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| UM
SONHO DE LIBERDADE
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| Por
Nathalia Pazini, especial para o Fatto Olé |
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Esta
reportagem tem a dramaticidade de um tango de Gardel,
mas foi escrita pelas letras da esperança. Um jogo
de palavras para superar as muralhas dos presídios
e comprovar que a bola de futebol é uma ferramenta
pela paz, num país que vive com medo. Sim, é
extremamente emocionante ouvir os detentos cantando o
hino nacional antes de uma partida. Ao invés da
grama verdinha, concreto. A decisão do juiz está
no apito e não no martelo. Aqui não tem
culpado, nem inocente. Só gente correndo atrás
da liberdade.
O
contraponto da violência está mesmo no esporte.
“Tem uma hora na vida de um presidiário em
que a dura rotina passa a ser sua realidade, e os campeonatos
de futebol diminuem a pressão interna dos presídios”,
destaca Marco Aurélio Cunha, médico e superintendente
de futebol do São Paulo, que já trabalhou
na Penitenciária do Estado, no Carandiru e que
teve seu nome como título de campeonato da Casa
de Detenção.
A estrutura das competições na cadeia é
organizada. Têm até Federação,
1ª e 2ª divisões, venda de passe, massagista,
preparador físico, gandula, bandeirinha, juiz,
roupeiro e técnico, que é o cargo mais importante,
geralmente ocupado pela ‘malandragem’ - os
detentos mais velhos e mais respeitados.
Muitos dos boleiros-bandidos são ídolos,
viram mitos. Os salários e a venda de passes são
viáveis através da moeda circulante, cigarros
e drogas, que lá dentro têm praticamente
o mesmo valor para os presos que os dólares para
os craques profissionais. “Na prisão, o futebol
tem um peso enorme no cotidiano, muito mais do que aqui
fora”, conta Percival de Souza, escritor, jornalista
e um dos maiores especialistas do mundo do crime - ele
freqüentou a cadeia por um mês para escrever
um livro, chegando até a dormir por lá.
As regras não são diferentes, a diferença
está no corpo a corpo. É um futebol de raça,
coração no bico da chuteira (ou do tênis),
é como se aquele momento fosse um levantar vôo
da imaginação sem fronteiras. “Na
hora que a bola rola, é como se o futebol se transportasse
para além dos muros, todas as emoções
estão concentradas ali”, explica Percival.
“Algumas das melhores partidas da minha vida eu
presenciei lá dentro. Lá não tem
lero-lero”, referindo-se a um futebol mais ‘peladeiro’,
com forte contato físico - o que faz com que muitas
vezes o juiz seja obrigado a fazer vista grossa.
O futebol tem definitivamente um papel fundamental na
prisão. “O esporte pode contribuir para a
disciplina no espaço prisional. Mais importante
que isso, pode-se construir um ambiente em que a disciplina
não precise ser imposta à força,
à base de punições”, aponta
Fernanda Matsuda, pesquisadora do Ilanud, órgão
das Nações Unidas responsável pela
prevenção do delito e tratamento do delinqüente.
E Percival de Souza completa: "Há quem diga
que nenhuma cadeia sobreviva sem visita, sem bola e sem
droga. Mas isso não é de fácil compreensão
para as pessoas livres".
A pior maneira de não se chegar a um determinado
lugar é acreditar que já se está
lá. Motivação, união, superação
e futebol são palavras de ordem neste mundo cinza,
nebuloso. Mas a bola faz o sol brilhar. Faz os bandidos
virarem mocinhos mesmo que por alguns segundos. A bola
faz acontecer – traz a emoção, libera
a emoção. Ah, só a bola é
capaz de fazer um detento superar os seus inimigos que
estão dentro de sua própria alma. O gol,
neste caso, é apenas um detalhe feliz. |
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