2006 - EDIÇÃO 48

Edmundo como você nunca viu
Por Jorge Nicola e Nathalia Pazini, especial para o Fatto Olé

O Fatto Olé encarou a fera. Fez as perguntas que ninguém nunca teve coragem e descobriu que, por trás da máscara de bad boy, existe um cara com um grande coração. Suas dúvidas sobre a vida de um dos jogadores mais importantes e polêmicos da história do futebol brasileiro acabam aqui. Nesta entrevista exclusiva, realizada no CT do Palmeiras, Edmundo se entregou de corpo e alma.

Ilustração: Evandro Rodriguez Sem o rótulo de Animal, quem é o verdadeiro Edmundo?
As pessoas ficariam espantadas se me conhecessem de verdade. Surpresas. Gostaria muito que os brasileiros olhassem para mim de uma forma diferente, que me conhecessem fora do campo. Sou um cara que não ligo para nada, não tenho vaidade, como em qualquer lugar, durmo em qualquer lugar, embora tenha a oportunidade de ter sempre as coisas boas. Sou um cara super tranqüilo, nada agressivo, tímido pra caramba, embora depois que eu me solte, que estiver no meu ambiente, vou tomar conta. Mas jogando eu me transformo.

Explique melhor essa transformação?
Dentro do campo, não consigo falar “meu querido, vem cá”. Impossível. Na hora agá, é “vamos porra, corre”. Talvez meu maior defeito é querer ganhar sempre.

A opinião pública sempre foi muito cruel com você?
Não quero culpar ninguém, sempre fui muito autêntico e isso no futebol é uma merda. Porque vai de encontro a algumas opiniões. Sempre procurei ser muito honesto, mas não gostava quando as pessoas eram desonestas comigo. Também sou muito leal e lealdade no futebol não existe. Acabei sendo rotulado de uma maneira negativa. Agora quero mudar minha imagem, pois meus filhos estão crescendo, lendo, escrevendo... Então quero deixar um bom exemplo para eles.

Os brutos também choram?
Não me vejo como um bruto. Sou dócil, um cara superemotivo e choro por qualquer coisa. Choro indo para o treino, enquanto escuto uma música, choro quando falo com meus filhos pelo telefone. Esses dias meus filhos falaram: “pai não esquece de mim não” porque eu fiquei uns 15 dias sem poder ir para lá. Às vezes a gente não percebe a falta que faz.

As palestras do Tite também lhe emocionam?
Ele é um técnico sensacional. Você vê os olhos dele brilhando nas preleções. Numa delas, estávamos há oito jogos sem vencer e o Tite colocou para ouvirmos a música “Dias melhores”, do Jota Quest. Pô, o grupo inteiro ficou motivado pra caramba porque tinha tudo a ver com o momento em que a gente estava passando, era tudo o que gente precisava.

Está na hora de começar a levantar o astral, se não vamos acabar chorando... Você ainda faz sucesso com a mulherada?
Eu saía demais, agora eu saio de menos. Tenho muito prazer de ficar em casa. E para essas coisas acontecerem, você tem de estar onde elas estão, né? Estou namorando, e agora vivo mais sossegado. Falo pra ela que ela é uma felizarda, pois me pegou numa fase tranqüila.

Você aceitaria posar nu por um cachê milionário? Fala aí seu preço.
Não, sai fora. De jeito nenhum, por cachê nenhum.

Foto: Nathalia Pazini Para você, futebol é anterior ao sexo?
Acho que tem hora pra tudo. Eu amo mulher, adoro mulher, penso nelas o tempo todo, mas a concentração é coisa séria. Sem demagogia nenhuma mesmo. Meu trabalho tem hora pra começar e para acabar. Se o treinador me perguntar se eu fui para uma boate na hora da folga, mando ele ir à merda. A vida é minha e eu faço o que eu quiser. Se fizer na hora certa, dá pra fazer bem os dois: futebol e sexo.

Mas tem hora que a balada atrapalha.
O Renato Gaúcho que o diga. Ele me contou um dia desses no Rio que só perdeu a final Copa do Brasil porque três jogadores mais novos f... com ele, porque tinham caído na gandaia antes da decisão. Aí eu olhei pra ele rindo e falei: mas logo você, Renato, que vivia curtindo a noite.

Abre o jogo: tem muita biba no futebol?
(Risos) Essa é uma coisa complicada. No amador a gente ouvia falar direto que tinha, mas no profissional, não. Dizem que tem um aqui, outro ali. Mas acho que não, porque se não muita gente iria ficar sabendo uma hora ou outra.

MPB, rock, pagode ou samba. Que música você ouve?
Eu gosto de rap. De Racionais. Mas sou muito eclético. Ouço de tudo. Gosto de música boa. Se estiver tocando MPB ou pagode legais, eu vou parar e ficar ouvindo do mesmo jeito. Até música da Bahia acho maneira pra caramba.

Churrasco, massa ou sashimi?
Depende da hora. Não sou muito chegado à carne, mas se você me chamar pra ir na tua casa pra comer uma macarronada num domingo e se um amigo me chamar pra ir num churrasco, eu vou no churrasco, por causa do agito da galera. Depende da ocasião. No dia-a-dia prefiro massa.

Ed, um conselho aos jovens.
Não sou de dar conselhos, porque eu fiz tudo errado. Mas o engraçado é que os mais novos, principalmente aqui no Palmeiras me ouvem. O Francis, por exemplo, está sempre me pedindo algumas dicas. Eles se aproximam e estou sempre pronto para ajudar, na medida do possível.

E o futuro?
Foto: Nathalia PaziniFoi um puta alívio renovar com o Palmeiras até o fim do ano que vem. Meus dias ficaram até mais calmos. Vou encerrar a carreira no lugar em que queria. Depois, não sei. Com certeza não vão me deixar ser dirigente, porque a estrutura do futebol brasileiro é muito arcaica e aqueles que estão no poder morrem de medo de perder a boquinha. Por isso quase não temos ex-atletas trabalhando nos clubes. Também acho que eu não agüentaria ser técnico, porque não tem folga nunca. É viagem, concentração, pressão por resultado... Já devo ter trabalhado com uns 30 técnicos na minha carreira, e baseado nisso, tenho certeza de que seria um bom treinador. Mas quero viver um pouco mais meus filhos, minha família...

Animal, qual seu animal predileto?
Não gosto de bichos (risos). Quando eu era casado, tinha dois cachorros em casa, mas sempre fui contra. Preferia adotar duas crianças, porém jamais faria mal pra qualquer animal.