2006 - EDIÇÃO 45

Quebramos todas as regras
Por Jorge Nicola
Ela revolucionou o futebol. Não que tenha marcado gols, feito a alegria de torcidas, ou coisa do gênero. Mas a bandeirinha Ana Paula de Oliveira mostrou que a mulher também tem vez no futebol. Com um charme fora do comum, a paulista de Hortolândia hoje é a grande musa dentro das quatro linhas. Nesta entrevista exclusiva para o Fatto Olé, ela revela que está solteira e fala sobre assédio, ciúme, jogadores bonitos, confusões por conta de sua bandeira, arbitragem e muito mais. Aproveite.

FATTO OLÉ: Você se considera a Miss Brasil do Futebol?
ANA PAULA DE OLIVEIRA: Não, deixo esse título para outras meninas bem mais bonitas do que eu. Me considero uma mulher normal e acabei chamando a atenção pela minha profissão. Se não fosse árbitra assistente, passaria despercebida.

Será? Mesmo com esse corpão?
Ah, sei lá. Cheguei a receber um convite para ser modelo quando tinha 15 anos. Mas eu tinha 15 anos, né? O que eu faço é tentar cuidar do meu corpo com treinos regulares, cinco dias por semana. Faço duas horas de atividade diária, sendo metade de musculação e outra metade correndo.

Existe muito João-chuteira no futebol?
(Longos risos) Sabe que não sei. Acho que não. As Marias-chuteiras são maioria absoluta. Até acontece assédio, cantada... Mas elas ainda têm a força e dominam o mercado do xaveco.

Qual o melhor árbitro do país?
Humm, que pergunta. Assim você me coloca num dilema. Temos grandes árbitros, mas no momento os melhores são o Leonardo Gaciba e o Sálvio Espínola Fagundes Filho.

E o pior?

Não tem essa de árbitro pior. O que acontece é que um árbitro pode estar numa tarde mais infeliz. E ultimamente ninguém tem sido infeliz repetidas vezes. Dá para falar que a arbitragem melhorou demais de uns tempos para cá.

Como viu o escândalo de manipulação na Itália?
Sinceramente foi um alívio para nós, aqui no Brasil. Depois do episódio com o Edílson Pereira de Carvalho (o árbitro entrou num esquema de apostas de resultados), falavam que uma coisa dessas só aconteceria aqui, e que todos nós da classe de árbitros não prestávamos. Aí, quando surge um escândalo na Itália, um país da Europa e vitrine para todos, as pessoas percebem que é um problema mundial. Teve coisa parecida na Alemanha, também.

Rola preconceito em relação aos trios de arbitragem depois do caso Edílson?
Ainda rola e tudo o que se viu foi ruim demais para nós. É péssimo você chegar no seu ambiente de trabalho e todos o colocarem em xeque por causa de outra pessoa. Não quero viver essa sensação nunca mais.

É verdade que você entrou para o futebol porque o orçamento em casa apertou?
Verdade. Entrei para ajudar meus pais. Já trabalhava como auxiliar de escritório, ganhava um salário mínimo, e a situação estava dura porque meu pai não tinha emprego. Foi então que ele perguntou se eu não queria dar uma força para ele como mesária. Eu tinha 14 anos e aceitei, mesmo sem entender nada de futebol. Só nunca imaginei que fosse gostar tanto da brincadeira.

Como seu pai reagiu ao ver a filha nos campos, já como bandeirinha?
Hoje com certeza ele tem muito orgulho. Só que nem ele achava que isso fosse tão longe. Ele tinha certeza que minha carreira não daria certo. Agora acompanha tudo, vê os jogos, dá palpite. Virou um torcedor de carteirinha da Ana Paula Futebol Clube.

Ele é ciumento?

Bastante. E já arrumou cada confusão por causa de ciúmes. Quando eu ainda bandeirava no futebol amador, aos 17 anos, estava começando a ganhar corpo de mulher. Aí os amigos dele que me viam como criança, num primeiro momento, passaram a reparar em mim de um jeito diferente. Ele ficava uma fera. Depois dos jogos de domingo, eu ficava reunida com o pessoal, conversando, e meu pai brigava com quem fizesse qualquer gracinha. Tive que parar de freqüentar esses encontros. Um tempo mais tarde, até pedi para não trabalhar mais com ele (risos).

Você namora?
Atualmente, não.

Noooooossa... Como isso é possível?
Até o mês passado eu estava namorando, mas não deu certo. O que pega é que meus namorados não aceitam muito minha profissão. E não é nem pelo ciúmes, mas pela minha ausência. Eu viajo demais por causa dos jogos. Também faço faculdade e dou cursos de motivação e trabalho em equipe. Aí sobra pouco tempo para namorar. O engraçado é que no começo de namoro é sempre igual: eles aceitam, dizem que não tem problema e fica tudo às mil maravilhas. Mas passou do terceiro mês e começa a muvuca.

Os boleiros profissionais já se acostumaram com o fato de ter uma mulher na bandeira?
Acho que sim. O nome Ana Paula de Oliveira já é conhecido, está marcado. Mas no começo foi bem difícil, pois havia uma rejeição grande, um receio enorme. Graças a Deus meus acertos permitiram que eu ganhasse esse respeito e credibilidade que tenho hoje por parte dos atletas.

Quais são os mais chatos e reclamões?
Os árbitros falam sempre do Rogério Ceni, mas não é uma opinião minha, porque fico sempre distante dele, com pouquíssimo contato. Cruzo mais com laterais e zagueiros, e esse pessoal é mais legal. Num clássico entre Palmeiras e Corinthians, o Gustavo Nery veio reclamar, foi grosso. Mas depois pediu desculpas. Ah, os árbitros também consideram o Ricardinho bastante reclamão.

Abre o jogo: quem é o jogador mais lindo do Brasil?

O Lugano reinava absoluto, mas tem uns meninos novos aparecendo. Humm... acho o Fábio, que hoje é goleiro do Cruzeiro, muito bonito. (Ana faz uma pausa) Pensando bem, o Lugano continua se destacando dos demais. Só que a safra atual está boa. O Fluminense, por exemplo, tem um elenco novo que é bastante bonito. O Dagoberto, do Atlético-PR, é uma gracinha...

E qual é mais xavequeiro?

Dos boleiros, xavequeiros? Ah, vou dar o título para o Vampeta, disparado. Ele é demais de xavequeiro. Mas esse é o jeito dele, bem engraçado. O típico jogador dado, sabe?

Qual foi a cantada mais sem noção que um torcedor já te passou pelo alambrado?
Ah, têm umas bem vulgares, daquelas: ‘Pô, vai pra minha casa. Estarei te esperando com uma pizza bem gostosa’. Mas nem considero essas situações como cantadas, e sim ofensas. Uma vez, teve uma que achei meiga: enquanto um grupinho me xingava por causa de um impedimento que marquei, surgiu um torcedor no meio deles que saiu em minha defesa, disse que me achava linda e passou o número do telefone dele. Foi uma atitude bonita, diferente, mas claro que não consegui marcar o celular do cara no meio daquela bagunça toda.

Nenhum árbitro tentou te cumprimentar com um romântico beijinho na boca?
Negativo! O mesmo respeito que tenho dos atletas, tenho dos árbitros. E sou muito profissional na relação com eles. Dá para dizer que sou chata ao extremo. Poucos árbitros têm acesso a mim. Não tem essa de ficar me ligando, nem nada. Por exemplo, na hora de ir para os jogos, prefiro encontrá-los já no estádio, ou no aeroporto, para não dar chance de que eles confundam qualquer coisa.

Na hora agá, homem bonito não tem impedimento com você?

Não dá para misturar as coisas. Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa.

Quem está sempre na marca do pênalti?

Não vou dizer uma pessoa, mas uma situação. O que não dá mais para aturar é a violência nos estádios. O pior é que ela tem se mostrado uma coisa constante e grave. O que aconteceu em Porto Alegre (os gremistas queimaram os banheiros do Beira-Rio, no clássico com o Inter) foi muito triste.

Ronaldo ou Ronaldinho Gaúcho?
Vou ficar com o Ronaldinho Gaúcho. O Ronaldo já é o Fenômeno, enquanto o Gaúcho ainda está para ser.

Kaká ou Beckham?
Kaká, apesar do Beckham ser maravilhoso. Tenho que escolher o brasileiro, né? É bem verdade que o charme do Beckham é uma coisa sensacional.