2006 - EDIÇÃO 48

O mapa da mina
Por Jorge Nicola

Ele raramente aparece, fica longe dos holofotes, quase sempre trabalha de graça, mas desempenha função vital para o futebol. Estamos falando do olheiro, nome dado ao responsável por encontrar meninos com talento nos campos de várzea espalhados pelo País. O que seria de Pelé se não fosse Waldemar de Brito, que o encontrou em Bauru? Ou de Robinho se não fosse Betinho? É bem provável que com o talento que têm, os dois ex-santistas acabariam virando jogadores. Mas esse processo poderia levar mais tempo.

Ilustração: Aline AnnunciatoAtualmente, há olheiros de diversas classes. A primeira é a formada pelos mais humildes. São aqueles que um dia já foram profissionais, ainda que sem sucesso, e agora moram em cidades pequenas, e no interior dos Estados. A missão deles é acompanhar os campeonatos amadores e que reúnam jovens, em busca de talentos. Aí, indicam para os clubes em troca de uma “gorjeta”.

Os grandes times de São Paulo e Rio de Janeiro têm uma rede de olheiros espalhada por todo o País. “A gente está sempre em contato, em busca de atletas que venham para reforçar nossas categorias de base ou até o elenco principal”, explica o presidente do Santos, Marcelo Teixeira.

A segunda categoria de olheiros é mais sofisticada. Trata-se de pessoas que trabalham no dia-a-dia de um clube e, entre suas tarefas, está a de ficar antenado aos jogadores promissores. Um exemplo é Milton Cruz, que está no São Paulo há mais de cinco anos. Além de auxiliar-técnico, ele tem a incumbência de acompanhar as “revelações”. “Passo o tempo inteiro vendo futebol. De manhã, de tarde, de noite. Se a TV estiver mostrando uma partida de futsal, pode ter certeza que vou parar para dar uma olhada”, afirma Milton.

O olheiro tricolor foi o responsável, entre outras, pelas contratações do atacante Luís Fabiano, do zagueiro Rodrigo e do lateral-direito Cicinho. “A gente fica antenado em tudo e põe para funcionar a rede de amigos que conquistamos no futebol”, acrescenta Milton Cruz, admitindo que muitas vezes liga para técnicos e jogadores constantemente. “Consegui acertar com o Amoroso, no ano passado, depois que o atacante Luizão me disse que ele estava sem clube”, lembra. “Também descobri o André Dias graças ao Vélber, já que eles haviam atuado juntos no Paysandu.”

Por sua vez, o Coritiba conta desde o mês passado com Will Rodrigues, contratado apenas para coordenar a rede de olheiros do clube. Assim, diante de qualquer necessidade da comissão técnica, Will aciona seus espiões e apresenta as opções.

Top de linha – A terceira classe de olheiros é privilégio para poucos. Esses sortudos são pagos, e muito bem, pelas superpotências do futebol estrangeiro para “pinçar” as pérolas do futebol brasileiro. Luís Pereira é o olheiro do Atlético de Madrid, da Espanha. Já o ex-zagueiro Marcelo Djean atua como observador do Lyon em toda a América do Sul. “A cada dois meses, envio um relatório com a ficha completa dos atletas que mais me chamaram a atenção”, revela.

Djean anda com moral. Das últimas seis indicações, cinco vingaram fortemente. “Fui eu quem levou Juninho Pernambucano, Caçapa, Edmilson, Cris, Fred e Nilmar”, conta, sem esconder a empolgação. Destes, só o Nilmar não ficou no clube, mas já valeu o investimento, porque foi comprado pelo Corinthians por um valor mais alto.

RECOMENDAÇÕES PARA OS PAIS

Para escapar da malandragem de alguns olheiros e de outros empresários de futebol, o Fatto Olé elaborou uma cartilha com dicas aos pais que querem fazer de seus filhos verdadeiros craques.

- nunca dê dinheiro a empresários, em troca da promessa de que seu filho fará algum teste. “Se o garoto é bom, mais cedo ou mais tarde encontrará um lugar para jogar”, avisa olheiro Marcelo Djean.

- não acredite em promessas de contratos maravilhosos em países no exterior. “Se seu filho nunca jogou por um time grande e surge alguma chance de ele ir para fora, ganhando milhões, desconfie”, alerta o empresário Bernardo, ex-jogador.

- é vital que você acompanhe seu filho sempre que puder, para passar segurança, orientá-lo e ajudá-lo.

- orientar seu filho para que nunca assine qualquer papel em branco. Há casos em que empresários usaram assinaturas para redigir contratos com duração longa.

- evitar ter empresários antes de completar 18 anos, ou se tornar profissional.