Com certeza. É uma das coisas que mais dou valor. Me perguntaram uma vez se o meu presente de aniversário havia sido o título da Liga Mundial. Respondi na hora que não. O presente foi a recuperação do meu pai, que fez uma cirurgia no coração e está se recuperando muito bem.

E a sensação de dirigir seu filho Bruno na seleção?
Ah, dá para dizer que foi maravilhoso. Fiquei feliz demais com a forma como os outros jogadores receberem ele. O Bruno é um atleta disposto a aprender tudo, e tem uma disposição imensa. Como técnico tive muito prazer, e como pai foi bom demais acompanhar sua evolução como jogador e seu crescimento como pessoa.

Você e a Fernanda pensam em ter mais filhos?
Para falar a verdade, eu e ela gostaríamos muito, e em breve. Se possível neste ano, mesmo. Mas precisamos ver se o trabalho vai deixar. E não me importo que seja menino ou menina. O que vale é que venha saudável.

Depois do título com a seleção masculina, você volta a dirigir mulheres, no Rexona. Como funciona essa mudança?
A base de treinamento é a mesma: meu objetivo é ajudar as meninas a renderem tudo o que elas podem. Só mudam alguns detalhes de tática e técnica. A forma de falar também é outra, porque não dá para dizer para elas algumas coisas que grito para os homens.

Você já conseguiu ficar rico às custas de tantas palestras que dá?
(Risos) Quem me dera. Estou fazendo muitas palestras, sim. Mas boa parte do que ganho com elas eu dou para projetos sociais que participo.

E o Bernardinho empreendedor?
Eu sou muito agitado e não consigo ficar parado. Acho que até por isso tenho uma cadeia de restaurantes (chamada Delírio Tropical, no Rio). Também sou sócio de uma rede de academias e agora estou lançando um livro sobre minhas experiências à frente das seleções masculina e feminina.

Curtir um dia de folga é?
Ir para a praia, jantar fora, passear com meus filhos e minha esposa...

Qual é seu filme inesquecível?
A Cor Púrpura, filme muito bem feito, que se originou de um ótimo livro que também li.

E o prato que não pode faltar na sua casa ?
Ah, comida italiana, sem dúvida. Principalmente o Tortelloni di Zucca.