2006 - EDIÇÃO 43

Dossiê São Paulo
Por Jorge Nicola

O maior segredo do sucesso do São Paulo é gerir seu futebol seguindo os moldes de administração aplicados na Europa com um jogo de cintura bem brasileiro. Mas o Fatto Olé foi além para lhe mostrar o que faz do Tricolor a grande grife do futebol mundial. Você vai entender porque o clube está a três partidas do tetra na Taça Libertadores, e porque lidera o Brasileirão. Também vai descobrir a razão de tanta inveja por parte dos rivais, e o desejo cada vez mais comum dos boleiros de vestir a camisa vermelha, branca e preta.

Juvenal Juvêncio: é o único cartola do Brasil de se tirar o chapéu. O presidente tricolor é o grande responsável pela fase mágica do clube. Desde 2003, quando assumiu o cargo de diretor, ele revolucionou o futebol. Sua primeira providência foi mudar a estrutura do CT da Barra Funda, criando o Reffis (centro de recuperação de jogadores lesionados). Em seguida, Juvenal transformou o modo de contratações do clube. Sem dinheiro, deu início a uma vasta busca por atletas com contratos a expirar, aproveitando-se do fim da Lei do Passe.

Foto: Rubens ChiriAssim, conseguiu contratar de graça os volantes Mineiro e Josué, os zagueiros Fabão e André Dias, o lateral-esquerdo Júnior, o meia Danilo, além dos atacantes Ricardo Oliveira, Aloísio, Thiago e Lima. Antes, haviam chegado de graça Amoroso, Luizão... “Eu faço parte do 1% dos dirigentes que conhecem futebol. Os outros 99% não sabem nada”, diz, sem qualquer falsa-modéstia.

Política: há pelo menos três grupos políticos distintos no São Paulo. E diferentemente dos rivais paulistas, nos quais os presidentes ficam no comando por anos e anos, existe grande disputa a cada eleição. É comum ver candidatos sendo eleitos com diferenças menores a dez votos em relação aos concorrentes.

Futuro: enquanto se reforça com atletas para hoje, o Tricolor busca jogadores jovens e os prepara antes de colocá-los em campo. O zagueiro Alex Silva, irmão de Luisão, defensor do Benfica e da seleção brasileira, é um exemplo. Contratado no ano passado, Alex Silva disputou seis meses pelo time de juniores. Enquanto isso, teve um acompanhamento da comissão técnica e ganhou cinco quilos de massa muscular. Hoje já atua na equipe de cima e está sendo trabalhado para ficar com a vaga de Lugano, negociado com o futebol europeu.

Mercado: apesar das altas arrecadações com bilheteria na Libertadores (o lucro supera R$ 1 milhão por cada partida decisiva disputada em casa), o Tricolor se vê obrigado a vender pelo menos um atleta por ano para o exterior, para não se endividar. Isso porque tem gastos altos com a sede social e com a manutenção do CT da Barra Funda e de Cotia (para as categorias de base).

Salários: ao contrário de clubes como Corinthians e Fluminense, o São Paulo não paga salários astronômicos. A exceção é Rogério Ceni, que por sua liderança e 15 anos de casa recebe mais de R$ 250 mil mensais. Já os atletas que compõem a espinha dorsal do time têm salários entre R$ 30 mil e R$ 70 mil.

Foto: Rubens ChiriReffis: referência mundial como centro de recuperação, o Reffis custa aos cofres do Tricolor mais de R$ 1 milhão por mês. Nele encontram-se os mais modernos equipamentos de fisioterapia. A equipe de especialistas são-paulina conta com médicos, fisiologistas, fisioterapeutas, nutricionistas e preparadores físicos.

O renome do Reffis é tal que 14 dos 23 jogadores da seleção brasileira que disputaram a Copa da Alemanha já se trataram por lá. Entre eles estão Ronaldo, Cafu, Juninho Pernambucano e Juan. Foi com a ajuda do Reffis que o Tricolor conseguiu contratar Luizão, Ricardo Oliveira, Alex Silva e agora Adaílton (zagueiro que foi capitão da Seleção Brasileira Sub-20 no último Mundial).

Ambiente: as famosas panelas (grupinhos de jogadores) não existem no Morumbi. Pelo contrário. O que se vê no dia-a-dia é um elenco extremamente unido. No início do ano, por exemplo, o volante Josué recebeu na festa de aniversário de seu filho de um ano a presença de 20 dos 26 atletas, fato raríssimo no meio do futebol. Apesar de ficarem no banco, reservas como Aloísio e Alex Dias dão inúmeras demonstrações de apoio àqueles que jogam.

Rogério Ceni: exerce a função de líder dentro e fora do campo. E não pára de dar bons exemplos. Você sabia que ele é o que mais treina, apesar dos 33 anos de idade? Isso mesmo. “O Rogério é o primeiro a chegar no gramado e sempre o último a sair”, revela Muricy Ramalho. O goleiro, há 15 anos no Morumbi, também atua como representante do elenco nas discussões de prêmios com a diretoria.

Comissão-técnica: entra técnico, sai técnico e o sucesso do time continua. Foi assim com Leão, Paulo Autuori e agora Muricy Ramalho. Isso porque a comissão-técnica são-paulina não é alterada a cada mudança de comandante. O preparador físico Carlinhos Neves, o superintendente Marco Aurélio Cunha, o auxiliar técnico Milton Cruz e o médico José Sanches são alguns dos funcionários com mais de cinco anos de casa. “O técnico que quiser trabalhar aqui não trará um monte de gente, não”, avisa Juvenal. “Já temos uma comissão técnica de altíssimo nível e só aceitamos que o treinador indique um auxiliar”, explica.

Bastidores: o São Paulo tem ótimo relacionamento com a Conmebol (Confederação Sul-americana de Futebol) e, por conta disso, sempre consegue emplacar seus desejos. No ano passado, por exemplo, o Tricolor esperneou que não jogaria a final da Libertadores na Arena da Baixada, por causa de obras no estádio. O pedido de vetar a casa do Atlético-PR foi atendido e o primeiro confronto da decisão aconteceu no Beira-Rio, em Porto Alegre. Já com a CBF (Confederação Brasileira de Futebol), a coisa é diferente. Isso porque o “santo” de Juvenal Juvêncio não bate com o do presidente da entidade nacional, Ricardo Teixeira. Até por isso, o clube paulista vive chorando, dizendo-se vítima de árbitros.

Fator casa:
um dos grandes trunfos do São Paulo em sua história é o Morumbi. Além de ser o maior palco para futebol do estado, o estádio nunca presenciou uma derrota do Tricolor em partidas decisivas da Libertadores. Foram 24 vitórias e dois empates em 26 jogos. “Jogando ao lado de 70 mil torcedores e no gramado que a gente conhece tão bem é muito difícil nos bater”, sentencia o atacante Ricardo Oliveira.