2006 - EDIÇÃO 38

GANA TAMBÉM É CULTURA
Por Jorge Nicola

Que a seleção de Gana é a adversária do Brasil nesta terça, pelas oitavas-de-final da Copa, todo mundo sabe. Que os jogadores do técnico Ratomir Dujkovic fogem do estilo africano de só atacar, esquecendo-se da defesa, também é bastante conhecido. O que passa quase desapercebido é a história de um país sofrido, miserável, e que teve quase toda sua população de homens escravizada e levada para trabalhar nos Estados Unidos e no Brasil entre os séculos XVI e XVII.

Com o fim da escravatura, milhares de escravos que viviam no Brasil retornaram à Gana, formando uma comunidade chamada Tabom, que se estabeleceu na capital Acra. Colônia britânica até 1957, a pátria de Appiah, Boateng, Pimpong e tantos outros vive ainda hoje os reflexos de centenas de anos de exploração de ouro, diamantes e manganês. É extremamente subdesenvolvido, com índice de pobreza de 31,4%. Quase metade da população não sabe ler, nem escrever, e a taxa de desemprego ultrapassa 20%.

O pequeno país localizado na África Ocidental, próximo a Burkina Faso, Togo e Costa do Marfim, tem como língua oficial o inglês. Ainda assim, outros seis dialetos são falados na região, com forte tradição tribal. A moeda é o Cedi.

E calor nunca será problema para os rivais do Brasil. Isso porque o clima em Gana é tropical, com
Goleiro Kingson costuma sair mal do gol
temperaturas médias anuais próximas dos 30º C. Lá existem duas estações das chuvas, entre maio e junho, e agosto e setembro. Uma das atrações é o Lago Volta, o maior feito pelo homem no mundo, com extensão de 520 quilômetros. Ele gera eletricidade, ajuda na irrigação e é uma via de transporte para o interior.

A economia de Gana é baseada na extração de recursos naturais, e ainda hoje se explora ouro. Cacau e madeira são exportados para todo o planeta. Desde que conseguiram a independência, os ganeses adotaram um estilo dançante chamado high life, bastante tocado em bares e clubes do país. Boa parte da população é adepta da percussão, e é comum escutar tambores sendo tocados em eventos sociais.

Em campo

A principal virtude das Estrelas Negras, como são chamados na África, é a capacidade de marcação. Na primeira fase do Mundial, os ganeses conseguiram 140 desarmes por jogo, 21 a mais que os brasileiros. O time de Dujkovic também bate mais: tem média de 25 faltas por partida, contra apenas 11 da equipe de Parreira.

Por causa dessa virilidade, Gana estará desfalcada de sua estrela na terça-feira, em Dortmund. O volante Essien, que joga no poderoso Chelsea, da Inglaterra, recebeu o segundo cartão amarelo na vitória por 2 a 1 sobre os Estados Unidos e terá de cumprir suspensão automática. Era de Essien e do meia Appiah a responsabilidade de criar as jogadas no meio-de-campo, para o rápido e perigoso atacante Asamoah Gyan. Seu único problema é a falta de concentração na hora do arremate – ele perdeu gols incríveis no triunfo sobre a República Tcheca, por 2 a 0.

Pimpong e Appiah comemoram gol de Gana contra os EUA
O goleiro Kingson é do tipo malucão. Capaz de defesas sensacionais debaixo das traves, não inspira qualquer confiança nas bolas levantadas à área. Ainda assim, está sempre se aventurando quando os adversários arriscam cruzamentos. Pouco à frente dele fica o zagueiro Mensah, que é muito forte fisicamente e ótimo nos desarmes.

Na única derrota na atual Copa, diante da Itália, por 2 a 0, Gana foi bastante prejudicada pela arbitragem. De quem? Do brasileiro Carlos Eugênio Simon, que não marcou dois pênaltis claros.