2006 - EDIÇÃO 45

UM SONHO DE LIBERDADE
Por Nathalia Pazini, especial para o Fatto Olé
Esta reportagem tem a dramaticidade de um tango de Gardel, mas foi escrita pelas letras da esperança. Um jogo de palavras para superar as muralhas dos presídios e comprovar que a bola de futebol é uma ferramenta pela paz, num país que vive com medo. Sim, é extremamente emocionante ouvir os detentos cantando o hino nacional antes de uma partida. Ao invés da grama verdinha, concreto. A decisão do juiz está no apito e não no martelo. Aqui não tem culpado, nem inocente. Só gente correndo atrás da liberdade.

Ilustração: Aline AnnunciatoO contraponto da violência está mesmo no esporte. “Tem uma hora na vida de um presidiário em que a dura rotina passa a ser sua realidade, e os campeonatos de futebol diminuem a pressão interna dos presídios”, destaca Marco Aurélio Cunha, médico e superintendente de futebol do São Paulo, que já trabalhou na Penitenciária do Estado, no Carandiru e que teve seu nome como título de campeonato da Casa de Detenção.

A estrutura das competições na cadeia é organizada. Têm até Federação, 1ª e 2ª divisões, venda de passe, massagista, preparador físico, gandula, bandeirinha, juiz, roupeiro e técnico, que é o cargo mais importante, geralmente ocupado pela ‘malandragem’ - os detentos mais velhos e mais respeitados.

Muitos dos boleiros-bandidos são ídolos, viram mitos. Os salários e a venda de passes são viáveis através da moeda circulante, cigarros e drogas, que lá dentro têm praticamente o mesmo valor para os presos que os dólares para os craques profissionais. “Na prisão, o futebol tem um peso enorme no cotidiano, muito mais do que aqui fora”, conta Percival de Souza, escritor, jornalista e um dos maiores especialistas do mundo do crime - ele freqüentou a cadeia por um mês para escrever um livro, chegando até a dormir por lá.

As regras não são diferentes, a diferença está no corpo a corpo. É um futebol de raça, coração no bico da chuteira (ou do tênis), é como se aquele momento fosse um levantar vôo da imaginação sem fronteiras. “Na hora que a bola rola, é como se o futebol se transportasse para além dos muros, todas as emoções estão concentradas ali”, explica Percival. “Algumas das melhores partidas da minha vida eu presenciei lá dentro. Lá não tem lero-lero”, referindo-se a um futebol mais ‘peladeiro’, com forte contato físico - o que faz com que muitas vezes o juiz seja obrigado a fazer vista grossa.

O futebol tem definitivamente um papel fundamental na prisão. “O esporte pode contribuir para a disciplina no espaço prisional. Mais importante que isso, pode-se construir um ambiente em que a disciplina não precise ser imposta à força, à base de punições”, aponta Fernanda Matsuda, pesquisadora do Ilanud, órgão das Nações Unidas responsável pela prevenção do delito e tratamento do delinqüente. E Percival de Souza completa: "Há quem diga que nenhuma cadeia sobreviva sem visita, sem bola e sem droga. Mas isso não é de fácil compreensão para as pessoas livres".

A pior maneira de não se chegar a um determinado lugar é acreditar que já se está lá. Motivação, união, superação e futebol são palavras de ordem neste mundo cinza, nebuloso. Mas a bola faz o sol brilhar. Faz os bandidos virarem mocinhos mesmo que por alguns segundos. A bola faz acontecer – traz a emoção, libera a emoção. Ah, só a bola é capaz de fazer um detento superar os seus inimigos que estão dentro de sua própria alma. O gol, neste caso, é apenas um detalhe feliz.